Os Portugueses ao Encontro da sua História

Brasil Barroco, Brasil de sempre!

1 a 13 de Setembro de 2012
Minas Gerais e Rio de Janeiro
Guia: Prof.ª Maria Calado

Depois da Índia, do Japão, de Macau, de Marrocos, da Indonésia e de Timor, o Centro Nacional de Cultura prossegue o ciclo de viagens por cenários marcados por portugueses de outrora e de agora. “Brasil Barroco, Brasil de Sempre” é etapa mais recente.

Viagem cultural guiada por Prof.ª Maria Calado (Vice presidente do CNC) e que pela primeira vez no séc. XXI temos o Presidente e a Vice-presidente do CNC a acompanhar o grupo de participantes. O ilustrador Nuno Saraiva acompanha o CNC e fará a crónica em BD da viagem que muito provavelmente será publicada em álbum.

Agradecimentos especiais:
Duarte Ivo Cruz, Embaixador António Pinto da França, Leonor Xavier, Miguel Horta e Costa, Rádio Renascença, Pedro Rebelo de Sousa, TAP, Embaixada de Portugal no Brasil, Consulado de Portugal no Rio de Janeiro, Bernardo Ivo Cruz, Mário Quartin Graça, Prefeito de Ouro Preto – Ângelo Oswaldo, Instituto de Arte Contemporânea de Inhotim, Luciana Leite, Elisa Freixo, Anna Maria Parsons, Suely Santos, Pestana Rio Atlântica, Fernando Meira, Paulo Rogério Lage, Museu Imperial de Petrópolis, Maurício Ferreira Júnior, António Gomes da Costa, Real Gabinete Português de Leitura, Liceu Literário, Caixa D. Pedro V, Academia Brasileira de Letras, Marcos Vinícios Vilaça, Eliana Caruso.

:: Programa

Sábado, 1 SET | Lisboa – Belo Horizonte
9h35 – Partida de Lisboa no voo TP 57 com destino a Belo Horizonte.
15h15 – Chegada, transfer e check-in no Clarion Hotel Lourdes **** em Belo Horizonte
Tempo livre
20h00 – Jantar no hotel

Domingo, 2 SET | Belo Horizonte
Pequeno-almoço no Clarion Hotel Lourdes
09h00 Saída em autocarro para visita ao Mercado Central
12h30  Almoço no restaurante “Mês amis”
14h00 Visita ao e Museu das Minas e do Metal e complexo da Pampulha, projetado por Oscar Niemeyer incluindo Igreja de São Francisco de Assis, Casa de Juscelino Kubitschek, Casa do baile
20h00 Jantar no restaurante “A favorita”
Alojamento no Clarion Hotel Lourdes

Segunda-feira, 3 SET | Belo Horizonte – Sabará – Diamantina
Pequeno-almoço e check-out do Hotel
08h30 saída do hotel em direção a Sabará
09h30 visita da capela de Nossa Senhora do Ó
13h00 Almoço no restaurante Grill Gourmet, em Itabira
14h30 Visita à Casa de Drummond (Solar Dr. Pedro Guerra)
16h00 Partida em direção a Diamantina por parte da “Estrada Real”
21h30 chegada, check-in e jantar na Pousada do Garimpo

Terça-feira, 4 SET | Diamantina
Pequeno-almoço
09h00 visita a pé ao centro histórico de Diamantina: Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Museu do Diamante e Casa de Chica da Silva
13h00 Almoço no restaurante Apocalipse
14h30 Continuação das visitas: Mercado Velho, Biblioteca António Torres, Passadiço da Glória
20h00 Jantar e alojamento na Pousada do Garimpo

Quarta-feira, 5 SET | Diamantina – Inhotim – Ouro Preto
Pequeno-almoço no hotel
06h30 partida em autocarro em direção a Brumadinho para visitar a galeria de Inhotim.
13h00 Almoço em Inhotim no restaurante Tamboril
14h30 Visita à exposição permanente do Instituto de Arte Contemporânea de Inhotim
17h30 Partida para Ouro Preto
20h00 Jantar no restaurante “Contos de Réis”
Check-in e alojamento na Pousada do Mondego

