Destaque

2026 – Livros de Férias

Como habitualmente, Centro Nacional de Cultura escolhe os melhores livros para este Verão, desejando boas leituras.

ROMANCE E CONTO

“O Século dos Imbecis” de Valter Hugo Mãe

Edição: Porto Editora

A hipótese de um homem morrer de burro não seria tão controversa se não fosse evidente o fascínio que multidões revelam pela ignorância, bem mais do que pela maravilha da sabedoria e sensatez.
Atravessamos o século da informação, mas parecemos resistir ao conhecimento. Como se o lúdico e o torpe definissem afinal o propósito dos colectivos que perdem a vergonha perante a folia de não saberem nada.
Agilulfo, um marquês em tempo de República, abrilhanta quando sobe a montanha e emburrece quando desce. Por sinal, a tentação de o descer é maior do que a de o subir. A pequena vila vive em torno do estranho homem que, sem fazer mais do que cuidar de sua grande casa, está no centro dos interesses de toda a gente.
Entre o riso e o espanto, o absurdo e a mais nítida representação da esperança e da falha humana, a vida passa inteira por aqui.

“Hoje, 3 de Maio” de Patrícia Portela

Edição: Caminho

«Viver uma guerra à distância é como olhar para este quadro. É estar lá sem estar dentro, é estar de fora sem estar cá fora. Vivo à distância. a guerra à distância. o horror à distância. a morte à distância. o medo à distância. o desastre à distância. É tudo uma mera notícia.»
Hoje, 3 de Maio é um romance escrito a partir do quadro Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808, de Francisco José de Goya y Lucientes. Um retrato de quem fuzila e de quem é fuzilado numa Europa que permanece, até hoje, presa num tempo de guerra.

“Pôr do Sol com Leão Deitado” de Mário Cláudio

Edição: Dom Quixote

Na primeira parte deste livro, encontraremos um escritor que ficou recentemente sem mãe, e que ora partilha com os leitores os seus passeios higiénicos na zona onde vive, oferecendo-nos um retrato sociológico impagável de um certo Porto, ora nos dá a conhecer as quezílias com o seu companheiro de anos, de quem parece diferir em quase tudo, excepto no afecto que os une.
Na segunda parte, pela voz de um dos seus tratadores, acompanharemos a vida de Sofala, um leão capturado em Moçambique ainda jovem, que viajou nos anos trinta até à Invicta para ser orgulhosamente mostrado na Exposição Colonial Portuguesa, após o que foi esquecido numa jaula.
Por fim, virá chamar-nos a figura do escritor António Nobre nos finais do século XIX, seja através da história da sua vida narrada por pena alheia, seja através da leitura do próprio diário, a que não escapam os constrangimentos das normas sociais da época, evidentemente castradoras das suas preferências sexuais.
Tão dotado para o cómico como para o trágico, Mário Cláudio continua a surpreender-nos com as suas propostas literárias, bem como com a linguagem vibrante e rica com que nos brinda a cada nova obra.

“Afrocalipse” de Mário Lúcio Sousa

Edição: Dom Quixote

Num tempo em que se se celebram 50 anos de independência das antigas Colónias portuguesas, este romance corre o risco de se tornar um clássico.
Num país nunca nomeado, mas africano de gema, o ditador aquece o lugar por quase quarenta anos, recusando eleições, neutralizando os concorrentes, enriquecendo para lá do aceitável à custa da miséria do seu povo.
Ora, se este Presidente nos lembra alguém, é porque o romance se inspira assumidamente na insanidade, na cleptocracia e no abuso de personagens reais (e são muitos!) como Kumba Yalá (Guiné Bissau), José Eduardo dos Santos (Angola), Mobutu (Zaire) ou o terrível Bokassa (República Centro-Africana) que se coroou imperador em 1984, retratando também o horror das guerras civis pós-independência e o genocídio do Ruanda, bem como a subserviência do povo, a fome e o desgoverno crasso que enfestam muitos países em África e constituem hoje talvez a principal causa do seu atraso.
Nesta ficção, porém, as mulheres cansam-se do «afrocalipse» vivido há décadas e ajudam a mudar a história. Mas nem é só neste facto que reside a novidade: ela está presente na linguagem inventiva e belíssima com que o autor fala de coisas, afinal, tão feias e também na circunstância de ser o primeiro escritor de África a assacar aos próprios africanos parte da responsabilidade pelas desgraças sociais e pelo descalabro dos Direitos Humanos.
Este é um livro poético, irónico e cheio de humor, como são sempre as obras de Mário Lúcio Sousa, com pinceladas sobre assuntos muito sérios que interessam a todos os leitores.

