Os Portugueses ao Encontro da sua História

Viagem à América do Sul

Colónia do Sacramento, fundação de São Paulo e os Bandeirantes
31 de agosto a 11 de setembro de 2007
Guia: Prof. Fernando António Baptista Pereira

Entre bandeirantes, índios e jesuítas…

por Guilherme d’Oliveira Martins

O Brasil e a América do Sul são fruto de movimentos contraditórios e complementares. Os Bandeirantes levaram as fronteiras onde se julgava ser impossível chegar, os índios ora foram perseguidos ora foram protegidos, e os jesuítas representaram o contraponto aos Bandeirantes, empenhados no ensino e na criação das reduções em nome da dignidade humana e de um projecto de criação de pequenas repúblicas autónomas…
Iremos confrontar-nos com tais paradoxos e tentar compreender que a cultura brasileira é produto dessas várias influências. Partiremos da cidade de S. Paulo de Piratininga, onde os Padres Manuel da Nóbrega e José da Anchieta fundaram o colégio da Companhia de Jesus para catequese dos índios, no dia da conversão de Paulo de Tarso, em 25 de Janeiro de 1554, num barracão feito de taipa de pilão, entre os rios Anhangabaú e Tamanduatei. Em 1560, iniciou-se o povoamento da futura cidade, tendo o governador Mem de Sá enviado para a vizinhança do colégio a população da vila de Santo André da Borda do Campo. S. Paulo manteve-se, contudo, durante dois séculos, como uma vila pobre e isolada, cuja riqueza provinha da lavoura de mera subsistência. Por ser uma das regiões mais pobres da colónia tornou-se centro de irradiação dos Bandeirantes, aventureiros que se dispersaram pelo interior do Brasil em busca de riqueza, de índios, de ouro e de diamantes. Partiam de São Paulo e de São Vicente e dirigiam-se para o interior pelas florestas desconhecidas, seguindo o rio Tieté, um dos principais meios de acesso para o interior do território. As expedições eram designadas como “Entradas” ou “Bandeiras”. As primeiras eram oficiais, organizadas pela administração territorial, enquanto as “Bandeiras” eram financiadas por senhores de engenho, donos de minas e comerciantes, desejosos de encontrar novos recursos e novas riquezas. A descoberta do ouro na região de Minas Gerais mudou o curso dos acontecimentos e fez com que as atenções do reino se voltassem para São Paulo, elevada à categoria de cidade (1711). A partir do século XVII viveu-se a febre do ouro e das pedras preciosas. Então, bandeirantes como Fernão Dias Pais, o seu genro Manuel Borba Gato, concentram-se nas buscas de Minas Gerais. Mas outros foram além da linha do Tratado de Tordesilhas (uma vez que vigorava a união pessoal de Portugal e Espanha) e descobriram metais preciosos. Desenvolvem-se Goiás e Mato Grosso e destacam-se: António Pedroso, Alvarenga e Bartolomeu Bueno da Veiga, o Anhanguera. A lista dos bandeirantes foi crescendo. E quando vemos o monumento de S. Paulo, da autoria de Victor Brecheret (na Pç. Armando Salles de Oliveira), vêm à memória os nomes de: Jerónimo Leitão, participante na primeira bandeira conhecida; Nicolau Barreto, que seguiu pelo Tieté e Paraná e regressou com índios capturados; António Raposo Tavares, que atacou missões jesuítas espanholas para capturar índios; Domingos Jorge Velho, que foi até ao Nordeste; e Francisco Bueno, que foi até ao Uruguai.  Pode dizer-se que os bandeirantes foram responsáveis pela expansão do território brasileiro, desbravando os sertões para além do meridiano de Tordesilhas e criando o Brasil de hoje. S. Paulo tornou-se, assim, uma grande metrópole, depois dos ciclos do açúcar e do café, de se ter tornado Cidade Imperial, da criação da Universidade, da industrialização e de ter sido a grande matriz do Brasil Moderno, onde teve lugar a mítica Semana de Arte Moderna de 1922e onde está o MASP. O nosso périplo invocará os Bandeirantes, mas também as Reduções dos Jesuítas, e levar-nos-á a Colónia de Sacramento, ao Rio da Prata e à cidade mágica de Buenos Aires do tango e de Jorge Luís Borges – ele que disse: “A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires: La juzgo tan eterna como el agua y como el aire”…

Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai

por Fernando António Baptista Pereira

A viagem que, em 2007, o CNC promove ao Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai, inserida no Ciclo Os Portugueses ao Encontro da sua História, vai permitir confrontar visões diferentes, para não dizer opostas, de alguns dos aspectos da colonização portuguesa na América do Sul, ao mesmo tempo que nos coloca diante de alguns dos grandes contrastes culturais do presente na região: de um lado, as grandes metrópoles urbanas (S. Paulo ou Buenos Aires), do outro, o universo natural e rural de certas áreas que, mercê dos valores patrimoniais que encerram, devidamente protegidos e classificados, despertam para o turismo cultural de qualidade.