Quinta-feira, 6 SET | Ouro Preto
Pequeno-almoço na Pousada do Mondego
09h00  Saída a pé para visitar a Igreja de São Francisco de Assis, com passagem por Praça Tiradentes, visita ao Museu do Oratório e ao Museu da Inconfidência, passando junto ao antigo Jardim Botânico e Casa dos Contos.
13h00  Almoço no restaurante “Chafariz”
14h30  Continuação das visitas a pé incluindo a Igreja de Nossa Senhora do Pilar e da sua sacristia com o Museu de Arte Sacra, Igreja Nossa Senhora do Carmo, Chafariz de Marília e Igreja de Nossa Senhora da Conceição
19h30  Palestra “Portugal e o Brasil, cultura e criação, história trágico-marítima ou um rio que corre sem parar” com e Leonor Xavier (escritora), Ângelo Oswaldo (Prefeito de Ouro Preto) e Guilherme d’Oliveira Martins (Presidente do CNC)
21h00  Jantar no restaurante “Casa do Ouvidor”
Alojamento na Pousada do Mondego

Sexta-feira, 7 SET | Ouro Preto – Mariana – Congonhas – Tiradentes
08h30 Partida para Mariana onde visitaremos o Largo do Pelourinho, Igrejas do Carmo e de São Francisco, a Sé onde assistiremos ao concerto que terá lugar às 11h30, a Casa da Câmara
13h00 Almoço no restaurante “Lua Cheia”
14h30 – Partida para Tiradentes com paragem na Mina da Passagem junto a Mariana e em Congonhas para visitar a basílica do Senhor Bom Jesus de
19h30 chegada, check-in e jantar na Pousada Pequena Tiradentes

Sábado, 8 SET | Tiradentes
Pequeno-almoço no hotel e saída para passeio a pé
10h00  Visitas à Igreja de Santo António, Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Chafariz de São José
13h00  Almoço no restaurante “Viradas do Largo”
Continuação do passeio pela cidade.
20h00  Jantar no restaurante “Padre Toledo”
Alojamento na Pousada Pequena Tiradentes

Domingo, 9 SET | Tiradentes – São João del Rey – Tiradentes
Pequeno-almoço
08h30  Partida para São João del Rey para assistir a Missa cantada na Igreja de São Francisco
Visitas à Igreja de Nossa Senhora do Pilar e Nossa Senhora do Carmo.
13h00  Almoço no restaurante “Villeiros”
Visita no centro histórico de Tiradentes e encontro com Profª Anna Maria Parsons e Dra. Suely Santos
20h00  Jantar e alojamento na Pousada Pequena Tiradentes

Segunda-feira, 10 SET | Tiradentes – Rio de Janeiro
08h00  Pequeno-almoço e check out do Hotel
Viagem em autocarro até Rio de Janeiro
13h00  Almoço no restaurante “Chalé Manaká”
14h30  Visita do Museu Imperial de Petrópolis, passagem pelo Hotel Quitandinha, Palácio de Cristal e Catedral São Pedro de Alcântara.
19h30  Check in, jantar e alojamento no Pestana Rio Atlântica *****

Terça-feira, 11 SET | Rio de Janeiro
Pequeno-almoço no hotel
09h30 – Igreja da Candelária, Centro Cultural Banco do Brasil – descida pela Rua 1º de Março até Praça XV (chafariz e Arco do Teles) e Museu Histórico Nacional (Palácio Imperial)
Almoço oferecido pelo Real Gabinete Português de Leitura, Liceu Literário e Caixa D. João V no restaurante “Silva”
15h00 – visita à Academia Brasileira de Letras
Visita ao Museu Nacional de Belas Artes com passagem por Cinelândia e Teatro Municipal
Jantar e alojamento no Hotel

Quarta-feira, 12 SET | Rio de Janeiro
Pequeno almoço no hotel
09h00  Visita à igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro e Corcovado
12h00  Visita ao Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.
13h30  Almoço oferecido pelo Real Gabinete Português de Leitura, Liceu Literário e Caixa D. João V  na “Confeitaria Colombo”
Visita ao Mosteiro de S. Bento, Largo da Carioca, Aqueduto da Carioca ou Arcos da Lapa, Catedral Nova
17h00  Partida para aeroporto
22h35  Partida em voo TP 76 com destino a Lisboa
Chegada a Lisboa no dia 13 de setembro, às 12h30 (hora local)