“A Estalagem das Duas Bruxas” – Contos Completos – Volume I de Joseph Conrad

Edição: E-primatur

Conrad é universalmente reconhecido como um dos grandes escritores de língua inglesa, com um vocabulário refinado e construções frásicas complexas que reflectem, com a simbologia da paisagem marítima, os dilemas morais das suas personagens.
Conrad nasceu na Polónia e sabia falar francês; curiosamente, o contacto com o inglês surgiu apenas na adolescência, quando foi trabalhar para as embarcações que navegavam pelos mares do sul. Apesar desta circunstância tão invulgar, os seus pares reconheceram-no como um dos maiores autores de língua inglesa, e alguns, como foi o caso de William Faulkner e de Scott Fitzgerald, como o maior escritor de todos os tempos.
A ficção de Conrad centra-se essencialmente em personagens perdidas por lugares diversos: pode ser na natureza ou no mar, no subconsciente ou na própria consciência, na sua dimensão moral ou simplesmente no seio da sociedade.
Os contos de Conrad são geralmente contos de aventuras, mas têm sempre outros níveis de leitura, nomeadamente o homem perdido em busca de si mesmo ou de um rumo para a sua existência. Devido a essa pluralidade de interpretações, os seus contos podem ser lidos por vários tipos de leitores: aqueles que procuram um grande livro de aventuras, aqueles que pretendem simplesmente deleitar-se com uma prosa magistral ou os que desejam acima de tudo uma literatura que reflicta o homem em busca de si mesmo, da sua autenticidade, por entre as incertezas do mundo e da alma humana.
Neste primeiro volume incluem-se uma cronologia e as notas que Conrad deixou aos seus próprios contos.

“O Meu Primeiro Apocalipse” de Rodrigo Guedes de Carvalho

Edição: Dom Quixote

Portugal, 2066.
Nos céus há mais drones do que pássaros e nas ruas circulam carros sem condutor. A água é racionada e toda a gente tem os olhos tapados com Eyephones.
Filha de um iraniano e uma portuguesa, a jornalista e escritora Laura Ganjavi está a pensar reformar-se quando recebe uma proposta inesperada. Nascida no início do século, Laura assistiu a ciclos políticos cada vez mais curtos. Alternâncias entre extremos de Esquerdas e Direitas, com pouco espaço para moderados. Alianças que se criam e desfazem em poucos anos ou meses, ao ritmo da moderna sociedade apressada.
Uma única figura atravessou décadas intocável. Nunca teve qualquer cargo oficial e, no entanto, foi sempre a sombra de cada novo líder. Uma poderosa ministra da Influência. De impressionante beleza comprada e idade indefinida. Ava Carina, o Anjo Azul. É dela o convite a Laura Ganjavi para integrar uma pequena equipa que resgate a importância que a leitura e a escrita tiveram no passado. Mas a proposta tem condições.
O Meu Primeiro Apocalipse é uma vertigem entre drama e sarcasmo. Somos levados a um admirável novo mundo cheio de velhos vícios. E, em pano de fundo angustiante, o anúncio do iminente fim do planeta. Desta vez, sério e sem solução. Assim sendo: escrever para quê, e para quem?

