A Vida dos Livros

“A Causa das Coisas” de Miguel Esteves Cardoso

“A Causa das Coisas” de Miguel Esteves Cardoso (Bertrand, 2021) é, segundo José Tolentino Mendonça, “um ensaio de ontologia social” e um “inventário de espécies e uma ambiciosa pesquisa etnográfica”, tendo sido publicado inicialmente em 1986 na Assírio e Alvim.

ENTRE CAUSAS E COISAS

Através de cerca de cem causas e de cinquenta coisas, Miguel Esteves Cardoso faz um sobrevoo de Portugal e dos portugueses, simultaneamente com sentido crítico e um especial afeto. Sendo anglófilo, filho de mãe britânica, formado na cultura inglesa, consegue ver a nossa realidade ao mesmo tempo de fora e de dentro. Tem, deste modo, a capacidade de se distanciar de todas as formas de provincianismo, com base nas qualidades de turista e de indígena, encontrando o que julga ser mais genuíno e autêntico numa curiosíssima identidade, capaz de não se levar demasiado a sério. “Em Portugal, diz MEC, ter amor às nossas coisas implica dizer mal delas, já que a maior parte delas não anda bem. Nem uma coisa nem outra constitui novidade. Nem dizer mal delas, nem o facto de elas não andarem bem. Será que se diz mal na esperança de que elas se ponham boas? Também não. As nossas causas são quase sempre perdidas. Porquê então?”. É esta a substância do livro, que se tornou um clássico. Ao longo das análises vê-se que nunca estarmos satisfeitos, como disse o Padre António Vieira. Achamos que deveríamos ser o “país mais perfeito do mundo”. E será que monopolizamos a maledicência para nos defendermos dos outros? Por alguma coisa será. “É fácil pensar que o Portugal Ideal, onde todas as coisas correm bem, já existiu. Não há português que não tenha a sua metade saudosista”. E fica a ideia de que o país sonhado ainda está para vir. E assim Esteves Cardoso diz que quase se orgulha de ser português e quase ama Portugal. E nesse quase está a distância necessária para não enlouquecer, “entre o que se quer e o que se vê”. Mas há a consolação de ainda procurar um português genuinamente português… Essa é a busca que acompanhamos ao longo dos textos agora relidos.

RAPOSA E OURIÇO – UM POUCO DE TUDO

Nesta nova edição, José Tolentino Mendonça começa por lembrar o fragmento de Arquíloco, talvez o poeta grego mais antigo que chegou ao nosso conhecimento, descoberto por Isaiah Berlin, onde se diz: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma grande”. MEC seria, nesta perspetiva, uma raposa irrequieta. Mas tal seria uma mera simplificação tosca, já que de baixo da sua pele e da sua escrita se esconde um sólido e obstinado ouriço – “que “insiste numa única preocupação, investiga somente a causa de uma coisa: Portugal”. E Eduardo Lourenço vem naturalmente à baila, no seu “Labirinto da Saudade”, não no que alguns leem de saudosismo, mas no que o ensaísta pensou verdadeiramente: “uma conversão cultural de fundo suscetível de nos dotar de um olhar crítico sobre o que somos e o que fazemos”. E a opção europeia, para o bem e para o menos bem, depois de 1986, passou a marcar decisivamente a nossa reflexão. “Tanto o ‘medinho’ protecionista, do Portugal dos Pequenitos, como a atitude do ‘obrigadinho’ servil e conseguidista são totalmente idiotas e reles”. Eis por que razão “A Causa das Coisas” merece uma releitura à luz dos dias de hoje. Para o autor, causa seria “tudo o que determina a existência de uma coisa ou acontecimento” e coisa “tudo o que existe ou pode existir real ou abstratamente”.  Entretanto, houve muitas mudanças por toda a parte, o mundo mudou e nós, com ele. Mas o nosso espírito mantém-se e as exigências de lermos criticamente os mitos ganhou uma nova urgência. Continuamos a dever ter presente a história de nove séculos, que não se apaga facilmente com uma borracha.

UM PORTUGUÊS PACIENTE

“O bom português é um homem paciente, com uma paciência do tamanho da História. Sabe que Portugal já atravessou períodos piores e outros melhores, e está perfeitamente consciente que vive hoje num período que é indesmentivelmente assim-assim. Os períodos assim-assim são os mais difíceis de aturar, porque nem se assinalam com o épico das grandes tragédias (Filipes, terramotos, invasões), nem com a glória das grandes epopeias (Afonsos, descobertas, impérios). Os períodos assim-assim, que costumam ser morosos e são quase sempre patéticos, nunca aparecem mais tarde nos tomos de História”. “Um português só faz o que deve e só dá o seu melhor desde que todos os outros o façam também” – a isso se chama mediocridade. Não podemos esquecer o portuga, que é “o português elevado à sua máxima impotência” e o portuguesinho (talvez “valente”), que se distingue dos demais portugueses por estar contente – “Pode ser feiinho, mas é o nosso Portugalinho”… O “Português Suave” está “para o portuguesinho como o Ritz para os portugas e o SG Lights para os exilados, emigrados, estrangeirados e outros trânsfugas”. As entradas são várias, interessantes e surpreendentes. Por exemplo, o “Já agora”, que tantas dores de cabeça dá a quem deseja ter contas certas; a chatice de nada se fazer até ao fim; a corrupção de esperar a cunha e de cumprir um dever, descobrindo um desgraçado que execute o serviço; ou o ler – porque de todo o tempo que perdem os portugueses “não há eternidade como o tempo que perdem a não ler”…  Por exemplo sobre o “Chá”, o importante não é a Rainha Catarina e o seu Chá levado para a corte britânica, mas o facto de a boa educação ensinar-se e o chá não. A boa educação é uma transfusão, o chá vem de dentro (toma-se de pequenino), como uma infusão. E sobre a falta desse elementar atributo, um “grunho” é uma criatura que logrou escapar ilesa do choque civilizacional. E nem o café brasileiro nem o cacau africano podem alguma vez compensar a nossa falta de chá… E no tema atualíssimo do Mar, lemos: “Antigamente era Portugal que ia pelo mar fora – agora é o mar que entra por Portugal dentro”. O que é uma identidade? É um conjunto de elementos capazes de ligar as raízes à realidade do dia-a-dia. Miguel Esteves Cardoso, neste seu reportório, vai até aos aspetos mais raros e misteriosos e contribui para o enriquecimento das bases de uma nova imagem de Portugal, que encontramos em Eduardo Lourenço, José Cutileiro, Maria Velho da Costa, Armando Silva Carvalho, Almeida Faria – como antes Ruben A., Alexandre O’Neill ou Nuno Bragança… As causas encontram as coisas e as coisas procuram as causas…

Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

Subscreva a nossa newsletter