:: Crónicas da viagem

Crónica I – 4 SET 2012

Compreendemos ontem razoavelmente bem um pouco do que sofreram os bandeirantes que partiram em regra de São Paulo, dispostos a correr muitos riscos e a sofrer todas as agruras e contratempos em busca das riquezas de um território com preciosidades, desconhecido e com uma dimensão dificilmente concebível para europeus habituados aos limites do ocidente da Península Ibérica. O caminho de Belo Horizonte para Diamantina foi longo e muito atribulado. Estamos em Minas Gerais em busca da presença portuguesa, desde a descoberta das riquezas minerais até aos nossos dias. Chegámos no Sábado a Belo Horizonte e deparámo-nos com uma capital de Estado do fim do século XIX, organizada através de uma planta ortogonal, com artérias paralelas e perpendiculares sob o traço seguro de Aarão Reis, engenheiro paraense. A urbe substitui Ouro Preto como centro administrativo mineiro e cresceu muito mais do que previram os seus planeadores.

Nas margens do lago da Pampulha, ao pôr do sol, homenageámos Oscar Niemeyer e fizémo-lo na sua igrejinha de São Francisco de Assis – ideia de Jucelino Kubitchek de Oliveira. Os azulejos de Portinari e a simplicidade do arquitecto trazem-nos uma inesperada espiritualidade. E falámos do fascínio que esta obra causou em portugueses como Nuno Teotónio Pereira ou Ruben A.

Em Sabará, já na segunda-feira, onde nos últimos anos do séc. XVII se descobriram das primeiras jazidas de ouro de aluvial, tivemos o deslumbramento do modelo das igrejas dos primeiros tempos dessa colonização sob a invocação de nossa senhora do ó. O altar-mor apresenta-se como modelo do barroco mineiro policromado, com motivos florais exuberantes e chinoiseries inesperadas. Em Itabira, com um dia glorioso e um almoço mineiro típico, de múltiplas iguarias, de comer e chorar por mais viemos prestar homenagem a Carlos Drummond de Andrade na sua casa da juventude. Poeta maior da língua portuguesa lembramo-nos: “por muito tempo achei que ausência é falta / e lastimava ignorante a falta / hoje não a lastimo. “

O caminho de Diamantina é muito longo e inóspito, já o disse, com estradas difíceis e paisagens que nos acompanham e fazem lembrar o sertão do Brasil do Séc. XVII.

Pomo-nos na pele dos bandeirantes e lembramos Fernão Dias Paes Leme e Borba Gato em busca do Ouro e das pedras preciosas. Os seus fantasmas assolaram os nossos espíritos na incerteza do caminho! Mas no fim a hospitalidade foi magnífica.

Crónica II – 6 SET 2012

Rua da Quitanda, Casa do Muxarabié, o comércio crepita nas margens do Jequitinhonha na cidade de Diamantina, com intensidade: panos, bugigangas, tapetes de Arraiolos, livros e botecos – mas a cidade dir-se-ia que é o século XVII plantado no nosso século XXI. O Muxarabié é o balcão em treliça de influência moura, que esconde a biblioteca do Dr. António Torres, cuja bengala se tornou celebre na prosa de Vitorino Nemésio ao relatar Etas suas andanças. Aqui não havia ordens religiosas, apenas as irmandades e no calcorrear dos lagedos das ruas seguimos o itinerário canónico: Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a matriz evocativa de Santo António com dois preciosos altares da antiga Igreja em talha dourada – Nossa Senhora à direita e Santo António do lado do Evangelho, a Igreja de São Francisco de Assis, em frente de onde está a estátua do herói da cidade, o Presidente aqui nascido Juscelino Kubitchek, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a mais antiga da cidade (com a presença dos santos António de Cartagerona, Benedito, Efigénia e Alesbão. Ao almoço, no restaurante Apocalipse, no largo do mercado, continuamos servidos principescamente com a divinal cozinha mineira e as sobremesas que são verdadeiramente o Menino Jesus em metáfora doce. A cidade poderia estar no Minho ou nas Beiras. Passamos pela casa de Xica da Silva por quem se enamorou o contratador João Fernandes, casa com eira e beirado à antiga portuguesa. Mais adiante, a morada do Inconfidente Pe. Rolim, desta terra que foi São Francisco de Tijuco e hoje alberga o chamado museu do Diamante. Deambulámos pelos altos e baixos da cidade, tomámos contacto com o barroco e o rococó dentro do recato próprio de uma cidade excêntrica que conseguiu manter a descoberta de diamantes escondida durante mais de duas décadas e terminamos a jornada na casa do Presidente Juscelino, criador genial de Brasília, e no Passadiço da Glória, verdadeiro ex-libris da cidade, a lembrar o tempo em que o velho orfanato era incomodado pelo barulho suspeito do bataclã. À noite tivemos Seresta, que é a nossa serenata, com uma ternura muito especial, e ecos ora do fado, ora das mornas cabo-verdianas.
 E pela manhã muito cedo, às seis horas, à hora prima de tempos imemoriais, voltámos à estrada em direcção a Inhotim, passando à ilharga de Belo Horizonte. E que é esse parque imenso de futuro, iniciativa de Bernardo Paz? Um encontro único da arte de hoje, da botânica e do meio ambiente, da cidadania e da inclusão, do desenvolvimento sustentável e da educação. Janett Cardiff joga com o som, Adriana Varejão com os azulejos, os corpos com Edgar de Sousa e os espaços com Cildo Meireles… Inhotim é a certeza de que é o futuro o que o passado anima.