“Aguarela de Paris” de João Pinto Coelho

Edição: Dom Quixote

Inverness, 1927.
As Terras Altas da Escócia, refúgio privado do ramo britânico dos Senigallia, a mais influente dinastia de banqueiros judeus da Europa, são o palco da infância de Franca e Giullietta, duas gémeas impossíveis de distinguir e, ainda assim, tão diferentes.
Mas os muros aristocráticos do castelo de família encerram muito mais do que sonhos juvenis. Lá, onde o Diabo pode ser visto pelo menos uma noite por ano e os fantasmas esbofeteiam as criadas no escuro, dá-se o maior crime do século, uma tragédia que marcará de maneira impiedosa o destino das raparigas.
O seu grito de emancipação escutar-se-á nos cenários mais improváveis – dos cafés de Montparnasse, onde Giullietta impõe o seu génio artístico junto de pintores que se contarão entre os mais famosos do mundo, até à costa do Estoril, onde Franca apanha sol no Tamariz e se cruza com espiões nas festas exuberantes do Hotel Palácio.
Porém, quando tudo se desmorona, o romance anoitece, quase insuportável de ler perante a mais hedionda das faces do Holocausto, essa que se oculta nos blocos de Auschwitz e Birkenau, pelas mãos de Mengele, o Anjo da Morte, e a sua legião de médicos nazis.
Com Aguarela de Paris, João Pinto Coelho – autor vencedor do Prémio LeYa – regressa ao seu tema de eleição, presente, desde logo, em Perguntem a Sarah Gross, tecendo desta feita um romance de formação que é também uma surpreendente história de rebeldia e resistência numa Europa em guerra.

“O Futuro Anterior” de Amadeu Lopes Sabino

Edição: Guerra e Paz

Num cenário político e tecnológico inquietantemente próximo do nosso, O Futuro Anterior cruza ficção científica, reflexão filosófica e sátira política para inquirir se o presente, afastando-se do passado, não deverá ser concebido através de projeções do futuro.
Karel Löwenthal, acusado de terrorismo, está preso em Portugal e em greve de fome. Apoia-o Afrodite, deusa e amante. Num universo de tensões políticas na Terra, na Lua e em Marte, invisíveis gerentes do poder, entidades humanas ou divinas, ensaiam experiências de imortalidade, colonizações planetárias e reconfigurações da espécie homo sapiens.
Paralelemente, entre Bruxelas e os Açores, Homero Ambar, pintor sem talento, assiste, nos braços de uma amante com génio, ao início da chegada dos chineses à Europa. É entre ensinamentos de Buda e Mao que o Império do Meio projeta a nova engenharia política do mundo. Serve-lhe de modelo o Império Unificado de Marte, que edifica uma sociedade rigorosamente igualitária onde a liberdade individual foi sacrificada em nome do bem-estar coletivo.
Dos Açores e Pequim a Marte, sob os signos de Borges, de Philip K. Dick e da tradição clássica, O Futuro Anterior, território de política, fé, ciência e poder, combina intriga, reflexão e tensão narrativa.

“Cartas de Jharia” de António Rebordão Montalvo

Edição: Astrolábio

Subitamente, a dez metros de nós, uma mulher saltou para a pira funerária do marido e ficou a arder com o seu cadáver. Vendo aquele salto inesperado, Katherine lançou um grito e escondeu, horrorizada, a cara sob o lenço branco que lhe cobria o cabelo. Desejei naquele momento que minha mãe não tivesse presenciado um sacrifício tão pungente como aquele. O senhor Kamadeva segredou-me:
— É o sati — prática de que eu já ouvira falar. Explicou-nos que a morte pelo sati surgira há mais de 700 anos, numa época em que os homens morriam nas batalhas e as suas mulheres não queriam ser levadas pelos vencedores.
A noite caiu sem que toda a pira tivesse ardido e nenhum de nós abandonou a margem do rio.
Dificilmente se encontrarão no mundo imagens tão impressionantes como as daquelas piras a incendiar a noite escura, iluminando com as suas labaredas as águas sagradas do Ganges.

