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Dia Internacional dos Museus assinala importância do Património Imaterial

Este ano o Património Imaterial é o tema fundamental do Dia dos Museus, que se assinala a 18 de Maio. Sobre o tema incluímos a reflexão para 2004 das Jornadas Europeias do Património… ler mais

Este ano o Património Imaterial é o tema fundamental do Dia dos Museus, que se assinala a 18 de Maio.

Sobre o tema incluímos a reflexão para 2004 das Jornadas Europeias do Património.

IDENTIDADE CULTURAL E MEMÓRIA

Por Guilherme d’Oliveira Martins

A memória histórica constitui um factor de identificação humana. Reconhecemos nessa memória o que nos distingue e o que nos aproxima. Identificamos a história e os seus acontecimentos mais marcantes – desde os conflitos às iniciativas comuns. E a identidade cultural define o que cada um é e o que nos diferencia uns dos outros. A cultura é uma encruzilhada onde se encontram o património material e imaterial e a criação artística. Esta encruzilhada leva-nos, por diferentes caminhos, a uma cultura baseada numa tensão constante entre tradição e modernidade. E a história permite-nos desvendar de onde vimos e quais as vicissitudes que acompanham a definição dessas origens. Mas a história não pode ser confinada às fronteiras de uma comunidade, de uma região ou de uma nação. A história faz-se do diálogo entre povos e culturas, desenvolve-se na relação entre o que é múltiplo e diverso. Por isso, é fundamental um novo conceito de fronteira, não como lugar de divisão ou de separação, mas como ponto de encontro. As comunidades, as regiões, os povos e as nações muitas vezes conhecem-se e não se compreendem, mas precisam da memória histórica como meio de abertura e de enriquecimento mútuo. A cultura tem, assim, de funcionar como um factor de tolerância, de respeito e de criatividade.

Na passagem dos cinquenta anos da Convenção Cultural Europeia, assinada no âmbito do Conselho da Europa, estamos cientes de que uma cultura centrada na pessoa humana, na democracia e nos direitos humanos afirma-se e consolida-se no respeito pelas diferenças herdadas, mas também na força das complementaridades entre várias culturas abertas. O conceito de património cultural alarga-se, enriquece-se e reforça-se. São as pedras mortas e as pedras vivas que se confrontam e se associam. As pedras mortas são marcas da presença humana. As pedras vivas representam a própria presença humana. E que é a herança que recebemos das gerações que nos antecederam, senão essa convergência fecunda entre o significado dos monumentos, dos edifícios e das obras de arte e a sua projecção no mundo da vida? A modernidade significa uma ligação aberta entre o que recebemos, desde a arqueologia e da arquitectura, até aos costumes e às tradições, passando pelas comunidades culturais e pelo ambiente cultural, e por aquilo que criamos e construímos, inovando e acrescentando…

Património imaterial? Património vivo? Cada vez mais as identidades culturais enriquecem-se através da capacidade das pessoas e das comunidades ligarem tradição e mudança, transmissão e inovação. Das paisagens à defesa do meio ambiente, da preservação do património ao incentivo à criação – estamos perante identidades culturais como realidades vivas, em permanente evolução. Eis porque as escolas, agindo como redes de acção, de compromisso e de sensibilização, devem ser lugares de solidariedade activa em prol do património. Eis porque deve ser incentivada e aprofundada a geminação entre cidades, a mobilidade de professores, de estudantes, de intelectuais e artistas, de cientistas e de investigadores, a criação de enclaves de paz, a promoção de parcerias envolvendo diferentes países, para a promoção de um novo conceito de fronteira enquanto lugar de cooperação, de aproximação e de enriquecimento.

As Jornadas Europeias do Património e o empenhamento do Conselho da Europa e dos seus membros no seu reforço constituem bons exemplos de como o diálogo entre culturas e as redes de iniciativas de valorização do património cultural podem e devem funcionar como factores activos de promoção da cultura da paz, de prevenção e regulação de conflitos, de diálogo inter-cultural e inter-religioso, de afirmação dos ideais da educação e da formação ao longo da vida e de enriquecimento mútuo, a partir do reconhecimento das diferenças e das complementaridades entre as diversas comunidades culturais. A identidade cultural e a memória reforçam-se mutuamente. Sabemos de onde vimos. Conhecemos as nossas raízes. Distinguimos o que nos une e o que nos divide. Estamos aptos a entender que cultura e memória são faces de uma mesma moeda e que a atitude cultural por excelência está no lembrar, no recordar, no assumir da importância de aprender com a experiência e com o que nos rodeia – desde os testemunhos construídos ou das expressões da natureza aos testemunhos vivos.

A memória histórica constitui, já o dissemos, um factor de identificação humana. Reconhecemos na memória o que nos distingue e o que nos aproxima. Identificamos a história e os seus acontecimentos mais marcantes – desde os conflitos às iniciativas comuns. A identidade cultural define o que cada um é e o que diferencia uns dos outros. Numa Europa sem fronteiras, a cultura e a memória permitem tomarmos consciência de que as guerras e as incompreensões apenas poderão dar o lugar ao diálogo e à solidariedade se lembrarmos tivermos presentes as diferenças e se as tornarmos factores de enriquecimento e de respeito mútuo. Só unidos na diversidade poderemos entender que a diversidade das culturas e a importância dos patrimónios culturais abrem caminhos à inovação e à criatividade, à liberdade e à responsabilidade, numa palavra, ao respeito da dignidade da pessoa humana.

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