A Vida dos Livros

De 3 a 9 de agosto de 2015.

«Orpheu» é um conjunto de peças únicas, organizadas por Steffen Dix para a Tinta da China, através do qual podemos manusear os fac-similes do que chegou até nós da revista que representa em Portugal o modernismo. A qualidade é excecional e deve-se ao zelo especial de todos quantos realizaram a obra, que teve o apoio do CNC.

UMA EDIÇÃO ORIGINALÍSSIMA

O cofre que constitui esta edição contém os números 1 e 2 da revista, as provas nunca publicadas do número 3, uma zincogravura da capa do número 1, cujo original se encontra no espólio do Centro Nacional de Cultura, 4 ilustrações inéditas de Amadeo de Souza-Cardoso e uma nota editorial de Steffen Dix. Não é preciso gastar muito mais palavras. E o que representa «Orpheu»? «Não apenas um importante acontecimento literário e artístico» (diz S. Dix), mas um documento sociológico e histórico. E se a época «se mostrava “despertada para o contacto com todas as civilizações”, a arte moderna tem de ser representativa deste universalismo tão emblemático na altura». Fernando Pessoa fala de «sensacionismo» – que «aceita influências de todas as partes, porque tudo utiliza, tudo usa, tudo inclui em si». O certo é que a revista causou escândalo (e teve sucesso) como Pessoa confessa, em abril de 1915, em duas cartas a Armando Cortes-Rodrigues. Tal como as gerações de oitocentos e novecentos desejaram pôr Portugal ao ritmo da Europa e do mundo, «Orpheu» fê-lo do modo especialmente audacioso. Almada Negreiros dirá: «Estava desabitada a cabeça de Portugal! A razão de Orpheu era profundamente aristocrática, não no seu efémero sentido de sangue, mas na sua verdadeira essência de valores» (1935). Hoje soa a quase profética a declaração paradoxal de Pessoa perante a emergência da Grande Guerra: «there is much more unexpectedness and interest in Orpheu than there is in the presente War». Tratava-se de pôr na ordem dia a criatividade e a liberdade de espírito. Garrett e Herculano, Antero de Quental e a sua geração, a Renascença Portuguesa e o Orpheu representaram, por assim dizer, um curioso e quase improvável nexo de continuidade. Sermos nós mesmos significaria aceitar múltiplas influências – tudo usar, tudo incluir.

 

COMPREENDER «ORPHEU»

Só podemos compreender «Orpheu» como um projeto multifacetado, no sentido de seguir as passadas de uma arte que ganhava o ritmo e o movimento perante a produção em série industrial, havendo que contrapor a singularidade e o universalismo. Os protagonistas são Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho. E se virmos bem, os dois números revelam uma diversidade talvez semelhante à dos heterónimos. Eduardo Lourenço (no indispensável catálogo da BNP) fala-nos da diferença e da complementaridade entre Pessoa e Sá-Carneiro: «o que a poesia de um e de outro consigna e traz consigo é o sentimento de uma irrealidade fundamental do eu que contamina a realidade da mesma conotação irreal, mas por sua vez a consciência da irrealidade do eu não é o fruto de uma inacessível apreensão da consciência por si mesma, de uma descida ao poço sem fundo da interioridade, mas o reflexo de uma inacessibilidade por assim dizer inscrita na existência do próprio real, que é o radicalmente-outro que a consciência usufrui no privilégio da sua fulgurante e absurda exterioridade». «Orpheu» procurou, pois, ser um projeto em diversos sentidos. Fernando Pessoa não se declara futurista e se lembrarmos as suas reflexões sobre a poesia portuguesa entendemos que o autor de «Pessoa Revisitado» saliente que a ideia do Nada se impõe sobre o Nada como ideia, do mesmo modo que compara o que Oliveira Martins dissera da poesia de Antero, ao falar de uma «ironia transcendente», com a ideia nova de «ironia transcendental», presente em «Orpheu», como manifestação paradoxal da positividade original do negativo. O testemunho de António Ferro revela especial interesse (sem cuidar agora de outros pontos da sua vida). Desde os tempos do Liceu Camões conhecera Mário de Sá-Carneiro, e houve empatia entre ambos, a ponto de este confiar ao jovem dois dos seus primeiros poemas: «Quadras para uma Desconhecida» e «A um suicida» (dedicado a Tomás Cabreira Júnior, que se suicidara com um tiro aos 16 anos na escada do liceu)… Na correspondência há sinais evidentes de apreço do poeta pelo jovem. Alfredo Guisado tem razão quando confidencia o que Sá-Carneiro lhe dissera sobre o facto de Ferro ser editor da revista: «convém que seja ele porque é menor e se surgir qualquer complicação a sua responsabilidade não tem consequência». António Ferro chega, de facto, ao mundo de «Orpheu» pela mão de Mário de Sá-Carneiro seu primeiro mentor: «foi um animador, o homem de ação, o verdadeiro revolucionário, o primeiro modernista que saiu de casa, que saiu do seu espírito para vir para a rua. Relembro com saudade e ternura aquela tarde em que Sá-Carneiro se dirigiu a mim no Rossio de braços abertos, com uma alegria infantil que era, afinal, a alegria do mártir: Você leu os jornais? Leu a “Capital”? Vê o que dizem sobre o Orfeu? Somos todos doidos varridos! Da fama já ninguém nos livra… Reclamam para mim o colete-de-forças e um exame das minhas faculdades mentais… Estou contentíssimo! O êxito excedeu a minha expectativa». António Ferro não regateia elogios ao primeiro mestre, reconhecendo não ser menor «a figura de Fernando Pessoa – o clássico da revolução – e eu só lamento não poder dizer neste artigo apressado e incompleto toda a minha admiração por esse formidável gabinete de trabalho que é a cabeça do pai de Álvaro de Campos». Neste testemunho notamos nitidamente as qualidades do jornalista, capaz de nos dar de impressões sucintas e impressivas. Lembramo-nos das acusações que lhe foram feitas por ter escrito as entrevistas com Mussolini e Hitler apenas contando com poucos monossílabos, a verdade, porém, é que as impressões que dá dizem muito mais do que o que as palavras que faltam…

