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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

“Ano X – Lisboa 1936 – Estudo de Factos Sócio-culturais” é uma análise rica e curiosíssima sobre um ano da vida portuguesa. Não se trata, porém, de um ano qualquer, é um ano significativo: em Portugal, o regime do Estado Novo procurava consolidar-se, em Espanha abria-se um dos períodos mais dramáticos e sangrentos da sua história, na Europa e no mundo encetava-se um conflito mundial de dimensões inéditas e consequências imprevisíveis. E o certo é que a catástrofe ia-se anunciando, com o acastelar de nuvens muito negras no horizonte.

A VIDA DOS LIVROS
de 3 a 9 de Janeiro de 2011

“Ano X – Lisboa 1936 – Estudo de Factos Sócio-culturais” é uma análise rica e curiosíssima sobre um ano da vida portuguesa. Não se trata, porém, de um ano qualquer, é um ano significativo: em Portugal, o regime do Estado Novo procurava consolidar-se, em Espanha abria-se um dos períodos mais dramáticos e sangrentos da sua história, na Europa e no mundo encetava-se um conflito mundial de dimensões inéditas e consequências imprevisíveis. E o certo é que a catástrofe ia-se anunciando, com o acastelar de nuvens muito negras no horizonte.

UM CICERONE PRIVILEGIADO
José-Augusto França concede-nos o privilégio de podermos contar com um cicerone de exímia qualidade para nos guiar. E o exercício é atraente e utilíssimo, uma vez que podemos ter uma enumeração de acontecimentos, lidos criticamente, o que nos permite compreender os protagonistas, os factos e as circunstâncias. Mas Salazar parece não ter dúvidas: “a linha tradicional da nossa política externa, coincidente com os verdadeiros interesses da pátria portuguesa, está em não nos envolvermos, podendo ser, nas desordens europeias, em manter a amizade peninsular e em desenvolver as possibilidades do nosso poderio atlântico”. O ano décimo da Revolução Nacional correspondeu a uma encruzilhada singular, entre a afirmação de um projecto autoritário, saído da Revolução militar de 28 de Maio de 1926, e a emergência do poder catedrático de Oliveira Salazar. Na obra, o autor deixa falar os acontecimentos, ora enaltecidos, ora silenciados, ora vilipendiados, segundo o método de um Estado paternalista e policial. E assim “o professor Oliveira Salazar, em protagonismo oficial e real, adrede mitificado, pôde impor-se definitivamente neste ano de 1936, confirmando o poder da sua Presidência do Conselho de Ministros, seleccionados, sucessivamente entre os possíveis de competência, por sua obediência de princípios e pessoas, com a ocupação, para além das Finanças, a priori estabilizadas, de mais duas pastas – da Guerra, dominando (com o capitão Santos Costa por fiel acólito) últimas possíveis oposições internas, que só então podiam contar, e dos Negócios Estrangeiros, para definir (como há muito desejava), num mundo agitado, a posição externa do País / regime – que em Armindo Monteiro perdera confiança”.

