Nau Catrineta que tem muito que contar…

Um guardador de rebanhos…

Folhetim de Verão – Capítulo XIV

Esta Nau Catrineta tem características especiais, uma vez segue ao ritmo da memória uma certa perspetiva do modernismo da geração de “Orpheu”. Almada Negreiros nos Painéis de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos seguiu a sua imaginação para representar o espírito inconformista na definição de Portugal. Pode dizer-se que, na sua controvérsia, os Painéis representam uma identidade de novecentos anos, numa artificiosa síntese, em que somos definidos entre D. Fuas Roupinho do século XII e as varinas ou os saltimbancos do século XX. Celebra-se o mito, é a imaginação que se enaltece. E houve quem não entendesse, pois preferiria ver uma glorificação postiça e ilusória. Mas o pintor recusou esquecer as pessoas concretas e o povo e as suas ideias. O “Orpheu” de Fernando Pessoa que está bem à vista na mesa do Martinho da Arcada significava o inconformismo, a imaginação que desassossegava. António Ferro deu abertura e cobertura a isso mesmo, ou não tivesse sido ele secretário da revista “Orpheu” por ser menor de idade, para proteger a ideia das tentativas policiais de censurar um grupo de supostos loucos que ali estavam, no dizer do Professor Júlio de Matos. Vejamos hoje quem fazia parte desse conjunto de artistas, em parte imaginários, porque só Fernando Pessoa trouxe para a ribalta um conjunto de heterónimos para enriquecer o espetáculo. Comecemos por Alberto Caeiro, o “Guardador de Rebanhos”, o mestre, quase analfabeto, que cultivava o ofício de apontar caminhos novos. E era indiscutivelmente Mestre, apesar de ser o menos qualificado.

Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa em 16 de abril de 1889 e morreu em 1915, mas viveu toda a vida no campo com uma tia-avó idosa, porque tinha ficado órfão de pais muito cedo. Deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Era louro, de olhos azuis. Como educação apenas tinha tirado a instrução primária e não tinha profissão. Um dia Pessoa lembrou-se de fazer uma partida a Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico. De espécie complicada, e apresentar-lho. “levei uns dias a elaborar o poeta, mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever de pé. Como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título “O Guardador de Rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase (confessa a Adolfo Casais Monteiro): aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação que imediatamente tive”. Quando Fernando Pessoa escreve o nome de Caeiro, diz que o faz “por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever”. “Eu nunca guardei rebanhos / mas é como se os guardasse. / Minha alma é como um pastor, / Conhece o vento e o sol / E anda pela mão das Estações / A seguir e a olhar. / Toda a paz da Natureza sem  gente / Vem sentar-se a meu lado. / Mas eu fico triste como um pôr do Sol / Para a nossa imaginação,/ Quando esfria no fundo da planície / E se sente a noite entrada / Como uma borboleta pela janela”…

(Continua)

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