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Edgar Morin (1921-2026)

É com grande desgosto que o Centro Nacional de Cultura participa o falecimento do seu sócio decano Edgar Morin, homenageando a sua memória, muito gratos por tudo quanto dele recebemos ao longo de mais de sessenta anos.

Publicamos a nota recebida esta manhã de sua viúva Sabah Abouessalam: “É com profunda dor que anuncio a morte de Edgar Morin ocorrida sexta-feira dia 29 de maio no seu 105º ano de vida. Um dos últimos grandes resistentes, humanista, pensador e escritor infatigável, Edgar Morin foi para muitos uma consciência livre, uma voz singular, um mestre e uma presença luminosa em tempos obscuros. Consagrou o seu tempo a esclarecer o mundo pela sua reflexão, transmitindo o seu saber na defesa sem descanso dos valores humanos e das causas que lhe eram caras. Autor de uma obra abundante, marcou várias gerações pelo seu compromisso intelectual, pela sua confiança nas forças do espírito e pelo diálogo constante com o seu tempo. Até aos últimos diias manteve-se atento aos outros e aos grandes desafios humanos que alimentaram o seu pensamento. Hoje o vazio que deixa é imenso, mas a sua coragem, a sua fidelidade aos seres e às ideias, a sua exigencia moral e a sua esperança continuam a acompanhar-nos. A sua obra continua viva, aberta ao diálogo e mais do que nunca necessária num mundo em busca de sentido e humanidade. Esta continuará a acompanhar aqueles e aquelas que trabalham por uma sociedade mais consciente, mais justa e mais humana. A sua família agradece a todas e todos que o acompanharam, apoiaram e amaram ao longo de uma existência excecional”.

Edgar Morin nasceu em 1921, foi membro, durante a Resistência e no pós-guerra, do Partido Comunista Francês, do qual foi expulso por discordar da orientação oficial. Morin acredita que é necessário efetuar uma “revolução”, tendo presente a ideia de totalidade e complexidade. Propôs, como alternativa, o conceito de “totalidade aberta” e de “um pensamento planetário”, assentes na permanente revisão e crítica dos princípios orientadores, evitando os dogmas e o pensamento único. No domínio da pesquisa epistemológica, a perspetiva de Morin traduz uma grande inovação. A sua reflexão nesta área incide sobre o panorama da ciência contemporânea que se apresenta como um “mosaico” de diversas disciplinas em diálogo entre si. Tal conduz à necessidade de encontrar um novo método, que repense a tradição científica ocidental. Partindo do desenvolvimento das diversas ciências, especialmente da física, da biologia, da cibernética e da ecologia, Morin transmite a ideia de “complexidade”, que caracteriza todas as esferas da atividade humana, desde o mundo físico e natural até ao universo das sociedades humanas. Estas realidades (física e social), têm de ser pensadas de uma forma dinâmica e intercomunicativa: o natural não ser entendido desligado do social e vice-versa, e o todo das partes que o compõem, também perspetivados numa lógica de reciprocidade.

Edgar Morin visou ultrapassar a visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo, que domina um pensamento empobrecido. Pelo contrário, há sete pilares fundamentais que considera cruciais no mundo contemporâneo: prevenção do conhecimento contra o erro e a ilusão; ensino de métodos que permitam ver o contexto e o conjunto, em lugar do conhecimento fragmentado; reconhecimento do elo indissolúvel entre unidade e diversidade da condição humana; aprendizagem de uma identidade planetária, considerando a humanidade como comunidade de destino; exigência de apontar o inesperado e o incerto como marcas do nosso tempo; educação para a compreensão mútua entre as pessoas, de pertenças e culturas diferentes; e desenvolvimento de uma ética do género humano, de acordo com uma cidadania inclusiva.

A sua última obra “O Esplendor das Amizades” (Gradiva, 2025) homenageia Portugal, a democracia portuguesa o seu grande amigo António Alçada Baptista. 

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