A «ERA DO ENGRANDECIMENTO»
O ano é definido, depois da “Era da Restauração”, como o do início da “Era do Engrandecimento”. É Salazar quem desfralda a bandeira mobilizadora, enquanto o mimetismo relativamente à tendência europeia dos totalitarismos se traduz na criação da Mocidade Portuguesa, como organização nacional e pré-militar, na sequência da Acção Escolar Vanguarda, e da Legião Portuguesa, organização patriótica de voluntários. Havia que mobilizar e formar uma plêiade de apoiantes da causa e do regime. Nesse sentido, é significativo o que acontece no campo da Educação. Carneiro Pacheco é a personagem-chave do novo governo, iniciado nos primeiros dias do ano – empenhado em lançar uma contra-revolução que pudesse apagar ou atenuar as marcas educativas da 1ª República. Se a reforma do ensino teve as primeiras acções com o ministro Cordeiro Ramos (1929), foi com Carneiro Pacheco que se operou uma autêntica reformulação ideológica. O “saber ler, escrever e contar” seria “suficiente para a maior parte dos portugueses”, pretendendo-se “evitar um estéril enciclopedismo racionalista, fatal para a saúde moral e física da criança”. Por isso, não bastaria falar em saber ler, escrever e contar, uma vez que o próprio Salazar afirmo que “saber ler é uma arma que tanto pode servir para o bem como para o mal e é para o mal que tende”. Os postos escolares substituiriam as escolas primárias e os regentes escolares (sobretudo mulheres) permitiriam um ensino mais barato e menos qualificado. Além do mais, os professores primários herdados do período republicano não eram os mais adequados à nova doutrinação – tendo, aliás, as Escolas do Magistério Primado sido extintas nesse mesmo ano. Por outro lado, o ensino obrigatório que a República fixara em 5 anos passava para apenas 3.

DUARTE PACHECO PREPARA REGRESSO
O ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco era arredado fugazmente das suas responsabilidades na remodelação de Janeiro e teria de esperar para regressar à ribalta pela porta da Câmara Municipal de Lisboa, em 1 de Janeiro de 1938, pouco depois, de novo, como titular das Obras Públicas. No entanto, em 1935, já deixara delineado o desenvolvimento de Lisboa para oriente, a partir da grande obra do Instituto Superior Técnico, cabendo ao urbanista francês Alfred Agache o estudo das novas perspectivas de desenvolvimento da cidade. O capítulo “Lisboa, 1936” dá-nos a expressão viva da autoridade de José-Augusto França como historiador de primeiríssima água, com vivacidade, espírito de síntese e lucidez crítica a toda a prova, capazes de ligar a compreensão das grandes decisões estratégicas, das polémicas sobre o futuro da cidade, da criatividade dos planeadores e dos artistas, ao pitoresco fait-divers dos crimes que perturbavam a aparente pacatez da cidade, do movimento dos almocreves, do comércio, das modas, das profissões liberais, do desporto (o Benfica passa a ser designado pelo encarnado, e não vermelho, pelo início da guerra espanhola, para impedir conotações políticas e o ciclista José Maria Nicolau é a grande referência do momento), da tauromaquia ou das festas, numa Lisboa dominada pela dupla burguesia, rica e pelintra, que encontramos retratada na obra humorística de Armando Ferreira, “Lisboa Sem Camisa”, ou nas imprescindíveis crónicas humorísticas desenhadas por Botelho nas páginas de “Sempre Fixe”. O ano de 1936, com dramas anunciados e a tendência para um auto-comprazimento do País formal e oficial, regista uma tensão evidente de contrários – Eduardo Malta ganha o prémio do Secretariado da Propaganda Nacional, Almada Negreiros expõe o “Duplo Retrato” e trabalha na moderna Igreja de N.S. de Fátima, enquanto António Pedro apresenta as suas obras “Sabat” e “Dança de Roda” e morre Joaquim de Vasconcelos, o pioneiro da história da arte portuguesa. Entretanto, João Gaspar Simões escreve “Uma História de Província”, Aquilino assina “A Aventura Maravilhosa de D. Sebastião”, António Sérgio publica o quinto tomo dos “Ensaios”, J. Osório de Oliveira é autor de “Romance de Garrett”, José Régio assina “Encruzilhadas de Deus”, Miguel Torga, “O Outro Livro de Job”, Adolfo Casais Monteiro “Sempre e Sem Fim”. Fernando Pessoa morrera em Novembro de 1935, e a revista “Presença” dedica um número especial ao escritor desaparecido, em Julho de 1936. Tudo se passa como se pudéssemos entrar numa máquina do tempo, accionando o piloto automático para viajarmos até ao ano de 1936, em Portugal. E depois percebemos qual a distância enorme a que nos encontramos. Bom Ano!

Guilherme d'Oliveira Martins

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