“Urânio – Intriga Internacional no Alentejo” de Carlos Rayo

Edição: Sopa de Letras

Natércia Colete, Naty para os conhecidos, é uma advogada portuguesa oriunda de Nisa, no Alentejo, para onde regressa depois dos estudos de Direito e de uma passagem profissional por Luanda. O contacto que recebe para trabalhar como advogada para a Metalmint, uma empresa muito interessada na extração de urânio na sua terra natal, deixa-a cheia de dúvidas e perplexidades: quem estará por detrás dessa empresa e que verdadeiros interesses esconde? O que têm a ganhar com essa exploração as entidades locais alentejanas e as nacionais portuguesas? Que interesses obscuros se perfilam? Será que Natércia vai ceder às pressões, ou dar primazia aos interesses da população e resistir?

“Fazer de Estátua” de Gunther Grass

Edição: Dom Quixote

Quando um dia perguntaram a Umberto Eco que figura histórica feminina, do mundo da arte, ele escolheria, se pudesse, para jantar com ele, o escritor respondeu: Uta de Naumburgo. O mesmo se passa com o narrador desta história. No final da década de 1980, encontrando-se em viagem pela República Democrática Alemã, onde apresentava a sua obra mais recente, o narrador depara, na catedral de Naumburgo, com a mulher mais bela da Idade Média, uma das doze estátuas que representam os fundadores daquela igreja. E como tudo é possível numa folha de papel, convida todos os modelos para um almoço no seu jardim – todas as personagens que um dia haviam inspirado o mestre artesão do século XIII a criar aquelas esculturas tão próximas dos originais.
Pois bem, é durante esse repasto que o narrador se deixa encantar pela filha de certo ourives, precisamente a rapariga que servira de modelo à figura de Uta. A mesma jovem que, num ousado salto cronológico, ganha agora vida, no momento presente, fazendo de estátua nas praças de Colónia, Milão ou Frankfurt. O narrador fica tão obcecado pela jovem que a procura por toda a parte, satisfazendo-lhe até, por fim, um pedido com desfecho fatídico.
Concebida inicialmente para integrar um dos capítulos de Descascando a Cebola, esta narrativa foi descoberta há pouco tempo por Hilke Ohsoling, colaboradora de longa data de Günter Grass. O texto encontrava-se entre os materiais arquivados, não numa gaveta qualquer, esquecida e empoeirada. Já havia, porém, indícios da existência de Fazer de Estátua, referências encontradas em manuscritos do arquivo, em projetos de trabalho ou litografias, num conjunto de esculturas presente na oficina de trabalho de Grass.
Uma narrativa de grande subtileza, até agora desconhecida do público-leitor.

POESIA

“Primeiro Poema” de Nuno Júdice

Edição: Dom Quixote

O último livro de Nuno Júdice, o que o poeta tinha preparado para publicação no ano em que nos deixou.
Conforme nos conta Manuela Júdice na introdução deste livro, Nuno Júdice morre em Março de 2024 deixando três pastas com poemas para o livro que dizia estar preparando. Saem dessas pastas os poemas para este livro, Primeiro Poema, o título que ele revelara ao Ricardo Marques.
O trabalho de completar o livro incompleto foi feito pelo Ricardo Marques, estudioso da obra do poeta e seu amigo, e por Manuela Júdice, a sua mulher de toda a vida. E, neste Primeiro Poema, voltamos a ouvir a voz de Nuno Júdice, os seus temas, a sua poesia.