O alargamento das fronteiras do Brasil: os Bandeirantes e as reduções jesuíticas – duas visões contrastantes

O primeiro grande tema que iremos abordar na primeira parte da viagem será o da formação territorial do Brasil com o alargamento das suas fronteiras proporcionado pela acção dos Bandeirantes, a partir de S. Paulo, cidade fundada a partir de um estabelecimento jesuíta.
Estavam em causa não apenas estratégias de obtenção de mão-de-obra escrava para os engenhos de açúcar, mas também formas de estabelecer contactos entre o Brasil e as colónias espanholas que escapassem a um controlo directo das respectivas coroas, assim como um modelo de povoamento levado a cabo pelos Portugueses, assente no velho instituto da «sesmaria».
Junto às fronteiras actuais entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina, no cenário grandioso do Iguaçu, encontraremos as «reduções» jesuíticas da região dos «30 povos» da etnia Guarani, sete dos quais seriam incorporados no território brasileiro, em 1750, por troca com a Colónia do Santíssimo Sacramento, nos termos do Tratado de Madrid.
Essas missões ou «reduções» jesuíticas procuravam defender os povos Guaranis dos caçadores de escravos e da acção dizimadora dos Bandeirantes, integrando as populações índias em sistemas de povoamento, fixação e evangelização que pouco tinham a ver com a cultura autóctone, antes se inspiravam em modelos monásticos comunitários de ascendente medieval importados da Europa temperados por algum pensamento utópico de raiz renascentista.
Algumas das missões, especialmente as que estavam mais próximas dos principais centros urbanos, reflectiam muito as características devocionais e artísticas da colonização espanhola. Algumas delas conservam partes significativas dos antigos edifícios e em várias há interessantes museus com arte sacra, em que avulta a imaginária realizada por artistas locais conversos ou por padres jesuítas aí radicados.

Os portugueses no Rio de la Plata e a Colónia do Sacramento

A fixação dos europeus na bacia e na foz do Rio de la Plata não foi tão rápida e eficaz como noutros pontos da costa brasileira ou mesmo em certas áreas do interior da América do Sul. As lutas contra os índios e o contrabando imperaram na região durante toda a centúria de Quinhentos, havendo ligações constantes entre as colónias portuguesas do sul do Brasil com as colónias espanholas da região de La Plata e mesmo com o Perú, contactos esses que se intensificariam com a União Ibérica, decrescendo depois da Restauração da independência portuguesa.
Na sequência da Guerra da Restauração e com a decadência da Espanha dos Habsburg, os Portugueses fundaram, em 1680, a Colónia do Sacramento, que teria existência atribulada e trocas constantes de soberania até à sua entrega definitiva a Espanha, em 1777, pelo Tratado de Santo Ildefonso. Não obstante, um interessante património construído de ascendência lusa permanece, assim como persiste no Uruguai um onomástico numeroso de origem portuguesa.

São Paulo e Buenos Aires

O programa da viagem proporciona também uma visão global das duas imponentes Metrópoles do Mercosul: S. Paulo e Buenos Aires.
Na primeira, que é a maior cidade do hemisfério sul, teremos oportunidade de visitar museus e locais que pontuam significativamente a sua história: a Praça do Colégio no Centro Velho, memória da fundação da cidade, o Museu do Ipiranga, evocação da S. Paulo de Oitocentos, e lugares emblemáticos do gosto modernista brasileiro do século XX associado à cidade – a Pinacoteca com obras de artistas ligados à «Semana de Arte Moderna», o Parque de Ibirapuera, sede da Bienal, ou o MASP, a melhor colecção de arte da América do Sul, num edifício notável.
Na capital da Argentina, um passeio pelo seu centro revelar-nos-á a memória das origens da Nação e da cidade, a monumentalidade de edifícios como o Teatro Colón, a extraordinária qualidade da arte pública, o casticismo de bairros como o de Bocca ou o de S. Telmo, além de uma evocação desse mago das letras do século XX que foi Jorge Luís Borges.

>> PROGRAMA

Crónicas de Viagem

Por Paula Moura Pinheiro para a RDP, directamente dos vários pontos de passagem desta viagem do ciclo “Os portugueses ao encontro da sua história”

Crónica I – São Paulo

Crónica II – Iguaçu

Crónica III – Paraguai

Crónica IV – Missões jesuíticas e os povos Guaranis

Crónica V – Rio Grande do Sul e Buenos Aires

Podcast

Este podcast reproduz as cinco crónicas de viagem e termina com uma conversa entre Paula Moura Pinheiro, Guilherme d’Oliveira Martins (então Presidente do CNC), Fernando António Baptista Pereira (guia da viagem) e Pedro Roseta (sócio do CNC que propôs este percurso).

Registos fotográficos


Apoio: Presidência do Conselho de Ministros
Parceria: Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa (CEPCEP) / Universidade Católica
Agradecimentos: RTP, RDP e ANA Aeroportos de Portugal, SA

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