PROSSEGUINDO O TESTEMUNHO

Regressemos ao testemunho de Ferro: sobre Santa Rita Pintor, fala do «apóstolo das formas novas, que trouxe Picasso, no coração, para Portugal», como «ponteiro da geração». Sobre Amadeu de Sousa-Cardoso, compara-o a Mondigliani – «não no feitio da sua arte, mas no feitio da sua vida». A propósito de Almada Negreiros, associa-o a Sá-Carneiro – lutou como ele, «desprezando a glória fácil e impondo rudemente sua alma. Alguns dos seus gestos, algumas das suas obras são datas memoráveis da vanguarda portuguesa». E cita a memorável «Invenção do Dia Claro», como emblemática, referindo o artista como um dos maiores desenhadores portugueses, que a Espanha também considera um dos maiores da Península… E Ferro usa a melhor ironia: «foi um dos loucos que fugiram do manicómio do Orfeu». Cem anos passados, o fenómeno «Orpheu» afirmou-se quase inesperadamente. O testemunho de Nuno Júdice no catálogo da Biblioteca Nacional é significativo. «A rejeição daquilo que eu identificava como uma ideologia conservadora foi sendo atenuada quando me comecei a interessar pela geração dos modernistas e das suas doutrinas, algumas correntes, apesar de todas as suas contradições, como era o caso de Pessoa ou de Almada, algumas exotéricas e especulativas, numa linha ascendente, que ia do mais filosófico Mário Saa ao delirante Raul Leal». O certo é que a edição da Obra Poética da Nova Aguilar, com a correspondência de Sá-Carneiro com Pessoa, revela um diálogo, em que as pistas inovadoras, cosmopolitas e modernas vão muito além da leitura estreitamente ideológica do debate lisboeta. O próprio Nuno Júdice aponta para o estranho epílogo da revista, falando do desencanto de Pessoa por Portugal, que poderia ter resultado do episódio que pôs fim a «Orpheu»: «o escândalo político resultante da carta em que Álvaro de Campos rejubila com o acidente de elétrico que pôs Afonso Costa à beira da morte». Pessoa vê-se obrigado a esconder-se, quando os seus companheiros se afastam dele (como Sá-Carneiro e A. Ferro), não se solidarizando (há quem dê a entender que tudo se deveu a excesso de bebida). «O próprio Mário de Sá-Carneiro com a guerra na Europa a constituir uma ameaça para quem viva em Paris, regressa rapidamente a essa cidade e inviabiliza a continuação da revista, também por falta de apoio do pai, que não poderia ter deixado de ter conhecimento do incidente político».

E António Ferro pergunta nas páginas do «Notícias Ilustrado» (fevereiro de 1929) se o modernismo triunfou em Portugal. A resposta é positiva. «Toda essa mocidade que anda aí pelos jornais, pelas capas dos livros, pela fisionomia gráfica das revistas, pela pintura, pelos cartazes, pelas montagens de certas peças ligeiras – essa obra é nossa, é o nosso influxo, a nossa respiração, é o braço de Sá-Carneiro “a dançar nos salões do vice-rei”». Não só o futuro próximo confirmaria…

Guilherme d’Oliveira Martins

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