Crónica III – 7 SET 2012

Hoje, no velho Toffolo de Ouro Preto, Leonor Xavier com o Prefeito Ângelo Oswaldo inauguraram de facto o Ano Portugal no Brasil a falar de “Um rio que corre sem parar”. “Viajar pelo Brasil – diz Vitorino Nemésio – não é só conhecer a maior fundação de Portugal a distância e um país novo e imenso que originalmente se afirma sem renegar tais raízes: é criar uma nova perspectiva da pátria no regresso. A afinidade e o paralelo orientam-nos a visão transatlântica de uma realidade
 histórica solidária… Onde a terra e o clima resistiram à vontade uniformizadora do colono e onde o aborígene e o brasileiro histórico chegaram a formas de uma civilização espontânea e própria, as diferenças robusteceram a consciência do idêntico, e Portugal e Brasil gravitam na imaginação do reinol num milagroso equilíbrio de ajustes e contrastes”.
Ontem, a nossa entrada gloriosa em Vila Rica, Ouro Preto, fez-se numa antiga jardineira dos anos 30, com motor Mercedes Benz. Era o fim de tarde, já noite e a cidade estava cheia de movimento e entusiasmo. A Praça de Tiradentes, o antigo Palácio do Governador, a Câmara, o Museu da Inconfidência e o presépio vivo da cidade iluminada – com as suas 28 Igrejas de antiga capital: Nossa Senhora da Conceição, do Pilar, da Ordem Terceira do Carmo, do Rosário dos Pretos, Santa Efigénia, São Francisco de Paula, Mercês e Misericórdia, Mercês e Perdões, São Francisco de Assis… Como habitualmente, somos mimados com as melhores iguarias mineiras… E quando acordamos esta manhã bem cedo na Pousada do Mondego, temos a certeza de que somos saudados pela natureza e pela História. Lá está no alto da montanha o Itacorumi, ou Pedra de Criança, o símbolo de Outro Preto. O dia glorioso começa da Igreja de São Francisco de Assis, onde sentimos as influências de Manuel Francisco de Lisboa e do seu filho o genial Aleijadinho. Estamos perante o barroco mineiro no seu esplendor – o primado do movimento e da curva que tanto entusiasmará os modernos. Depois, visitamos a casa onde viveu o Ouvidor da comarca de Vila Rica, o árcade Tomaz António Gonzaga, o Dirceu de Marília, a jovem Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Seguimos para a Praça do Tiradentes, visitamos a Igreja do Carmo, encontramos o azulejo como elemento decorativo fundamental e vamos ao Museu da Inconfidência. O dia intenso de subidas e descidas em ruas íngremes chega ao fim da tarde ao hotel Toffolo, onde falamos de Nemésio mas também de José Aparecido de Oliveira e da sua ideia fixa de lusofilia. Agostinho da Silva, Jaime Cortesão, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinícius de Morais ou Cecília Meireles, mas também António Alçada Baptista, Jorge de Sena, António Cândido, e Odylo Costa Filho. O Prefeito Ângelo Oswaldo e Leonor Xavier lembraram bem o tempo que se constrói como uma amizade de dois sentidos.

