Nau Catrineta que tem muito que contar…

Catarineta Brasileira

Folhetim de Verão – Capítulo VI

Ariano Suassuna, grande referência da cultura brasileira, recriou a “Nau Catarineta”, com uma vivacidade e um tom, que nos permitem reviver a intensa história que temos vindo a relatar, e que corresponde à expressão da tragédia no seu pleno colorido:

Ouçam, meus senhores todos, uma história de espantar

Lá vem a Nau Catarineta que tem muito o que contar

Há mais de um ano e um dia que vagavam pelo mar

Já não tinham o que comer, já não tinham o que manjar

Deitam sortes à ventura a quem se havia de matar

Logo foi cair a sorte do Capitão-General

Tenham mão, meus marinheiros, prefiro ao mar me jogar

Antes quero que me comam, ferozes peixes do mar

Do que ver gente comendo carne do meu natural

Esperemos um momento, talvez possamos chegar

Assobe, assobe, gajeiro, naquele mastro real

Vê, se vês terras de Espanha e areias de Portugal

– Não vejo terras de Espanha e areias de Portugal

Vejo sete espadas nuas que vêm para vos matar

Vai mais acima, gajeiro, sobe no topo real

Vê, se vês terras de Espanha, gajeiro, e areias de Portugal

– Alvíssaras, Capitão, meu Capitão-General

Já vejo terras de Espanha, areias de Portugal

Enxergo mais três donzelas debaixo de um laranjal

Uma sentada a coser, outra na roca a fiar

A mais mocinha de todas está no meio a chorar

Todas três são minhas filhas… Ah, quem me dera as beijar!

A mais mocinha de todas, contigo hei de casar

– Eu não quero a vossa filha que vos custou a criar

Dou-te meu cavalo branco que nunca teve outro igual

– Não quero o vosso cavalo, meu Capitão-General

Dou-te a Nau Catarineta, tão boa em seu navegar

– Não quero a Catarineta que naus não sei navegar

Que queres, então, gajeiro? Que alvíssaras hei de dar?

– Capitão, eu sou o diabo e aqui vim pra vos tentar

 O que eu quero é vossa alma para comigo a levar

 Só assim chegais ao porto, só assim eu vou vos salvar

Renego de ti, demônio, que estavas a me tentar

A minha alma eu dou a Deus, e o meu corpo eu dou ao mar

E logo salta nas águas o Capitão-General

Um anjo o tomou nos braços, não o deixou se afogar

Dá um estouro o demônio, acalmam-se o vento e o mar

E, à noite, a Catarineta chegava ao porto do mar

(Continua)

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