Há um mistério por esclarecer, apesar de aparentemente não ser mistério. Vamos aos factos insofismáveis. Há duas versões originais do retrato de Fernando Pessoa de José de Almada Negreiros, onde este retrata o poeta que foi o grande animador da Geração de Orpheu, de que Almada foi um dos elementos marcantes. Por que razão dizemos que há um mistério por esclarecer? Fazemo-lo, uma vez que não se trata de duas pinturas distintas, estando a sua identidade intimamente ligada à personalidade de Almada Negreiros. O verdadeiro mistério, que procuramos desvendar tem a ver com a diferença entre as duas obras, com relação com outra obra-prima da pintura portuguesa do século XV. O primeiro capítulo desta obra foi executado em 1954 para o Restaurante “Irmãos Unidos”, onde o grupo do Orpheu tantas vezes se encontrou…
O Restaurante abriu as suas portas em 1832 na Praça do Rossio, com traseiras para a Rua das Galinheiras, atual Praça da Figueira. Teve a designação de “Hotel dos Dois Irmãos Unidos” e depois de “Hotel dos Irmãos Unidos”, inaugurado em 1853. A fundação dos “Irmãos Unidos” deve-se a Florencio Abril Bugarin e António José Abril Bugarin, ambos de origem galega. Depois da morte dos dois irmãos, o estabelecimento passa para o casal, também de origem galega, António Venâncio Guisado e Benita Gonzalez, sucedendo-lhes António Venâncio Guisado, pai do poeta, deputado e jornalista Alfredo Pedro Guisado (1891-1975), membro do grupo de Orpheu. Por ocasião de grandes obras de remodelação do espaço, este último encomendou a Almada Negreiros uma pintura que deveria referir o movimento do Orpheu para acompanhar uma placa comemorativa já aí existente. A encomenda não especificava um tema e foi Almada quem, após dois ensaios que não tiveram seguimento (pelo facto de o orçamento dessas pinturas exceder o valor acordado como pagamento – 30 mil escudos, o que atualmente seriam cerca de 150 euros), se decidiu pelo retrato de Pessoa, o principal mentor da revista (a par com Mário de Sá-Carneiro).
A encomenda intitulava-se “Lendo Orpheu” e o resultado viria a ser colocado numa das paredes do Restaurante. Já anteriormente Almada Negreiros retratara Fernando Pessoa: em 1913 expôs um retrato do poeta na II Exposição dos Humoristas e em 1935 por ocasião da morte de Pessoa, publicou outro no “Diário de Lisboa”. Almada pintou o retrato de Fernando Pessoa na Quinta de Bicesse, aproveitando a luz suave do jardim, a acreditarmos no testemunho de Sarah Affonso. Se virmos atentamente, encontramos nesta representação icónica, como base, o apontamento feito por Negreiros, no própria dia em que regressava da última homenagem a Fernando Pessoa no Cemitério dos Prazeres. Ali estão os elementos fundamentais: o Martinho da Arcada, a mesa onde o poeta bebia o seu café e o número 2 da revista “Orpheu”. Alguém pergunta: quantos poetas ali estão? De facto, todos quantos Pessoa representou. Daí a ideia natural de multiplicação que o amigo Almada aceitou de bom grado. Não se tratava de repetir, mas de multiplicar e simultaneamente de compreender plenamente o grande mistério da fórmula 1 mais 1 = 1. Sempre o genial irrepetível.
(Continua)



