A sua aventura romanesca, graças a José Saramago, fizeram-no ter um suplemento de alma depois do tempo literário da sua existência propriamente dita. O autor de “Odes”, à maneira horaciana, tinha a desvantagem da emigração e da distância. As suas qualidades intrínsecas deram-lhe uma especial independência para poder apreciar o momento difícil da cena internacional, a anunciar uma tragédia de dimensão inédita e com repercussões múltiplas. Ricardo Reis nasceu a 19 de setembro de 1887, no Porto. Foi educado num colégio de jesuítas, estudou latim e era médico. Expatriou-se voluntariamente para o Brasil em 1919, por ser monárquico. Era um poeta classicista, latinista por educação alheia e semi-helenista por educação própria. Pessoa apresentou-o na revista “Athena” em 1924, com a publicação das suas primeiras vinte odes. Reis escrevia melhor do que o próprio Pessoa, mas com um purismo que ele considerava exagerado. O difícil era escrever a prosa de Reis, ainda inédita, ou a de Campos.
O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 20 de janeiro de 1914, pelas onze horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reação momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, e que a ia desenvolvendo. Achei-a bela e calculei interessante se a desenvolvesse segundo princípios que não adoto nem aceito. Ocorreu-me a ideia de a tornar um neoclassicismo ‘científico’ (…) reagir contra duas correntes tanto contra o romantismo moderno, como contra o neoclassicismo à Maurras. Resume-se num epicurismo triste toda a filosofia da obra de Ricardo Reis. Não concebo, porém, que as emoções, nem mesmo as do Reis, sejam universalmente obrigadas a odes sáficas ou alcaicas, e que o Reis quer diga a um rapaz quer lhe não fuja, quer diga que tem pena de ter que morrer, o tenha forçosamente de fazer em frases súbditas senão em dez sílabas para as duas primeiras, e em seis sílabas as duas segundas, num graduar de passo desconcertante para a emoção.
É com algo a alertar-nos que ouvimos estes ecos horacianos.
«Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas.
Ama as tuas rosas.
O resto é a tua sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não pensam».
(Continua)