“Cantos” de Giacomo Leopardi

Edição: Assírio e Alvim

A obra poética de Giacomo Leopardi (1798–1837) representa um dos pontos mais altos da literatura italiana e constitui, simultaneamente, um marco na reflexão filosófica sobre a condição humana. Os seus Canti, colectânea de poemas que atravessam diferentes momentos da sua vida, sintetizam com rara precisão a tensão entre o deleite estético da palavra e a gravidade das questões existenciais. Traduzir Leopardi para português não é, portanto, apenas uma operação linguística: é um convite a um diálogo entre culturas, permitindo partilhar com leitores lusófonos a intensidade e a profundidade de uma sensibilidade literária singular. A tradução em português dos Canti, realizada por Jorge Vaz de Carvalho, constitui assim um contributo fundamental para a recepção da poesia italiana em Portugal, permitindo que leitores lusófonos acedam à intensidade e à complexidade da obra de um dos maiores poetas do século XIX. [Mariagrazia Russo, do Posfácio]

“Dom Quixote – 60 Anos de Poesia” – Uma antologia de Manuel Alberto Valente

Edição: Dom Quixote

Uma antologia que reúne um poema de cada um dos poetas publicados na Dom Quixote ao longo dos seus 60 anos de livros.
Projetada no âmbito das comemorações do 60.º aniversário das Publicações Dom Quixote, a presente antologia não pretende ser outra coisa senão a demonstração viva de como, desde a sua fundação por Snu Abecassis, em 1965, até ao presente, a Editora tem permanentemente demonstrado um empenhamento sério na divulgação da poesia.
No tempo de Snu (com a ajuda invisível de Fernando Assis Pacheco), os Cadernos de Poesia marcaram uma época da edição portuguesa, tendo neles sido publicados poetas como Carlos de Oliveira, Alexandre O’Neill, Armando Silva Carvalho, David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Egito Gonçalves, Natália Correia, António Ramos Rosa, Sophia de Mello Breyner, Maria Teresa Horta, Herberto Helder, Gastão Cruz ou Nuno Júdice, com a particularidade de este último, com A Noção de Poema, ter aí feito a sua estreia poética.
Mas mesmo depois, ao longo das sucessivas alterações de propriedade, nunca a Dom Quixote deixou de parte a poesia; pelo contrário, foi sempre enriquecendo o seu catálogo, que conta hoje, além de alguns clássicos, com «autores residentes» como Manuel Alegre, Fernando Pinto do Amaral ou Nuno Júdice.
E com o nome deste último criou, em 2025, um Prémio de Poesia que homenageia um poeta que nasceu na casa e que, muitos anos depois, fez dela o seu definitivo porto de abrigo.

“Choupos” de Adília Lopes

Edição: Assírio e Alvim

Escrever dias e dias, com o belo cantar dos pardais, ou à sombra de Choupos. Adília Lopes retoma o fio narrativo dos seus últimos livros, envolvendo-nos num novelo, sempre novo, de histórias pessoais, considerações sobre os mais variados temas: pequenos poemas com a habitual dose de realidade da poeta.
Um poema novo. Um vestido novo. Escrever à máquina. Coser à máquina. A máquina de escrever. A máquina de costura.

“Obra Poética III” de António Ramos Rosa

Edição: Assírio e Alvim

Num esforço começado em 2018, aqui se encerra a publicação dos livros de poesia éditos de António Ramos Rosa. E se chegados a este terceiro volume nos assustar as quase três mil páginas somadas de poemas, melhor é seguir o conselho de Rosa Maria Martelo, no posfácio aqui reservado: o de ler Ramos Rosa in media res, ou constelarmente, percorrendo a sua «maiêutica interna» ou questionamento ativo, tentando com ele responder aos muitos problemas que a sua poesia sempre levantou ou mais humildemente, parece-nos, com ele questionarmos a raiz do discurso e das coisas.

O círculo, a pedra do mundo
o gozo do claro despertar
a lenta existência do igual
o que está sempre velando adormecido
eterno nas suas veias de silêncio.

