Nau Catrineta que tem muito que contar…

Quem é este Bernardo Soares?…

Folhetim de Verão – Capítulo XVII

Hoje é obrigatória a sua referência, mas para os pioneiros pessoanos é tardia a sua aparição. Mencionado de fugida em 1920 como escritor de contos, o nome de Bernardo Soares desaparece em seguida, mas voltaria a surgir apenas em 1929 como autor do Livro do Desassossego. Mas cuidado, pois demorará muito tempo até se poder dar atenção a esse fenómeno. Falamos dos documentos da Arca, depois de muito decantados. As notas de Fernando Pessoa indicam, porém, que trechos desse livro escritos na década de 1920 são originalmente atribuídos a Vicente Guedes (concebido em 1909). No entanto, por um passe de mágica, o Desassossego passa para a propriedade literária de Bernardo Soares, que trabalhou como ajudante de guarda-livros na Rua dos Douradores, na Baixa pombalina. Apresentado como homem de hábitos solitários que vivia num quarto andar arrendado na mesma rua. Não se trata, porém, de mais um heterónimo. É um semi-heterónimo, escreveu Pessoa no último ano da sua vida. Não há dúvida de que parte da autobiografia de Pessoa, se tivesse escrito uma, mas não devemos confundir a criatura com o seu criador. Soares não foi réplica de Pessoa nem sequer em miniatura, mas um Pessoa mutilado, com elementos em falta. Bernardo Soares tinha pouca personalidade e nenhum sentido de humor.. Pessoa possuía as duas coisas e em grande medida. Ora, como seu semi-heterónimo, a verdade é que ele representa um empregado de escritório da Baixa, mas enquanto aquele foi condenado à rotina de preencher com preços e quantias o livro Razão de um armazém de fazendas, este teve o trabalho relativamente prestigioso de escrever cartas comerciais em inglês e em francês. Fernando Pessoa prestou serviço em várias firmas jamais tendo sido obrigado a cumprir um horário fixo.

Quase nada sabemos de Bernardo Soares antes dele se instalar na Rua dos Douradores. É identificado como contista num projeto editorial escrito num caderno onde também aparece uma lista de dez contos, um dos quais “Marcos Alves” vem mencionado em dois manuscritos que contêm matéria relativa ao célebre Livro do Desassossego. O Livro, porém, aparece no mesmo projeto sem nenhuma atribuição autoral. Será que Vicente Guedes já tinha sido afastado do livro? Talvez não, mas o que parece certo é que, quando Bernardo Soares assumiu a sua autoria, também assumiu, mais ou menos, a biografia do seu antigo autor. Mais precisamente, Vicente Guedes, que morreu jovem (sendo Pessoa quem deveria apresentar o seu Livro em público) terá reencarnado de alguma forma em Bernardo Soares, que também morava num quarta andar da Baixa e também trabalhava num escritório, sendo um diarista também excessivamente lúcido. Soares até ficou pelos serões provincianos das paciências, com a infância de Guedes.

Mas há mais um desassossegado a registar. O aristocrata Barão de Teive, associável ao Livro, não como autor, mas como colaborador. Teive também sofria de tédio e também não encontrava nenhum sentido na vida e não tinha salvação possível, sendo o seu ceticismo total. Lembremo-nos que o seu único manuscrito se intitula A Educação de um Estoico…

Seja como for, Fernando Pessoa (ele mesmo) apostou muito no seu semi-heterónimo, descoberto tardiamente, o qual graças ao seu estatuto privilegiado poderia ter ocupado um espaço bem maior no mundo por ele criado, se tivesse vivido mais uns anos… Eis como o Livro do Desassossego, que conhecemos, toma uma proporção especial na construção pessoana.

Por um momento, regresso a Álvaro de Campos.
Aí poderemos encontrar talvez uma pequena chave.

«E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos
Sigo o fumo como uma rota própria
E gozo, num momento sensitivo e competente
A libertação de todas as especulações E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz).
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo o troco na algibeira das calças).
Ah, conheço-o: é Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta).
Como por instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me  adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves! E o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança e o Dono da Tabacaria sorriu».

(Continua)

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