A Vida dos Livros

450 Anos da publicação de “Os Lusíadas”

Na celebração dos 450 anos da publicação de “Os Lusíadas” de Luís de Camões, importa não apenas recordar o épico e a sua obra, mas também o lugar que ocupa no desenvolvimento e afirmação da cultura da língua portuguesa.

UMA ESCOLHA SINGULAR
Quem considera a escolha como símbolo da identidade portuguesa do nosso mais notável poeta, cuja data da morte foi escolhida para Dia Nacional, manifesta alguma surpresa, uma vez que segundo a regra da maior parte das nações essa escolha relaciona-se com um facto histórico, uma batalha, uma conquista ou uma revolução. A escolha de um vate é motivo de admiração. Mas há razões antigas para tal essa escolha. Não por acaso, pouco depois do início da monarquia dual, o recém entronizado Filipe I, quando veio a Lisboa, quis encontrar-se com o poeta, só então tendo conhecimento da sua morte. E Severim de Faria relata o sucedido: “sabendo que era falecido mostrara disso sentimento, porque desejava de o ver por sua fama, e fazer-lhe mercê”. O episódio leva-nos a lembrar como Camões não foi suficientemente reconhecido em vida, ao invés do que aconteceria depois da sua morte. E o certo é que, com o decurso do tempo, o poeta foi-se tornando um verdadeiro símbolo, venerado pelos admiradores do seu talento e da sua qualidade poética, mas também por quantos erigiram a sua obra épica como um sinal de resistência, de autonomia e de sentido de independência. E ainda Severim de Faria fala da importância da narrativa de “Os Lusíadas”, porque relata a viagem de Gama até à Índia e o seu regresso, incluindo no curso dos acontecimentos os episódios mitológicos, as referências fabulosas, como a da Ilha dos Amores, mas também notas científicas e alusões a uma plêiade de varões ilustres. E assim encontramos as lições de Virgílio e Horácio no tocante ao culto da Arte Poética, à fidelidade aos acontecimentos e à apresentação de imagens, capazes de motivar os leitores para a compreensão da importância de uma viagem que abriu novos horizontes na história do mundo. E se dúvidas houvesse, não podemos esquecer como Diogo do Couto admirou a obra de seu amigo Luís de Camões, que, com a “Peregrinação” Fernão Mendes Pinto, constitui um meio essencial para o conhecimento dos portugueses, mas, essencialmente, da humanidade. 

O EXEMPLO DE CAMÕES
Ao longo dos séculos, o exemplo de Camões foi-se fortalecendo. Nos alvores do romantismo e da defesa da liberdade, Bocage e Garrett apontaram com clareza o papel fulcral desempenhado pelo genial poeta, cuja obra congregava qualidades essenciais para a emancipação dos portugueses. E entende-se por que razão, em 1880, num momento em que à decadência havia que saber contrapor uma nova Renascença, liberais, democratas, republicanos e socialistas reclamaram mudanças, levantando a bandeira de Camões, como sinal de emancipação, progresso e humanidade. E assim Luciano Cordeiro, secretário perpétuo da Sociedade de Geografia e jornalista, deu início aos preparativos de uma verdadeira celebração cívica, com extraordinários efeitos sociais e políticos. A partir desta iniciativa, a imprensa lisboeta tomou a dianteira na defesa de uma causa emancipadora, pela divulgação por meio de jornais e revistas da ideia de que urgia comemorar Camões, pois esta era uma “festa na nação” e não uma festa de partido, de escola ou de grupo. Segundo os promotores, o evento “tinha o objetivo de estabelecer a convergência de todos os indivíduos em torno da Pátria de que Camões era símbolo”.

UMA MENSAGEM EMANCIPADORA
E como se chegou ao ano de 1880 e ao dia 10 de junho, em vez do que se entender, como até então, no esteio da ideia de Gonçalo Coutinho, a ideia de que o ano da morte era o ano de 1579? Luciano Cordeiro baseou-se nos documentos encontrados nos arquivos, segundo os quais a 24 de setembro de 1571, Camões obteve de D. Sebastião o alvará que lhe permitiu imprimir “Os Lusíadas” por um período de dez anos, saindo a obra em 1572, em Lisboa, em casa do impressor António Gonçalves. Em 28 de ju­lho desse mesmo ano, D. Sebastião concederia ao poeta uma tença anual de 15000 réis, a pagamento desde 12 de março, pelos serviços que este lhe havia prestado na Índia, e não apenas para o compensar pela publicação de “Os Lusía­das”. A tença foi paga irregularmente, mas sempre na sua totalidade, dela beneficiando, por ordem de Filipe I, rei de Portugal, a mãe do poeta, que ainda vivia. Foi graças a esta documentação que ficou a saber-se que a morte de Camões ocorreu na cidade de Lisboa, a 10 de junho de 1580. E foi essa chave que se tornou decisiva para assumir plenamente a celebração do grande símbolo cultural, que o Brasil também comemora, lembrando a proclamação libertadora de Joaquim Nabuco. Eduardo Lourenço disse, por isso: «Camões não é apenas um poeta com mais talento que outros para adaptar à ainda inadaptada língua nossa a música de Petrarca filtrada por Garcilaso, e com que consumado brilho e artificio, pois sem eles não se pertencia à juventude dourada e boémia que, por breves e eternamente lamentados momentos frequentou. Felizmente (para nosso egoísmo póstumo), os mais famigerados erros, a inconstante fortuna e o amor ardente impuseram-lhe a errante vida que aprofundando e trasmudando em ouro o destino mundano a que porventura estaria votado o converteram no autor de “Os Lusíadas”». Como afirma Ivo de Castro, Camões é o criador de uma obra superiormente comprometida com um estádio decisivo da língua pátria. É a maturidade poética do português que aqui se encontra, gerada na confluência dos valores da tradição medieval peninsular (num idioma afirmado originalmente na criação trovadoresca), das inovações quinhentistas e da capacidade e originalidade renovadora do genial poeta. Afinal, a obra épica revela-se premonitória na compreensão de outras culturas e civilizações e na legitimação de novas tendências nas trocas transcontinentais. Conhecem-se hoje pouco menos de quatro dezenas de exemplares de “Os Lusíadas” com data de 1572 espalhados por diversas bibliotecas de Portugal e do Mundo. A edição prínceps deverá ser a que apresenta o pelicano do frontispício virado para a esquerda, tendo o sétimo verso da primeira estância a redação “E entre gente remota edificarão / Novo Reino que tanto sublimarão”. Mas segundo Kenneth David Jackson, da Universidade de Yale, as diferenças que encontramos no interior das coleções encontradas poderão dever-se à introdução de correções nas provas tipográficas no processo longo de impressão da obra por António Gonçalves. Como diz José Carlos Seabra Pereira, o legado próximo de Camões atesta a “qualidade interpelativa e gerativa do épico”. Camões tornou-se figura projetada em mito. Não entraremos, porém, no debate sobre o mistério da edição (e de uma eventual contrafação), mas verificamos que a paixão existente neste debate demonstra bem a importância icónica de uma obra tornada símbolo nacional. 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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