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1ª “In Varietate Concordia Talk” – uma conversa sobre o património musical ibérico e a “sinfonia inacabada” da Europa

© Pedro Melim / Centro Nacional de Cultura

No passado dia 23 de fevereiro, às 18h00, o Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian recebeu a primeira sessão do ciclo In Varietate Concordia Talks.

A conversa contou com um painel de três artistas e destacados defensores da cultura ibérica: o músico e maestro Jordi Savall, o barítono e fundador/presidente do Centro Europeu de Música Jorge Chaminé e a fadista e comissária do projeto Ponta Delgada 2026 – Capital Portuguesa da Cultura Katia Guerreiro. Foram ainda mostrados excertos do primeiro podcast In Varietate Concordia com Maria João Pires, que se viu impossibilitada de participar à última hora. A moderação ficou a cargo da Secretária-Geral da Europa Nostra, Sneška Quaedvlieg-Mihailović.

Quarenta anos após a adesão de Portugal e Espanha à União Europeia, e na véspera da entrada no quarto ano da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, os intervenientes refletiram sobre como o nosso património musical comum pode inspirar a união e a paz na Europa, numa altura em que os valores democráticos enfrentam crescentes desafios.

© Pedro Melim / Centro Nacional de Cultura

Sessão de abertura

Na abertura do evento, Sneška Quaedvlieg-Mihailović explicou a missão da iniciativa In Varietate Concordia no âmbito do European Heritage Hub (financiado pela União Europeia) e deixou um agradecimento especial ao Centro Nacional de Cultura, parceiro da Europa Nostra neste projeto e à Fundação Calouste Gulbenkian, que o apoia.

Maria Calado, Presidente do Centro Nacional de Cultura, sublinhou a importância de garantir que a sociedade civil desempenhe um papel cada vez mais ativo no projeto europeu. Expressou ainda a ambição de transformar a cidade de Lisboa num farol, capaz de iluminar o caminho para a valorização do papel do património cultural no desenvolvimento das nossas comunidades e nas transições digital, climática e social. 

Alberto Santos, Secretário de Estado da Cultura de Portugal, defendeu que a música, como outras tradições culturais, resulta sobretudo de encontros inesperados, nos quais podemos reconhecer importantes lições políticas: a Europa é uma entidade em movimento e uma construção exigente que mantém o seu equilíbrio precisamente porque aceita a diferença como condição para a sua existência. Elogiou ainda a iniciativa pela sua missão de ligar a cultura, o património e os valores democráticos através da criação de um espaço público dedicado ao pensamento, à negociação, à escuta e ao compromisso.

© Pedro Melim / Centro Nacional de Cultura

O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, frisou a importância de revisitar o princípio In Varietate Concordia (Unidos na Diversidade) numa época em que há uma necessidade premente de recuperar um sentido partilhado de propósito, de identidade e de história. Notou que a civilização europeia foi sempre pautada pela diversidade e que o desafio atual reside em devolver o sentido a essa diversidade, dotando-a de uma substância comum renovada e reafirmando o seu sentido de União.

A música como memória, resistência e identidade

Jordi Savall alertou para o risco de a Europa perder uma parte vital de si própria caso negligencie o seu património musical imaterial: “Esquecemo-nos disto… esta linguagem está hoje esquecida porque a música só existe quando o cantor canta e os músicos tocam”.  Ao contrário dos monumentos ou das pinturas, a música só vive através da sua interpretação. O maestro explicou que “Não apoiamos o nosso património musical, porque ele é imaterial. Quem tem responsabilidades políticas não conhece o valor de um manuscrito musical de um compositor desconhecido. Quando a riqueza do património não é reconhecida, desconhecemos o seu valor. E para lhe darmos valor, temos de o apoiar”.

© Pedro Melim / Centro Nacional de Cultura

Savall alertou ainda para o perigo de darmos este património como garantido. Na sua perspetiva, a Europa carece ainda de uma política cultural coerente: “Com a exceção cultural, não temos uma política cultural europeia. A exceção cultural (l’exception culturelle) significa que cada país faz o que bem entende”. O desafio, sugeriu, passa por caminhar no sentido de uma verdadeira igualdade de oportunidades no acesso à cultura em todo o continente.

Jorge Chaminé colocou a música no centro da identidade europeia. “A identidade cultural da Europa é a música. Os grandes filósofos falaram sempre da música como o cerne de uma sociedade”, afirmou, recordando a forma como a Península Ibérica serviu, durante muito tempo, como um laboratório europeu de intercâmbios e de coexistência. “A música é a arte de escutar. A harmonia é algo que temos de construir – não é algo que nos seja dado. Ouvir o outro, prestar atenção antes de responder… É por isso que a educação é tão importante.”

