"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
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A VIDA DOS LIVROS 08-02-2010
“Outra Margem – Estudos de Literatura e Cultura Portuguesas” de Ana Nascimento Piedade é um percurso de pesquisa sobre a modernidade portuguesa, que provém de Eça de Queirós e da Geração de Setenta, para chegar ao século XX, em especial aos tempos de “Orpheu”, vindo também à “presença” e a Eduardo Lourenço. Como disse o mesmo Eduardo Lourenço, na apresentação do livro no Centro Nacional de Cultura, trata-se de ver o fenómeno literário e cultural no Portugal moderno com os olhos de uma “outra margem” e com a capacidade de tentar compreender melhor, para além dos condicionalismos do tempo… E Vergílio Ferreira esclarece bem que essa situação singular é “ser apenas do lado da vida em que não passa muita gente, se é quase anónimo, fora do alvo que é visado pela notoriedade, curiosidade pública, grande reputação. Ser em humildade, na discrição de nós, na curta dimensão de nós”.

A VIDA DOS LIVROS 01-02-2010
O Prof. Vitorino Magalhães Godinho acaba de dar à estampa um pequeno volume intitulado “Os Problemas de Portugal – Mudar de Rumo” (Colibri, 2009). É de saudar a vitalidade de espírito do mestre da historiografia moderna portuguesa, que nos apresenta um conjunto de temas, de reflexões e de propostas, que constituem um desafio estimulante a que haja um debate aprofundado sobre o presente e o futuro. E o certo é que, muito mais importante do que uma proposta política, o que está em causa neste contributo é uma reflexão intelectual séria, que merece especial atenção e que deve constituir-se em estímulo e desafio para todos. Nada pior do que continuarmos a oscilar entre o conformismo fatalista dos que preferem ver só os aspectos negativos da vida nacional, sem cuidarem de saber os caminhos que podem e devem ser trilhados, e o optimismo primário dos que julgam que poderemos superar as dificuldades sem trabalho, disciplina, exigência e vontade.

A VIDA DOS LIVROS 25-01-2010
Edgar Morin (1921) publicou em 1997 “Uma Política de Civilização” (Instituto Piaget, s.d.), com Samir Naïr, onde os dois autores se interrogam sobre o futuro indecifrável em que estão lançadas as sociedades contemporâneas. Com a crise da ideia de progresso, nasce a incapacidade de reflectir sobre os problemas globais e locais, enquanto ocorrem tendências para a intolerância e o fanatismo. Para os pensadores, é indispensável mudar de rumo, redefinir a vida em comum e elaborar o que designam como “política de civilização”, considerando-a como um renascimento que reponha o ser humano, a pessoa, como meio, fim, sujeito e objecto da política.

A VIDA DOS LIVROS 18-01-2010
Não podemos falar da história da “New York Review of Books” sem referir David Levine (1926-2009), o genial caricaturista cujos desenhos nos deram, ao longo de muitos anos, excelentes comentários irónicos e lúcidos sobre as mais diversas personalidades do mundo da cultura e da política. Hoje podemos deleitar-nos em www.nybooks.com/gallery/, compreendendo que Levine é, ao lado dos grandes caricaturistas da história dos últimos séculos, como Honoré Daumier (1808-1879), Richard Doyle (1824-1883), Thomas Nast (1840-1902), Leslie Ward (1851-1922) ou a escola alemã do “Simplicissimus”, um criador inconfundível no qual o humor inteligente se junta ao oportuno comentário crítico. Recordamos hoje igualmente a morte de um dos mais importantes autores belgas da escola da linha clara, Tibet (1931-2010), de seu nome Gilbert Gascard, criador nos anos cinquenta, na revista “Tintin”, com A.-P. Duchâteau, de “Ric Hochet”, cujos álbuns constituem muito bons exemplos da melhor banda desenhada europeia.

A VIDA DOS LIVROS 11-01-2010
Albert Camus (1913-1960), que escreveu “A Queda” em 1956 (tradução portuguesa de José Terra, Livros do Brasil, s.d.), é um símbolo do século XX. Estamos perante uma obra da maturidade. A sua vida, o seu percurso pessoal, a obra literária e o pensamento confundem-se com o drama humano do século. As dúvidas, as contradições, os êxitos e os fracassos que viveu dão-lhe uma importância que o tempo tem vindo a aumentar. Se, por um lado, a sua obra tem uma importância inovadora, também é certo que as suas intuições históricas se revelaram de uma grande pertinência. Poderíamos falar dos seus livros de maior sucesso como “L’Étranger” (1942), “Le Mythe de Sisyphe” (1942), “La Peste” (1947), “L’Homme Revolté” (1951) ou “Le Premier Homme” (1994), no entanto preferimos pegar nas preocupações fundamentais do romancista e nos seus temas recorrentes – o absurdo e a procura de uma esperança, que em “A Queda” estão bem presentes.

