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Norberto Barroca [1937-2020]

Apaixonou-se pelo jogo teatral a observar o labor dos vidreiros da Marinha Grande, despediu-se com um espetáculo sobre eles. Pelo meio, fez de tudo, de Shakespeare à revista.

O encenador que não virava a cara a nenhum tipo de teatro

Poucas figuras atravessaram como Norberto Barroca o teatro português dos últimos 70 anos em todas as suas encarnações, do espetáculo declaradamente popular (Um Cálice do Porto, que criou para a Seiva Trupe, foi o seu grande blockbuster, mas também se aventurou no Parque Mayer) às sinuosas construções ficcionais de um autor de vanguarda como Fernando Arrabal (teve em 1969 com Fando e Lis a sua consagração crítica), das aventuras fundadoras do teatro universitário no Portugal censurado da década de 50 a grandiosas encenações comunitárias como A Lenda de Gaia, que marcou uma fase já terminal da sua carreira, nos 12 anos, entre 1998 e 2009, em que foi diretor artístico do Teatro Experimental do Porto (TEP).

Norberto Barroca, que ontem morreu em Lisboa, aos 82 anos, na sequência do agravamento de uma pneumonia que o mantinha hospitalizado há já várias semanas, não saiu incólume desse percurso tão diverso em que não virou a cara a nenhum tipo de teatro.

“Infelizmente, creio que ele pagou o preço desses espetáculos ditos populares que fez na década de 80 com a Seiva Trupe, sucessos de bilheteira que fizeram muito pela formação de públicos e com os quais ficou irremediavelmente conotado.
Os júris dos concursos do então Instituto das Artes fizeram-lhe uma perseguição permanente”, lamentaJúlio Gago, que com ele trabalhou diariamente durante 12 anos à frente do TEP. Durante esse período, recorda ao PÚBLICO, o encenador, que também foi ator, cenógrafo e figurinista (formou-se aliás como arquiteto na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa), conseguiu conciliar clássicos como Shakespeare, Ibsen e Tchékhov e temporadas recordistas (a sua montagem de Felizmente Há Luar, de Luís de Sttau Monteiro, manteve-se em cena por mais de dez anos e “ultrapassou largamente os 200 mil espectadores”). E ainda teve tempo, acrescenta Júlio Gago, para completar a tese de mestrado em História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sobre um tema igualmente mal-amado, A Opereta em Portugal da ditadura militar ao Estado Novo.

Natural da Marinha Grande, onde nasceu em 1937, foi em Lisboa, quando ali rumou para estudar Arquitetura, que Norberto Barroca se iniciou no teatro. Há muito, porém, que essa era a sua “fixação”.
Frequentava as mais populares salas da capital desde miúdo, por causa de uma lesão de nascença num braço que obrigava a família a deslocar-se regularmente a Lisboa para consultas médicas, contou em 2013 à revista Sinais de Cena: “Eu vinha a Lisboa ao médico (…) e como o meu pai gostava muito… Íamos ao teatro. A minha primeira memória do teatro será de 1944. Foi no Teatro Variedades, uma comédia com a Maria Matos que se chamava Os Anjinhos.”
O espetáculo que mais o fascinava nesses anos, contudo, e que para sempre o marcou, era outro, o do labor dos operários do vidro: “Cresci junto da fábrica dos Stephens, e, desde sempre me habituei a ouvir os apitos para chamar os operários (…). Todos esses sons me ficaram na memória e também os cheiros dos fumos das chaminés”, lembrava na mesma entrevista.
Foi nesses anos de formação que começou a brincar ao teatro, na cave de casa, onde montou “um palcozinho que tinha pano de boca e tudo”. A Arquitetura surgiria mais tarde como alternativa, perante a exigência familiar de uma formação académica convencional. “Não podia dizer ao meu pai que a minha finalidade era o teatro [risos]. Embora ele gostasse muito de teatro”, explicava ainda à Sinais de Cena, sublinhando como a sua prática teatral, que tantas vezes o levou a acumular as tarefas de encenador e cenógrafo, sempre foi uma experiência eminentemente espacial. As primeiras maquetes que fez, de resto, foram os teatrinhos de papel que montou na adolescência: “Fiz um teatrinho, com um caixote, e depois fazia os cenários (…). Recortava do jornal as caricaturas das peças de teatro, depois punha-lhes um arame em cima e movimentava-as.”

Foi nas Belas Artes que se cruzou, como parecia inevitável, com o Teatro Universitário de Lisboa, dirigido por Fernando Amado.
Estrear-se-ia profissionalmente com o mesmo encenador, num espetáculo com que o Centro Nacional de Cultura assinalou, em 1960, o 25.º aniversário da morte de Fernando Pessoa. E foi ainda com Amado que viveu uma aventura fundadora do teatro moderno em Portugal, a Casa da Comédia, financiada por um industrial de móveis de escritório, João Osório de Castro, que tinha uma paixão pelo teatro e dinheiro para a concretizar.
Falhou o primeiro espetáculo do grupo porque estava a dar aulas de desenho em Almada, mas protagonizou o segundo, Deseja-se Mulher, de Almada Negreiros, com Manuela de Freitas, Fernanda Lapa e Maria do Céu Guerra. O seu percurso voltaria a cruzar-se com o da Casa da Comédia em 1967, quando Graça Lobo o convidou para ali assinar a sua primeira encenação, As Noites Brancas, de Dostoiévski.

Já depois do 25 de Abril, seria chamado a dirigir a efémera experiência do Teatro Popular – Companhia Nacional 1. A década seguinte seria marcada pelos grandes sucessos de público que teve no Porto com a Seiva Trupe, companhia para a qual criou um Um Cálice do Porto em 1982. Foi uma intuição sua, diria mais tarde: “Eu queria fazer um espetáculo sobre o Porto; tinha de ser ligado ao vinho do Porto, com várias etapas da história da cidade. E tinha que ter música, e ter números entre o sério e a crítica do tipo do teatro de revista, com referências à atualidade (…). Fizemos aquilo sem dinheiro nenhum.”
Os dois anos em que o espetáculo se manteve em cartaz, feito inédito, tornaram-se lendários: “Houve pessoas que viram dezenas de vezes. Houve um senhor que comprou o espetáculo para festejar o aniversário de casamento (…). Houve um espectador que recebeu o prémio de espectador mais assíduo (…). Acho que, de algum modo, se inaugurou uma nova época e um outro modo de fazer teatro.”

“O teatro português deve-lhe muito não só no sentido em que ele passou pelas principais companhias do país, mas também no sentido em que passou por todos os géneros teatrais e os dignificou. Para ele, nenhum tipo de teatro devia ser objeto de desprezo”, sublinha Júlio Gago.
O seu sonho de voltar ao primeiro espetáculo que o comoveu, o espetáculo real, duro e braçal, dos operários do vidro, ainda o pôde cumprir, em outubro do ano passado, quando encenou uma recriação histórica da chegada à Marinha Grande do empresário Guilherme Stephens, o grande impulsionador da histórica Real Fábrica de Vidros que foi para Norberto Barroca a primeira e mais duradoura escola de teatro.


por Inês Nadais, in Público | 3 de janeiro de 2020
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público


O Centro Nacional de Cultura homenageia a sua memória
e apresenta sentidas condolências à família e amigos.

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