Nau Catrineta que tem muito que contar…

No “Labirinto da Saudade”?

Folhetim de Verão – Capítulo XXI

Ouvimos Bernardo Soares, ouvimos Pessoa, ouvimos António Sérgio. As perspetivas são diferentes. E agora, leia-se Eduardo Lourenço no seu “Labirinto da Saudade”.

Se fizermos o puzzle, percebemos que a “Nau Catrineta” em que estamos embarcados pressupõe leituras diferentes, como não poderia deixar de ser… O que está em causa é a ligação entre os mitos e a realidade. E Lourenço procura incorporar os mitos na leitura histórica e sociológica.

 “Quanto ao povo português – que a sério nada conhecia do fabuloso e mágico Império – só tomará realmente consciência dos acontecimentos quando após as independências de Angola e Moçambique centenas de milhares de retornados invadem de súbito a pacífica e bonacheirona terra lusitana… Mas nesse momento era tarde para tudo, salvo para um sobressalto larvar, a princípio ambíguo, que ao longo dos anos e por culpa da Revolução vem envenenando, subreptícia mas eficazmente, a atmosfera política nacional. Tal como sucedera na ordem interna, a Revolução não soube a tempo e a horas convencer a nação – o que se chama convencer – de que a Descolonização não só era fatal – embora se possam discutir as modalidades – mas a conclusão lógica da política absoluta e criminosa levada a cabo pelo regime de Salazar e de Marcelo Caetano. As consequências para a nova imagem de um Portugal que começa então a ter consciência retrospetiva de um traumatismo que em 1974-75 o não afetara, antes pelo contrário, e fora digerido como um ato positivo de exemplaridade, revelar-se-ão, pouco a pouco, particularmente perigosas. Serão suficientes para minar por dentro a possibilidade mesma de uma compreensão realista da nossa aventura histórica, tão insolitamente concluída enquanto potência colonizadora, ou até para impedir esse reajustamento não menos realista ao que, após esse fim, somos e teremos que ser? Nenhum povo pode viver em harmonia consigo mesmo sem uma imagem positiva de si. A Revolução de Abril restituiu ao cidadão português a plenitude dos direitos cívicos comuns às democracias ocidentais, operou uma mudança nas relações de força entre a antiga classe dirigente e possuidora e o povo trabalhador, mas não encontrou ainda aquele ponto de apoio que sem precisar de ter o odioso perfil de um nacionalismo chauvinista, paranoico e irrealista, corresponda ao sentimento de natural fruição da autonomia e da dignidade nacionais. Neste momento a coletividade nacional não vive Portugal como uma realidade histórica sustentada e animada por um sentimento de confiança e de legítimo orgulho no seu destino particular. A atual imagem de Portugal aos olhos dos Portugueses aparece-lhe de novo, mau grado a insistência e a luta pela dignidade nacional, pela recuperação das suas possibilidades económicas, sociais e culturais, de molde a torná-lo um parceiro internacional à altura do seu longo passado, como eivada de estigmas e carências, cuja recordação pesa na nossa memória coletiva. De benjamins da esperança revolucionária aceitável para uma Europa em crise larvada, apenas há quatro anos, aproximamo-nos, se o não estamos já, da bem conhecida situação do homem doente da Europa. Na mera ordem política assistimos à espetacular e provocante saída dos túmulos bem calafetados de conhecidos responsáveis de uma Ordem que não pôde subsistir senão pelo esmagamento implacável da classe trabalhadora e da «legalização» da censura e da polícia secreta. Na ordem externa, acentua-se, cada dia que passa, a nossa estrutural dependência de nações ou grupos para quem a Revolução de Abril, mesmo mitigada, não é nem pode ser persona grata. Sob tão pouco exaltante pano de fundo terá chegado a hora de regresso de todos os fantasmas maléficos da nossa História que periodicamente nos visitam? Somos nós incuráveis, paradoxais geradores ou cogeradores de povos e incapazes de construir um telhado duradouro para a nossa própria casa? Desde o início, a Revolução cometeu uma falta que, esperamo-lo, não lhe seja fatal. Hipnotizada pelo puro combate ideológico – necessário, mas só vivido concretamente pela massa dos cidadãos politizados – a Revolução descurou em excesso o sentimento nacional, deixando à futura Direita, após a cómoda hibernação que lhe ofereceu, a sua exaltada e frenética exploração. É verdade que os valores de «pátria», «patriotismo», «sentimento nacional» pelo seu teor afetivo, de cariz irracional, não costumam ser reivindicados pela Esquerda. É um erro funesto. Nenhuma Revolução triunfou com argumentos meramente ideológicos. Só a conjugação do interesse nacional e do interesse social assegurou o sucesso das Revoluções que triunfaram ou deixaram após elas a sua marca indelével. Os soldados do Ano II, evocados por Victor Hugo, batiam-se como revolucionários e patriotas. É verdade que a ideia de pátria era então revolucionária e que a burguesia a degradou em seguida para serviço dos seus interesses específicos. Mas a ideia de Nação e o nacionalismo no seu sentido de radicação e consubstanciação com o interesse nacional, não só não são antagónicos do interesse revolucionário como lhe comunicam a sua força afetiva e a sua exigência ainda não superada por outro tipo de comunidade de mais concreta e íntima participação. Nos primeiros tempos a imagem de marca de uma Revolução límpida, acompanhada do fervor popular impôs-se à Europa e ao mundo com uma tal fulgurância que sob ela pudemos esconder, ou transcender e transfigurar através dela, a amputação histórica objetiva que representou para nós o fim do império colonial. (…) Faltou-nos imaginação. Calçámos as pantufas dos reformados da História. Estamos vivendo ao ralenti e com a corda na garganta uma experiência democrática sem nenhuma das virtudes, que assinalaram a nossa passagem através do mundo. É certo que não fazemos ondas, e que nesse sentido, uma vez mais, agora sob o modo do democratismo mais inodoro e insípido, somos, como dizia Marcelo Caetano, «um oásis de paz», ou em termos lunares, um mar de tranquilidade. (…)”

(Continua)

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