“País Possível” de Ruy Belo

Edição: Assírio e Alvim

Escrito em 1973, este é um livro que permanece extremamente atual e que possui uma indubitável unidade temática: «a do mal-estar de um homem que ao longo da vida, tem pagado caro o preço por ter nascido em Portugal», tal como afirma o próprio Ruy Belo na sua nota introdutória. Estamos pois perante um volume que aborda Portugal como um país real, não mítico ou mitificado, ou então como um país ainda irreal, mas que depois de tornado real, tende a tornar-se impossível. Nas próprias palavras de Ruy Belo: «Portugal, país que só existe em pensamento».
O prefácio da presente edição é de Nuno Júdice. 

“Cinquenta Cinquenta” de Pedro Mexia

Edição: Tinta da China

MEMÓRIAS E BIOGRAFIAS

“O Céu Cairá sobre Nós (30 crónicas e um discurso)” de Lídia Jorge

Edição: Dom Quixote

Um conjunto de crónicas que, pela sua importância e pertinência, não podiam deixar de ser lidas pelos leitores portugueses.
Em janeiro de 2024, Lídia Jorge iniciou uma colaboração regular nas páginas de opinião do jornal El País, espaço que partilha com os escritores Juan Gabriel Vásquez, Irene Vallejo e Leonardo Padura. O presente volume é uma recolha de trinta dessas crónicas, incluindo cinco das várias que foram sendo publicadas irregularmente, no mesmo periódico, desde 2020, sendo uma das primeiras aquela que dá o título a este livro.
O Céu Cairá Sobre Nós corresponde ao primeiro verso de uma canção popular afegã, mas ao ser transposto para título de um livro de crónicas o seu sentido alarga-se e globaliza-se. Ele corresponde ao espírito de ameaça do nosso tempo, e simultaneamente à força da resistência que a lucidez da análise dos factos permite.
Lucidez e resistência, talvez sejam as duas palavras que emanam destas crónicas de carácter literário. E nada melhor o poderá confirmar do que o discurso proferido pela autora em Lagos, a 10 de Junho de 2025, aquando das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, e que temos o gosto de incluir neste livro. Esse texto provocou uma polémica que de algum modo marca as contingências paradoxais do nosso tempo. Publicamo-lo para que não se esqueça.

“Oceano Luso-Índico – Estudos de História Mestiça” de Luís Filipe Thomaz

Edição: Gulbenkian

«Com vivacidade crítica e expositiva, o historiador acompanha os seus leitores de um modo atraente que nos obriga constantemente a tornar viva a memória dos acontecimentos e das circunstâncias analisados. Ao começarmos pela lenda do Preste João das Índias, podemos entender a atualidade das razões de Zurara, ligando-as aos desafios lançados ao Infante D. Henrique, confrontado com a emergência da queda do Império Romano do Oriente e com os primeiros sinais da primeira globalização. Já Marco Polo descrevera uma situação incerta relativamente a essa misteriosa personagem, em busca da qual se moveram céus e terra até ao seu encontro, como algo de decepcionante.
Só conhecendo o mito e a lenda poderíamos aproximar-nos da compreensão de tudo o que enquadrou a extraordinária empresa do Índico, que teve tudo menos de improviso ou de loucura. Daí a importância de estudarmos a génese da estratégia portuguesa nas Índias, as hesitações após a chegada ao subcontinente, o testamento político de Diogo Pereira, o Malabar, no contexto do projeto oriental dos Gamas, e a significação de Malaca, como grande empório marítimo, ponto essencial na estratégia do Índico e de passagem para a China e o Japão, em articulação com Goa e Ormuz, abrangendo a compreensão da economia e da sociedade no sueste da Ásia no século XVI, envolvendo o estudo da escravatura e da produção de riqueza. Aliás, quando tive oportunidade de visitar Ternate e Tidore, com o autor destes estudos, compreendi bem a atualidade da reflexão, por exemplo, sobre as cartas malaias de Abu Hayat, sultão de Ternate, a El-Rei de Portugal, nos primórdios da presença dos portugueses em Maluco.
[…] A visita aos locais onde a História teve lugar permite uma compreensão que complementa os testemunhos passados e os documentos escritos. Daí a importância do confronto entre a realidade atual e textos como “A costa ocidental da Samatra nas fontes portuguesas quinhentistas” ou “As religiões e a Religião na obra de Fernão Mendes Pinto”, que demonstram a riqueza de conhecimentos pelo historiador de uma realidade que foi evoluindo desde a estranheza até uma realidade subitamente tornada familiar. Com uma preocupação permanente de salvaguardar a complexidade e de recusar as explicações superficiais ou imediatistas, a cada passo encontramos as contradições e os paradoxos, sem mitificar o passado nem iludir o presente.»
Do «Prefácio» de Guilherme d’Oliveira Martins

