Nau Catrineta que tem muito que contar…

Vindos de Olinda…

Folhetim de Verão – Capítulo II

Por solicitação da rainha D. Catarina, regente do Reino pela menoridade de seu neto D. Sebastião, Jorge Albuquerque Coelho foi encarregado de  ajudar na pacificação de Pernambuco, a contas com um levantamento dos povos da donataria, ajudando seu irmão Duarte, herdeiro da capitania.  Correndo o risco da própria vida, contribuiu para a pacificação de Olinda e encontrou condições para poder regressar à capital do Reino. A partida ocorreu a 16 de maio de 1565 com vento de popa. No entanto, as dificuldades iniciaram-se logo após a partida. O vento virou de feição, tornou-se contrário e atirou a nau para um baixo, onde permaneceram por quatro marés e se viram em risco de se perderem se as marés fossem mais grossas. Libertada uma parte da carregação, salva a tripulação e cortados alguns mastros, tornou a nau ao porto, onde foi verificada a condição para votar a carregar e partir. Apesar dos conselhos ao comandante no sentido de não partir, este decidiu encetar viagem a 29 de junho. Infelizmente, cinco dias depois da largada o vento mudou de maneira súbita e violenta. Houve que alijar fazenda ao mar,e o casco abriu água e um pé de vento quebrou o gurupés. Depois de dezanove dias de  calmarias, demandaram as ilhas de Cabo Verde para reparar o casco e o mastro danificados. No entanto, foram ameaçados por um navio corsário francês e não puderam fazer-se a terra pela intensidade do vento. Foram arrastados para novas calmarias. A 29 de agosto começou a soprar uma brisa larga, animadora e próspera e, apesar da penúria entre a tripulação, foi decidido demandar os Açores, dada a urgência em reparar o casco e pela muita água que estava fazendo. Se o comandante procurou partilhar os víveres, o certo é que se levantaram brigas e discórdias entre marinheiros e passageiros. E a 3 de setembro, prosseguindo a demanda das ilhas, foram alcançados por uma outra nau de corsários franceses, bem artilhada e consertada. Apesar da situação de grande míngua, o comandante recusou render-se. Acompanharam-no apenas sete homens, que resistiram contra as bombardas, arcabuzadas e tiros de flecha. Durou quase três dias o combate, sem que os franceses abordassem a nau pela dura resistência com que deparavam. Sendo Jorge de Albuquerque o grande artífice dessa resistência, carregando, pondo fogo e bombardeando, mobilizou vontades suficientes para não se renderem, mas dezassete franceses armados de espadas, broqueis e pistoletes, e algumas alabardas num instante se assenhorearam da nau. Admirado pela resistência da nau “Santo António” apesar de estar depauperada de tudo, o capitão francês saudou Jorge Albuquerque: “não te desconsoles, é isto a fortuna da guerra, que favorece hoje uns, amanhã outros. Pelo bom soldado que és far-te-ei boa companhia e aos que te ajudaram – que tudo merece quem faz o que deve”. A nau francesa tinha oitenta homens, entre os quais ingleses, escoceses e até portugueses, estando bem ordenada, e preparando-se para deixar os nossos numa das ilhas, prevendo abalar para França com a “Santo António”. Avistaram então Faial, Pico e Graciosa e reconsideraram o plano anterior por ter começado a ventar… O capitão dos franceses tratou com deferência a Albuquerque e aos que com ele pelejaram, mas como os franceses se revelassem luteranos, gerou-se um motivo de separação e os portugueses delinearam um novo plano para se libertar…

(Continua)

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