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António Chaínho (1938-2026)

© Centro Nacional de Cultura 

«António Chaínho era um amigo e um exemplo da defesa intransigente do património cultural musical, com a capacidade genial de fazer da criação artística uma renovação permanente, sendo para a guitarra portuguesa uma referência marcante e decisiva. Posso dizer que a sua vida e o domínio do seu instrumento são referências que perdurarão como marcas indeléveis de um artista único. Para Chaínho o património cultural imaterial da música apenas poderá ser plenamente vivido e sentido se houver inovação e diálogo com outras formas de arte. Como pessoa era alguém que não posso esquecer pela sua abertura e generosidade. Far-nos-á muita falta, como pessoa e como artista dotadíssimo». (Guilherme d’Oliveira Martins)

António Chaínho nasceu no Alentejo, em S. Francisco da Serra, Santiago do Cacém, em 27 de janeiro de 1938. A família Chaínho era proprietária da Tasca do Faúlha, onde se juntavam os amantes de fado, muitos deles provenientes das várias aldeias em redor. Era neste ambiente que a mãe de António Chaínho cantava e o pai acompanhava à guitarra portuguesa. Em entrevista o guitarrista revelará: “O meu pai ouvia e depois pegava na guitarra e aprendia… ele tocava bem, dentro do género antigo, os fados corrido, mouraria… e depois ensinou-me os primeiros passos… ”. Por esta altura, um outro jovem alentejano começa a frequentar a Tasca do Faúlha, atraído pelas guitarras dos “Chaínhos”. António Parreira, distinto guitarrista, começou por tocar guitarra clássica (viola), para acompanhar António Chaínho, tendo ambos formado um duo.

Os programas de rádio, na Emissora Nacional, onde José Nunes, Raul Nery e Jaime Santos tinham presença, têm influência decisiva. Em Beja, António Chaínho cumpre o serviço militar. É destacado para Moçambique, e dada a sua reputação, passa a ser solicitado para acompanhar os artistas que se deslocavam ao território. Neste período, exerce grande atividade, tendo-se profissionalizado em 1961.

Após o regresso a Portugal (1966) dedica-se inteiramente à carreira de instrumentista. Atua em diversas casas de fado, ao mesmo tempo que integra o conjunto de guitarras liderado por Jorge Fontes, altura em que é convidado a substituir o guitarrista Carlos Gonçalves, na casa de fados A Severa, onde Chaínho, por convite, acabará por integrar o elenco.

Mais tarde, a convite de José Maria Nóbrega (seu padrinho de casamento) e ainda com António Luís Gomes, integra o conjunto residente do restaurante O Folclore, deslocando-se por todo o país, no acompanhamento de Ada de Castro e Lídia Ribeiro. Integra também o elenco do Faia onde conhece o filho da proprietária, Carlos do Carmo. O primeiro disco é “Solos de Chaínho”, um EP lançado pela Rapsódia. Em 1971, forma o conjunto de guitarras que integra José Luís Nobre Costa (guitarra), Raul Silva e José Maria Nóbrega (violas). António Chaínho desenvolve uma intensa atividade como acompanhante de Alfredo Marceneiro, António Mourão, Carlos do Carmo, Francisco José, Frei Hermano da Câmara, Hermínia Silva, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, entre muitos outros. Com José Maria Nóbrega, acompanha em exclusivo o fadista Carlos do Carmo, em espetáculos pela Europa, Brasil e Estados Unidos da América. Em 1974, em sociedade com o fadista Rodrigo, inaugura uma casa de fado amador em Cascais o Dom Rodrigo, mais tarde conhecido por O Picadeiro.

Paralelamente, grava discos e programas de rádio e televisão com um grande número de fadistas, ao mesmo tempo que desenvolve a atividade de produtor na Rádio Triunfo. Em 1980 lança o álbum “Guitarra Portuguesa”, editado pela Movieplay. Colabora com Rão Kyão no lançamento de “Fado Bailado (1983)”.

Sucedem-se os concertos por inúmeros palcos nacionais e internacionais, e em 1988 tinha o seguinte destaque na imprensa brasileira: “De Lisboa saltou para o Mundo, atuando na maioria das grandes capitais, em especial junto dos núcleos portugueses espalhados pelo mundo, mas também nas grandes casas de espetáculos como o Olympia de Paris e o Canecão do Rio de Janeiro.”

Em finais dos anos 80, começa a trabalhar outros formatos musicais para além do que já lhe era conhecido, desenvolvendo temas da sua autoria. Com efeito, participa e apoia experiências com Fafá de Belém e Gal Costa. A abrir a década de 90 António Chaínho e Rão Kyão dão início a uma bem sucedida tournée pelo Japão. Realce-se a ligação já estabelecida com o país através de Saky Kubota e Hideco Tchokyba, duas amantes de fado, que cantam na língua japonesa e às quais António Chaínho ofereceu o som da sua guitarra. Com espetáculos em Espanha, França, Estados Unidos da América, Inglaterra, Brasil, Suécia, Chaínho tem a possibilidade de atuar a solo e de participar em grandes eventos internacionais, como o Festival de Córdova, ao lado dos maiores solistas do mundo, como Paco de Lucia, John Williams. Em 1996 lança “The London Philarmonic Orchestra – António Chaínho”, que contou com a direção de José Calvário.

No âmbito da Expo’98 participou na “Homenagem a Amália Rodrigues” e que teve lugar na Praça Sony. Ao lado da canadiana K.D.Lang, António Chaínho integrou o espectáculo “Red Hot + Lisbon” na interpretação do clássico “Fado Hilário”. Em finais de 1998, ao lado de Ana Sofia Varela, Filipa Pais, Marta Dias, Teresa Salgueiro, Elba Ramalho e Nina Miranda edita “A Guitarra e Outras Mulheres”, com produção de Andrés Levin (Movieplay). António Chaínho recebe o “Prémio de Música Ligeira” atribuído pela Casa da Imprensa (1998). Em finais de 1999 deslocou-se de novo ao Brasil. Desta passagem no país, nasce no ano de 2000, em estreita colaboração com Celso Fonseca e Jacques Morelenbaum, o álbum “Lisboa-Rio”, com uma cuidada seleção de originais e clássicos da música brasileira. Chaínho é ainda convidado para acompanhar inúmeros artistas como José Carreras, Adriana Calcanhoto, Maria Bethânia ou os Blasted Mechanism.

No seu percurso, António Chaínho sente a necessidade de garantir a preservação e divulgação da guitarra portuguesa, em paralelo com a criação de um método de ensino. Com efeito, o guitarrista integra em 2001 o corpo docente na Escola de Guitarra do Museu do Fado e revela: “A Escola do Museu contribui para esta geração de novos guitarristas e para o aparecimento de novos valores”. Em 2003 grava “Ao Vivo no CCB”, um novo álbum composto por temas inéditos e aos quais Marta Dias dá a voz. Uma vez mais o guitarrista tem ao seu lado o notável Fernando Alvim –  “António Chaínho e Marta Dias – Ao Vivo no CCB”.

O Centro Nacional de Cultura e a Europa Nostra apresentam à família e amigos sentidas condolências.

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