“Intervalo – Diário 2024-2025 – Seguido de – A Memória dos Outros III – Ensaios e Crónicas” de Marcello Duarte Mathias

Edição: Dom Quixote

Sobre a escrita do autor:
«Um talento aforístico de primeira água.»
David Mourão-Ferreira
«Um prosador de excepção.»
Paula Morão
«Duas ou três penadas caracterizam uma figura, duas ou três observações apontam as notas fundamentais de uma obra, dois ou três parágrafos situam os problemas, as épocas, os contextos, os ambientes.»
Vasco Graça Moura
«É difícil, deste diário, dizer o que tem de melhor, tal a profusão da riqueza, na variedade, que o alimenta. Mas eu seria fortemente tentado a sublinhar a força mortífera e audaz de certos aforismos. Como este (e é só um exemplo): “Ser governo é estar de má-fé”.»
Eugénio Lisboa
«…sem esquecer os famosos dias nacionais – deste embaixador Marcello Duarte Mathias, no seu livro Diário da Índia, oferece um olhar ternamente cáustico que Lawrence Durrell não desdenharia.»
José Paulouro das Neve

“História Global da Economia e Gestão em Portugal”, coord. João Luís Cardoso, José Candeias Sales, Flávio Miranda, Leonor Freire Costa, Teresa Nunes, Luciano Amaral e Luís Reto

Edição: Temas e Debates

Hoje é indiscutível que Portugal, no dealbar da Modernidade, se tornou um dos primeiros países construtores da globalização, tirando dessa situação um enorme proveito económico.
Por detrás desta capacidade está um espírito empreendedor singular que nos catapultou para o palco-mundo, criando redes e empórios comerciais particulares que abriram novos caminhos da liderança e da gestão.
Esta obra procura sistematizar muito do que se pode hoje ainda considerar relevante daquilo que Portugal tem dado para a gestão e a sua influência na economia mundial.
Partindo da nossa mundividência atual, em que prepondera a «economificação» nas relações globais e em que a gestão é cada vez mais relevante para tornar eficientes as diversas atividades humanas, este livro propõe uma «viagem» de conhecimento às diferentes épocas e estádios do nosso passado, até a um tempo em que o religioso e o político eram dominantes na organização da sociedade e na construção dos horizontes de sentido, mas em que o económico imperava na sua dependência.

“O Esplendor das Amizades” de Edgar Morin e António Alçada Baptista

Edição: Gradiva

O Esplendor das Amizades: A experiência portuguesa de Edgar Morin resulta da determinação do grande pensador em recordar a importância da relação com Portugal, em especial com António Alçada Baptista e os seus amigos. Os diálogos que aqui encontramos constituem a memória viva de um tempo de liberdade em que se lançaram as sementes da democracia.
Na obra de uma vida, extensa e multifacetada, a relação de Edgar Morin com a democracia portuguesa tem especial importância, designadamente na dimensão cívica e educativa. Se a revolução de 25 de abril de 1974 foi o início da terceira vaga das democracias contemporâneas, o escritor francês apaixonou-se pela complexa construção das instituições democráticas, baseadas na liberdade e representativas da vontade dos cidadãos e da sociedade civil.
Centrados na sua voz somos chamados a ouvir mais do que uma geração, um tempo inesquecível.