A VIDA DOS LIVROS 04-01-2010
“Evocação de Sophia” de Alberto Vaz da Silva (Assírio e Alvim, 2009), com prefácio de Maria Velho da Costa e posfácio de José Tolentino Mendonça é um livro belíssimo feito de uma devoção intensa em relação a uma das pessoas mais extraordinárias da cultura portuguesa contemporânea. A poesia pátria, que teve no século XX um momento especialmente rico, como um dia reconheceu João Bénard da Costa, ao duvidar que tivéssemos sido sempre um país de poetas, tem em Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) um caso muito sério de talento e sensibilidade. E nesta evocação o que se sente, fundamentalmente, é a pessoa, como ser inseparável da sua condição de poeta. E se falei de devoção, o certo é que em nada esta perturba a limpidez e a verdade que o autor nos dá e que nos permite relembrar a poeta.

A VIDA DOS LIVROS 28-12-2009
“Notre Jeunesse” de Charles Péguy (Gallimard, 1957) é um livro de 1910, mas contém, no essencial, uma evidente actualidade, uma vez que nos fala da necessidade de haver ideais e dos perigos da sua ausência. Dir-se-ia, pois, que estamos perante uma obra a ler nos nossos dias, num momento em que sob os ecos da crise financeira notamos a ausência de referências fundamentais, que tornem o pluralismo, o respeito e a dignidade como algo de enriquecedor para a humanidade. E não podemos esquecer que Péguy escreveu sob o peso de um debate que ocorreu na passagem dos séculos XIX para o XX a propósito compromisso dos intelectuais sobre os problemas contemporâneos.

A VIDA DOS LIVROS 21-12-2009
“A Minha Primeira Sophia” de Fernando Pinto do Amaral, com ilustrações de Fernanda Fragateiro (D. Quixote, 2009) é um livro para crianças escrito com sentido pedagógico, com o intuito de introduzir os mais novos não apenas no conhecimento da vida de Sophia de Mello Breyner Andresen, mas também de os sensibilizar para a literatura, para a poesia e para a criação artística.

A VIDA DOS LIVROS 14-12-2009
“O Espião de D. João II” de Deana Barroqueiro (Esquilo, 2009) é um romance baseado em factos reais, que nos permite acompanhar a viagem de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João. Transpondo para os dias de hoje a imagem de um “agente secreto”, travestido de James Bond ou de Indiana Jones, a autora não comete o erro do anacronismo e procura, com uma experiência já ganha noutras obras (“O Navegador da Passagem”, “D. Sebastião e o Vidente”), transmitir ao público em geral, e em especial aos mais jovens (dada a sua longa e rica experiência pedagógica), o ambiente geral do final do século XV, com uma evidente vivacidade.

A VIDA DOS LIVROS 07-12-2009
“Representação Política – Textos Clássicos”, coordenação de Diogo Pires Aurélio (Livros Horizonte, 2009) é uma obra integrada na colecção “Estudos Políticos”, dirigida por Pedro Tavares de Almeida, que reúne diversos ensaios sobre a representação popular da autoria de alguns dos mais importantes teóricos sobre a concepção e a aplicação do princípio da legitimidade pelo consentimento – Edmund Burke, Emmanuel Sieyes, Gyorgy Lukács, Hans Kelsen e Carl Schmitt. A obra é antecedida de um estudo introdutório da autoria do organizador da colectânea, onde este reflecte circunstanciadamente sobre “o que representam os representantes do povo”.

A VIDA DOS LIVROS 30-11-2009
"Camilo Castelo Branco – Memórias Fotobiográficas (1825-1890)" de José Viale Moutinho é uma obra que nos conduz no percurso multifacetado de um nossos maiores escritores, mas, mais do que isso, leva-nos ao Portugal profundo do século XIX, que o autor de “Amor de Perdição” representa e descreve. Figura muitas vezes desconhecida, apesar do sucesso dos seus livros e da paixão que suscita ainda hoje em tantos leitores, Camilo protagonizou uma vida aventurosa de um romântico que teve a lucidez de se libertar dos constrangimentos de escola que esterilizaram tantas outras promessas. Homem cultíssimo, estudioso exaustivo da história e da sociedade, romancista fecundo – Camilo soube ultrapassar as poderosas baias românticas, indo ao encontro das tendências modernas do seu tempo. A partir de uma personalidade muito forte, o retrato que encontramos de Camilo é a representação de alguém cujo talento resulta de um cadinho onde se misturam ingredientes quase explosivos da sociedade antiga e da sociedade contemporânea, que o escritor procura contraditoriamente compreender.

A VIDA DOS LIVROS 23-11-2009
Acaba de ser publicado “Heritage and Beyond” (Council of Europe, Strasbourg, 2009) sobre a nova Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o Valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (a Convenção de Faro de 27 de Outubro de 2005). Trata-se de um repositório muito circunstanciado e fundamental sobre o tema, que foi desenvolvido no Colóquio Internacional que se realizou em Lisboa a 20 de Novembro sob os auspícios do Conselho da Europa (com o CNC e o IGESPAR), oportunidade excepcional para olharmos as políticas públicas da cultura à luz da modernidade, tendo connosco os melhores especialistas da actualidade sobre a matéria. O património cultural é uma realidade viva. A História deixa de ser pertença de alguns, é uma encruzilhada que implica sempre a humanidade toda. E se os acontecimentos fazem as identidades, as identidades devem favorecer o novo entendimento das fronteiras, como linhas de encontro e de aproximação, muito mais do que de divisão e separação. E não se pense que falamos de abstracções. Não, falamos só de fronteiras que compreendam o conhecimento e os conflitos, mas que também regulem permanentemente esses conflitos na perspectiva de uma cultura de paz.

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