Nau Catrineta que tem muito que contar…

Mar Medonho…

Folhetim de Verão – Capítulo III

Já em 12 de setembro, o vento acalmou para depois rondar para sudoeste. Em breve veio, no entanto, a fúria e a intensidade foi tal e tanta que houve que alijar a carga, a começar com os haveres do comandante. Mas tal não foi suficiente e tiveram de arrojar para as águas a artilharia e muitas caixas que continham açúcar e fardos de algodão. Um mar mais violento desmanchou o leme. Atravessou-se a nau aos escarcéus e não foi possível colocá-la ao correr da popa. Perante o desânimo geral, Jorge Albuquerque falou aos marinheiros para lhes dar força e pediu-lhes que buscassem meio para governar a nau. Muitos ajoelharam, pedindo a Deus que os livrasse do perigo. Eram nove da manhã e o navio dos corsários desvaneceu-se no horizonte, enquanto os franceses que estavam na “Santo António”, perante a tormenta e o leme desmanchado chegaram-se aos nossos em tom amigo, cumprindo tudo que lhes mandavam, como se fossem cativos dos portugueses. Dispuseram então um bolso de vela posto em torno do castelo da proa, a ver se tal arribaria a nau. Às dez, veio a escuridão, que parecia noite. O mar todo se cobriu de espumas brancas; com muito estrondo do vento e das águas, que impedia uns e outros de se ouvirem. E levanta-se uma vaga altíssima, negra em baixo, coroada de espumas, dando na proa, galgando e tudo arrasando. Eis que são levados o mastro do traquete, com a verga e a enxárcia, mas também a cevadeira, o castelo da proa, as âncoras, estilhaçando a ponte, o batel, o beque, e arrastando pessoas, mantimentos e pipas. A nau ficou submersa em mais de meia hora debaixo de água. E os sobreviventes correram a um padre que se achava a bordo, em rezas e confissões. Um relâmpago ilumina a escuridão – e todos de joelhos pedem misericórdia ao Senhor Deus. Jorge Albuquerque pedia coragem e que dessem à bomba para esgotar a água que invadia o convés. Enquanto houver vida trabalhem todos para a conservar. Mas outro vagalhão caiu sobre a nau. Cobriu o convés, arrebatou o mastro grande, bem como verga, vela, enxárcias, camarotes, e ainda o mastro de mezena com o aparelho todo e uma parte da popa, matando um dos franceses mais qualificado. Ninguém ficou a salvo, convencendo-se de que se afogariam. Mandou então Albuquerque alguém á coberta para ver a água que entrava. Relâmpagos, vento muito forte, ondas alterosas, muita areia misturada na água. O comandante não desfalecia no consolo dos tristes. Só ao fim de três dias chegou a bonança. Com pedaços da ponte que o mar abatera, tratou-se de improvisar um mastro, onde foi armada uma pequena vela. Foram os marinheiros dissuadidos de dar cabo dos estrangeiros, na esperança que a nau dos corsários regressasse em busca dos perdidos. Já não havia água nem vinho, nem mantimentos. Então vislumbraram a nau francesa e ela acudiu, destruída, mas não tanto como a nossa. Contudo, os corsários partiram sem prestar o auxílio desejado. Restariam as orações, o Miserere e as ladainhas. Jorge de Albuquerque repartiu os mantimentos por suas mãos. Todos se espantaram de como se sustentava com tão pouco. Quando a tormenta se desencadeou o comandante lançou providencialmente às ondas uma cruz de oiro que tinha uma partícula do santo lenho. Amarrou-se a dita cruz com um cordão de retrós verde a um cabo grosso e muito forte com um prego grande, prendendo o chicote do mesmo cabo à popa da nau. Passada a tormenta Albuquerque lembrou-se em boa hora do relicário. O mesmo se embrulhara nuns pregos e acabado de recolher o cabo caiu a cruz solta na toda da nau. Foram então tomadas medidas de urgência. Juntaram-se guardanapos e toalhas de mesa a uma vela latina. Fizeram verga de dois remos do batel, improvisaram um arremedo de enxárcia e prenderam o leme para que pudesse servir para uns três dias. E seguiram viagem sem aparelhos, no sentido do nascer do sol. A manobra da bomba era muito pesada pela fraqueza dos marinheiros, sem forças para continuar. Por um momento, se alegrou a tripulação por terem libertado algumas águas da nau. Mas foi sol de pouca dura, pois voltou o nordeste a soprar rijíssimo quando o alimento chegava ao fim, com apenas três cocos para quarenta pessoas…

(Continua)

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