“Países Estrangeiros – Memórias e Viagens” de Luís Filipe Castro Mendes

Edição: Guerra e Paz

A velhice e a infância, as viagens e os livros, o amor e a sua materialidade. A poesia e o tempo, a morte e a guerra, a política e os anos da Revolução. Luís Castro Mendes escreve contra o esquecimento, enquanto o mundo brilha cheio de som e de fúria, de beleza e de horror.
«Os poetas eram acusados de viver numa torre de marfim, ainda que essa torre pudesse ser mais frequentemente o barril de Diógenes, que apenas pediu a Alexandre o Grande, que o instou a formular um desejo, que se afastasse de si, porque a sua sombra lhe tirava o sol. Eu creio que a barbárie nos tira o sol, mas com o sol rouba-nos os jogos, a alegria, a inocência, tudo aquilo que não pesa por grave nos nossos corpos e nas nossas consciências, que é o poder de criar e fruir a própria vida.
Um poema de Kavafis descreve a ansiedade de um povo pela chegada iminente dos bárbaros. E quando eles afinal não chegam, lavra a desilusão. E agora que vai ser de nós sem os Bárbaros?/ Essa gente era uma espécie de solução, conclui o poema de Kavafis.
Estarão as nossas sociedades, como estes cidadãos do poema, ansiosamente à espera dos bárbaros que, se não resolvem os problemas, pelo menos eliminam-nos, pela espada dos guerreiros ou pela censura dos ditadores? Sim, os bárbaros são uma solução para muita gente. Menos para aqueles que vivem para alguma coisa a que a liberdade faz tanta falta como o oxigénio: a dignidade de ser humano.»

Encíclica «Magifica Humanitas» de Leão XIV

Edição: Paulinas

Magnifica Humanitas é a primeira encíclica do Papa Leão XIV e propõe uma reflexão profunda sobre os desafios éticos, sociais e espirituais da era digital. Inspirado pela tradição social da Igreja, o texto aborda o impacto da inteligência artificial, da tecnologia e do poder económico na vida humana, defendendo que o progresso deve sempre estar ao serviço da dignidade da pessoa.
Com uma linguagem clara e atual, o Papa convida leitores de todas as áreas a pensar o futuro da humanidade à luz da justiça, da solidariedade e do bem comum.

“Catarina de Bragança – a História da Infanta Portuguesa, Rainha de Inglaterra” de Susan Abernethy

Edição: Planeta

Educada na corte portuguesa num ambiente profundamente religioso e recatado, a infanta Catarina de Bragança tornou-se, aos 23 anos, rainha de Inglaterra, num casamento tão grandioso quanto conturbado, marcado pelas infidelidades do marido Carlos II, por ser incapaz de gerar o tão desejado herdeiro e pela luta constante para se afirmar numa corte hostil.
Apelidada como a rainha esquecida, Catarina de Bragança foi muito mais do que apenas a mulher de Carlos II, muito mais do que a rainha que introduziu o chá, a geleia e o uso dos talheres na corte inglesa.
Este livro revela uma Catarina de Bragança mais complexa, determinada e influente do que a História muitas vezes reconheceu e retratou. Entre Portugal e Inglaterra, entre a devoção e a diplomacia, Catarina soube defender os interesses da sua pátria, promover a cultura barroca católica e conquistar um lugar singular no coração da Europa do século XVII.
Mais do que a história da rainha portuguesa de Inglaterra, esta é a história de uma mulher forte e determinada que transformou o seu destino num legado duradouro.

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