Pedras no meio do caminho

XXVI. Naturalmente, a Estrada de Sintra

No primeiro romance policial português, de 1870, conta-se o misterioso rapto perpetrado por um grupo de mascarados. Eça de Queiroz confessa em 1884 que «numa noite de verão no Passeio Público, em frente a duas chávenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade, que em torno de nós cabeceava de sono, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo a berros num romance tremendo, buzinando à Baixa das alturas do ‘Diário de Notícias’». E começaram a escrita, num romance epistolar a quatro mãos: “Certa noite, indo um médico e um escritor na caleche pela estrada de Sintra (que se iniciava onde hoje é a Estrada de Benfica e ligava a capital àquela vila) foram surpreendidos e raptados por quatro homens embuçados, que os levariam a uma casa isolada. O objetivo era confirmar o óbito de um oficial britânico, a quem fora ministrada uma dose excessiva de ópio”. A partir daí, os acontecimentos sucedem-se a um ritmo alucinante. À medida que a noite avançava os dois compreenderiam estar diante da consequência trágica de um triângulo amoroso constituído pelo morto, uma condessa portuguesa mal casada e uma bela rapariga chegada de Cuba. Tudo começara meses antes da noite fatídica durante uma estada na ilha de Malta à época parte do Império britânico. Quem é o morto e quem o matou? E porquê? Quem era a mulher com quem ele se encontrava, e quem são os mascarados que pretendem proteger a sua honra? 

A história foi publicada no Diário de Notícias entre julho e setembro de 1870 sob a forma de cartas anónimas, e foram muitos os que se assustaram com os acontecimentos narrados. Para anunciar a história, o DN começou por anunciar: “A hora já adiantada recebemos ontem um escrito singular. É uma carta, não assinada, enviada pelo correio à redação, com o princípio de uma narração estupenda que dá ares de um crime horrível, envolto em sombras de mistério, e cercado de circunstâncias verdadeiramente extraordinárias, e que parece terem sido feitas para aguçar a curiosidade, e confundir o espírito em milhares de vagas e contraditórias conjeturas. Trata-se da sequestração noturna de um médico, de um amigo seu para assistirem a um ato gravíssimo, e, demais factos subsequentes. O interesse que esta narração desperta, a forma literária que a reveste, e o crime que parece revelar nos obrigam a não buscar resumi-la e dá-la na íntegra aos nossos leitores”. E eis a carta que antecedia a narrativa: «Senhor Redator do DN, venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinário em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que eu entender mais adequado, publique a substância do que vou expor. Os sucessos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mistério, envolve-os uma tal aparência de crime que a publicidade do que se passou torna-se importantíssimo como chave única para a desvendação de um drama que suponho terrível conquanto não conheça dele um só ato». Só no final é que Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão admitiram tratar-se de uma brincadeira e que eram eles os autores das cartas. 

Luísa, apenas identificada misteriosamente pelo nome próprio e como Condessa de W., era casada com um bon vivant, conhecido, mas com pouca história. Ela era inteligente e culta, mas diferente das heroínas românticas de pacotilha. Cultivava a sua autonomia e procurava enfrentar o destino. Recebia em casa numerosos amigos, entre os quais o excêntrico Carlos Fradique Mendes, cheio do original dandismo satânico. Cosmopolita e viajada, Luísa sente tédio pela vida rotineira que leva. E o conde convence-a a fazer uma viagem, com um primo seu, e melhor amigo, à ilha de Malta (que neste folhetim surge pela segunda vez). Na escala por Gibraltar conhecem o belo capitão Rytmel, súbdito de Sua Majestade Sereníssima. A condessa e o capitão caem-se de amores e iniciam uma relação clandestina, entre Paris e Lisboa. Na capital, encontram-se amiúde numa casa arrendada. E é aí que tem lugar o acontecimento tremendo que precipitará a tragédia, como veremos no próximo capítulo e que constitui o cerne deste epílogo…

Agostinho de Morais


 

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