Crónica IV – 8 SET 2012

A névoa rodeava de manhã o Itacurumi, que no cimo da montanha simboliza o Ouro Preto e permitiu que os Bandeirantes encontrassem aquele local onde tinha sido descoberto o ouro paladiado, enegrecido pelo óxido de ferro. Essa neblina que se dissipou praticamente até ao momento em que deixámos Ouro Preto é uma das características da cidade, o que levou um dia Carlos Drummond de Andrade a parodiar o facto, quando no Hotel Toffolo não lhe deram a refeição, por não se ter inscrito como mandavam as regras. Disse então que ao menos se alimentaria de névoa matinal: “tudo se come, tudo se comunica, tudo no coração é Ceia”. A cidade de Ouro Preto, a antiga Vila Rica fica-nos bem no coração. Lembramo-nos da tarde memorável: Nossa Senhora do Pilar de estilo joanino, a segunda igreja mais rica em talha dourada do Brasil depois de São Francisco de Salvador da Bahia; Nossa Senhora da Conceição com o projecto de Manuel Francisco Lisboa, com o Museu do Aleijadinho apoiado pela Fundação Ricardo Espírito Santo, a fonte de Marília, além do Museu das Minas. E como esquecer o Museu do Oratório com os exemplos preciosos de oratórios de viagem, de esmola e de bala? Mas a peregrinação tem de prosseguir e dirigimo-nos nesta manhã do dia da Independência, 7 de Setembro (que há anos assinalámos nas margens do Ipiranga) para a cidade de Mariana, não sem que antes nos tenhamos detido na mina de Passagem que esteve em actividade de 1819 a 1985 e de onde foram retiradas 30 toneladas de ouro. Descemos no pequeno trem às galerias ainda visitáveis, percorrendo 350 metros para descer 150 de profundidade e falamos das condições a que eram submetidos os mineiros de outrora, com vida muito curta afectados pelas doenças profissionais originadas pelo pó de quartzo. Já chegados à cidade, na Sé de Mariana (a antiga Vila Real de Nossa Senhora do Carmo, baptizada em honra da mulher de D. João V) ouvimos Josinéia Godinho tocar magnificamente Cabanilles, Nebra, Pablo Bruna, Buxtehude, Georg Bohm e Albinoni no órgão único de Arp Schnitger instalado em 1753 na catedral. Tudo leva a crer que teria sido destinado primeiro a Mafra, mas o som germânico teria sido considerado menos adequado ao convento franciscano. Na praça de Minas Gerais deparamo-nos com as imponentes igrejas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo em frente da Câmara Municipal e da cadeia, tendo no centro um pelourinho identificado pelas armas do império com esfera armilar, estrelas e cruz de Cristo. Mas o tempo urge pois temos de chegar rapidamente a Congonhas, para fazer a justíssima homenagem ao Aleijadinho que já nos deixara rendidos em Ouro Preto. Não fora a multidão agitada que invadia literalmente o santuário e teríamos gozado com maior intensidade esta explosão de genialidade, a que voltaremos.