Olhando para as tensões geopolíticas atuais, Jordi Savall foi lúcido quanto aos limites e ao poder da arte. “A música não consegue travar bombas, nem a barbárie”, reconheceu, numa referência à guerra da Rússia contra a Ucrânia. “Mas a música está cá para ajudar a encher os nossos corações, porque fala diretamente à nossa alma.  A música pode salvar-nos e ajudar-nos a enfrentar a adversidade.” Jorge Chaminé associou-se a esta convicção, recordando Portugal durante o regime de Salazar: a música fez parte da resistência. “Os regimes caem, mas a música permanece.”

Embora se tenha visto impossibilitada de participar neste painel, a pianista Maria João Pires foi incluída no debate tendo as suas ideias sido transmitidas à audiência através da projeção de alguns excertos da sua conversa com Sneška Quaedvlieg-Mihailovic no recém-gravado primeiro episódio do podcast In Varietate Concordia.

Num destes excertos, a pianista sublinhou a importância de defender os valores europeus perante os perigos do presente: “Penso que uma Europa baseada em valores é a verdadeira Europa, a Europa do Renascimento, que pode sempre regressar, que poderia sempre regressar. Temos de a trazer de volta. E aí, sim, a Europa começaria a ter um verdadeiro valor”.

Educar as gerações futuras

Os oradores sublinharam também a importância de renovar as tradições para as manter vivas. Katia Guerreiro refletiu sobre o renascimento do fado entre as gerações mais jovens, contando que “o fado estava a atravessar um período difícil, porque apenas os mais velhos o ouviam. Mas depois surgiu uma nova geração com uma forma diferente de mostrar o que é o fado”. Ao “trazer uma nova forma de cantar e de se apresentarem ao público”, os artistas conseguiram dar “um certo charme e atratividade a estes valores, para que fossem preservados”.

© Pedro Melim / Centro Nacional de Cultura

No entanto, a inovação tem de andar de mãos dadas com a transmissão. Katia Guerreiro insistiu que arriscamos perder valores “se não educarmos as crianças para os terem” e defendeu que a cultura não é um luxo, mas sim “uma das principais necessidades do ser humano para se desenvolver enquanto pessoa capaz de dar aos outros, com pensamento crítico, capaz de pensar por si próprio – e não apenas de consumir o entretenimento que lhe é servido”. Com estas preocupações em mente, a fadista deixou uma mensagem clara: “Só podemos ter esperança nos valores da Europa se educarmos as crianças para a cultura e com a cultura.”

Jorge Chaminé concordou, descrevendo a Europa como “uma sinfonia inacabada” que ainda tem de ser composta. Para tal, os sistemas de ensino precisam de evoluir para além dos modelos de produtor e consumidor do século XIX. O músico frisou que “a verdadeira educação é a capacidade de criatividade das crianças – porque elas a têm” e refletiu sobre o processo de construção da União Europeia, ao longo do qual a cultura e a educação não receberam o lugar central que mereciam. 

Jordi Savall apelou a um regresso às origens: aprender a música como uma língua viva, cantada e memorizada, enraizada na empatia: “A música sem empatia não existe”. Num tempo de desafios internos e externos aos valores europeus, o maestro e os restantes oradores defenderam que a cultura continua a ser um último refúgio da dignidade humana – e um alicerce para a reconstrução da harmonia.

O evento encerrou de forma festiva: com o coro da audiência, os oradores cantaram os parabéns a Katia Guerreiro e uniram-se num apelo renovado à prossecução deste diálogo.

Assista à sessão na plataforma Youtube e partilhe as suas impressões sobre a conversa e a iniciativa In Varietate Concordia

Sobre a Iniciativa In Varietate Concordia 

Este evento faz parte da iniciativa In Varietate Concordia, coordenada pela  Europa Nostra e pelo Centro Nacional de Cultura com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Enquadrada no Hub Europeu do Património, financiado pela União Europeia, In Varietate Concordiapretende inspirar reflexão, promover debates sobre os grandes desafios que a Europa enfrenta e estimular ações em defesa de valores europeus como a democracia, a justiça, a igualdade, a solidariedade e a sustentabilidade. Este ambicioso projeto assenta em três vertentes: diálogos presenciais, podcasts e colunas de opinião.

Inspirada no lema da União Europeia “Unidos na Diversidade”, In Varietate Concordia reúne figuras culturais, intelectuais e agentes da sociedade civil de diferentes gerações e geografias. A iniciativa parte do legado interdisciplinar do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural e junta laureados do prémio a pensadores emergentes, ativistas e criativos.

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