Crónica V – 9 SET 2012

Deixámo-los na nossa última crónica no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas. Estamos numa zona que cresceu com a grande quantidade de ouro descoberta ao longo do rio Maranhão. O Santuário foi iniciativa de Feliciano Mendes, um português abastado que fez uma promessa de cura. Livre da doença em 1757 começou a erguer a basílica. Temos o adro, os passos da Paixão e a igreja. Os passos da Paixão são sete cenas, em seis capelas, com um total de 64 figuras esculpidas em cedro pelo genial Aleijadinho e seus ajudantes. O adro tem as figuras de 12 profetas esculpidos em pedra sabão por António Francisco Lisboa – Amos, Abdias, Isaías, Jeremias, Habacuc e Naum; entre as escadas, Baruc e Ezequiel e na amurada após as escadas: Jonas, Daniel, Oseías e Joel. “Estamos, diz Vitorino Nemésio, em presença de uma autêntica escultura sinfónica gesticular e polimórfica, que procura vencer a sábia variedade de atributos pela concepção atrevida e móbil do gesto, que vai da imprecação à perplexidade através da concentração e do êxtase, e que dos bucres de cabelo aos esguichos do golfinho de Jonas feitos alamares da indumentária, assume na estase de Daniel um dos melhores conseguimentos da imaginária barroca”. Fomos para Tiradentes, cidade que nasceu em 1702, a partir do arraial da Ponta do Morro, que passou em 1718 a chamar-se Vila de São José d’el Rey em homenagem ao príncipe D. José, adquirindo a actual designação depois do fim do império e da proclamação da republica. Hoje é uma atracção turística por ter o seu centro preservado. Muitas das antigas casas acomodam agradáveis pousadas, restaurantes de comida mineira e lojas de artesanato. Poderíamos dizer que, depois de tudo o que vimos desde Diamantina, haverá poucas surpresas: puro engano! Não nos surpreende o chafariz de São José de Botas, até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, mas sim a extraordinária matriz de Santo António, construída entre 1710 e 1750 e uma das igrejas mais belas do barroco mineiro. O altar-mor singulariza-se por um equilíbrio e uma teatralidade barroca que nos prende e atrai: colunas torsas, atlantes, anjos, cornucópias, volutas, conchas e folhas. É talvez a mais requintada das igrejas do barroco de Minas Gerais. O entalhador João Ferreira de Sampaio manifesta aqui o seu enorme talento, percebendo-se que tem conhecimentos ou contactos com a arte italiana e notando-se nitidamente as repercussões de Bernini. O altar-mor domina nitidamente. A imagem de Nossa Senhora da Conceição do lado do Evangelho é de uma beleza superior. Há ainda duas representações em pintura, uma clássica da última ceia e outra muito original das bodas de Caná como se fora um banquete do século XVIII. A igreja da Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos tem um altar-mor interessante de talha dourada com retábulos laterais dedicados a São Benedito e Santo António de Cartagerona e obriga a uma vigorosa atenção. Depois de um almoço de cozinha mineira que nos encheu as almas, visitámos o excelente Museu da Liturgia, inaugurado neste ano de 2012 e que deixou muito boa impressão. O fim-de-semana alargado do feriado da Independência trouxe a Tiradentes muitos turistas. O movimento na cidade é muito intenso e, ao contrário do que nos aconteceu até agora na maior parte dos casos em que visitámos praticamente sós os monumentos (à excepção de Ouro Preto), a concorrência é muito significativa o que não impede que gozemos intensamente a beleza das obras de Arte.

Crónica VI – 10 SET 2012

Em São João d’el Rei, Domingo, na Igreja de São Francisco, a Irmandade da Ordem Terceira saúda especialmente a presença do Centro Nacional de Cultura com grande simpatia. A Profª Anna Maria Parsons vem ao nosso encontro e faz questão de nos assinalar a grande qualidade do coro e orquestra que acompanham o ofício litúrgico. A cidade tem uma antiga tradição de mais de um século ligada à música clássica coral e sinfónica com um reportório de autores de Minas Gerais. Ao ouvirmos Hossana, Glória in excelsis Deo apercebemo-nos do grande esmero artístico e da excepcional qualidade das obras escolhidas e da sua execução. É um trabalho continuado que nos últimos anos foi reforçado pela formação e pela motivação de músicos de grande saber. São João d’el Rei também é referência fundamental na vida e obra do Aleijadinho, mas Anna Maria Parsons faz questão de nos mostrar duas imagens num dos altares laterais de São Francisco, representando São João Evangelista e São Gonçalo de Amarante. Aqui está António Francisco Lisboa em todo o seu esplendor – e ouvimos, com uma nitidez óbvia a demonstração de que o diminutivo do autor não pode ser pejorativo, é alguém que tem uma elevadíssima formação (estando longe de ser um curioso ou um ingénuo). Foi aluno na escola franciscana no hospício da Misericórdia – de Grego, Latim e História, estudioso da arte europeia do seu tempo, conhecedor da influência ou da inspiração de Bernini. Há no São João Evangelista algo que encontramos no profeta Daniel em Congonhas e de que já falámos. A teatralidade, o movimento, o domínio da curvatura, a compreensão do corpo. Seguimos pelas ruas de São João, recordamos a memória do malogrado presidente Tancredo Neves, descobrimos o templo mais antigo da cidade (1719) – da Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, continuamos com Nossa Senhora do Pilar, a matriz, que não podemos visitar, mas que é um exemplo rico de talhas douradas célebres. As referências continuam: Nossa Senhora das Mercês e Nossa Senhora do Pilar, Nossa Senhora do Carmo, e aqui recordamos as gárgulas em forma de canhão que já vimos em Ouro Preto. No entanto, o que nos fica na memória é a exuberância e ao mesmo tempo o equilíbrio da fachada de São Francisco de Assis, com o projecto original de António Francisco Lisboa. Há sempre um debate sobre se teria sido mesmo o genial autor a dar o toque irrepetível na obra-prima, mas o certo é que se nota a marca indelével da sua oficina. A cidade pequena está cuidada e parece congelada no tempo, para gáudio laboratorial de quem procura a especificidade do barroco mineiro. Terminamos o dia em Tiradentes no Solar da Ponte. A recepção é cuidadosa e esmerada, com um chá das cinco horas dado como ditam todas as regras. Anna Maria Parsons explica-nos como temos de recusar muitos equívocos sobre a ideia falsa de que entre 1730 e 1789 houve uma decadência inexorável de Minas Gerais, por não se estabelecerem novas explorações mineiras. De facto, o espaço já estava delimitado e desenvolvia-se a actividade agropecuária e a economia. Por fim, Suely Campos Franco diz-nos como o Minho e Minas Gerais estão intimamente ligados pelas tradições religiosas. Um forte intercâmbio cultural que merece ser mais estudado aprofundadamente.

Crónica VII – 11 SET 2012

Saímos de Minas Gerais pelo Caminho Novo da Estrada Real em direcção primeiro a Petrópolis e depois ao Rio de Janeiro. Deixámos para trás as grandes referências da zona mítica do ouro e dos diamantes, mas também como nos disse ontem Anna Maria Parsons uma região no coração do Brasil que se desenvolveu através de uma via própria e multifacetada em que a busca das preciosidades constituí apenas uma das mais importantes vias do que hoje designaríamos por desenvolvimento. O barroco mineiro é um estado de espírito também, a demonstrar que minas há muitas. As igrejas, os monumentos, as cidades e o urbanismo constituem uma ilustração muito especial já o dissemos da teatralidade, do movimento e do inteligente uso das curvas. É por isso pelo menos precipitado falar do barroco como um momento histórico parado no tempo. O barroco mineiro é uma síntese que se projecta no futuro e que chega à literatura e à música, como “Arte total” que é. A decoração rococó completa o culto das curvas e tregiversações. Como podemos compreender Guimarães Rosa sem o entendimento do barroco como arte completa. Como podemos dar a devida importância heterodoxa como tem Carlos Drummond de Andrade? Como entender Cecília Meireles sem a percepção do intrincado diálogo entre o mundo de Gonzaga e Marília e a capacidade criativa do ser tão mineiro? Juscelino Kubitchek de Oliviera, na Pampulha onde Brasília foi buscar Óscar Niemeyer porque ele sabia estender, muito bem, nos dias de hoje, o movimento teatral do barroco, não como estilo situado, mas como atitude perante a natureza e a vida. Um longo caminho que nos trouxe de Tiradentes para Petrópolis faz-nos perceber a transição do Cerrado para a Mata Atlântica, mas também do Aleijadinho até Murilo Mendes, numa descida vertiginosa da montanha para os vales dos rios com sol e calor. Ao chegarmos a Petrópolis deparamo-nos com a catedral neogótica de São Pedro de Alcântara (de 1884) com a sua torre imponente e a sinfonia dos vitrais – a almoçámos numa antiga residência da cidade imperial com os cómodos de outrora e o gosto de hoje. Chegados a Petrópolis sentimos a presença forte de uma personalidade atraente como a do Imperador D. Pedro II, um cientista desterrado na política. O palácio resulta dos recursos do próprio Imperador. Foi construído entre 1845 e 1862, com um projecto original Julius Koeler e depois modificado por Cristoforo Bernini – com um jardim frondoso em que se nota a arte Jean Baptiste Birot e os conhecimentos e a sensibilidade artística de D. Pedro de Alcântara. Proclamada a república (1889) o Palácio foi ocupado por duas escolas, até que, por iniciativa de Getútio Vargas o Museu Imperial foi criado e inaugurado em 1943. A visita ao Palácio com a generosa companhia do seu director Maurício Ferreira Júnior, foi fascinante pela descoberta da convergência entre o drama do Imperador (deixado pelo seu pai com a tenríssima idade de 5 anos com a tarefa solitária de garantir a continuidade da casa imperial e da governação do Brasil) e a sua capacidade de abertura e inteligência para manter a dificílima unidade do território. D. Pedro e D. Teresa Cristina afirmaram o seu prestígio pela crença na cidadania e na proximidade do povo.
Assim, de algum modo, prepararam a república de 1889 – merecendo destaque a assinatura pela princesa Isabel da Lei áurea, de 1888.


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