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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

JOSÉ SARMENTO DE MATOS (1946-2018)

Historiador de Arte, Olisipógrafo, conhecedor profundo da cidade e dos mais ínfimos detalhes, foi quem batizou as ruas do Parque das Nações, desde os nomes tradicionais da velha cidade até Corto Maltese… Acaba de nos deixar, mas o melhor obituário que podemos fazer é recordar as suas palavras de puro prazer, em torno das suas artes…

Em entrevista no “Expresso”, a Ana Soromenho, há um ano, exprimiu um enorme prazer com o melhor de Lisboa: O ar, a cor, a luz... A maneira como a cidade se foi adaptando à orografia, tornando-se barroca no sentido das perspetivas inesperadas. Vai-se na Rua da Escola Politécnica, olha-se para a esquerda e tem-se o Tejo lá em baixo. É também barroca no sentido da surpresa, é feita de pequenos recantos onde tudo se encaixa. Isto é das coisas que mais me encanta. E a luz, claro, que tem a ver com a sorte de apanhar o vento norte que limpa tudo e fica só a reflexão da bacia do mar da Palha. Neste aspeto, Lisboa tem uma condição única. Tem o mar à frente. Só é comparável a Istambul. O Calouste Gulbenkian saía do Hotel Avis, ia para o alto de Monsanto, sentava-se numa cadeirinha, ficava ali a olhar para o Tejo e dizia: “Isto é Constantinopla. Não há nada mais parecido”.

Era alguém para quem a cidade tinha segredos que ele gostava de decifrar. “Quando entro num prédio, a primeira coisa que faço é bater nas paredes para perceber a estrutura. A partir deste gesto pode-se descobrir muita coisa. Não sei dizer quando é que as coisas começam. A casa onde nasci, da minha avó, que era um daqueles casarões antigos perto do Bairro Alto, é um ponto de partida importante. Sempre tive um fascínio por aquela casa. Ainda hoje fecho os olhos e consigo reconstruí-la nos mais pequenos detalhes.

Só lá vivi até aos 12 anos. Entretanto, a minha avó morreu, a casa foi dividida entre a minha mãe e os meus tios. Como éramos oito filhos, os meus pais resolveram ir viver para uma quinta que a família tinha em Sintra. Havia espaço para todos, e eles gostavam muito dessa casa…”. E continua: “Era um casarão enorme metido no meio da serra. Ainda hoje existe, a Vila Roma. Do meu quarto vejo a vila, a Pena, o Palácio dos Mouros e Mafra lá ao fundo. Um cenário único, uma coisa feérica, mas todos os dias igual. Só na época dos nevoeiros é que mudava. No verão, as quintas enchiam-se de famílias muito grandes, as portas ficavam todas abertas, e a gente entrava por uma quinta e saía por outra. Conhecíamo-nos todos, era um mundo fechadíssimo. Passavam lá dois meses. No inverno desapareciam. À nossa volta só havia casas vazias. Habituei-me a essa solidão, que ia povoando... Cada um dos oito irmãos tinha o seu quarto, a casa era muito grande, e eu passava os dias a ler livros de História, isolado no escritório do meu pai, que era advogado e vinha todos os dias trabalhar para Lisboa. Tinha a mania da História, e o que é que uma pessoa podia fazer em Sintra? Ler compulsivamente. Mais nada. Às vezes, não ia às aulas de manhã, porque ficava até de madrugada a ler”.

Pergunta-se sobre um “traço identitário dos lisboetas”. Talvez a noção da História. “Os maiores escritores portugueses são historiadores. Fernão Lopes, João de Barros, Alexandre Herculano, Oliveira Martins. Acho que a História do Oliveira Martins é o maior romance da língua portuguesa.

Puxo um bocadinho a brasa à minha sardinha. Mas é verdade. Veja o Fernando Pessoa. A História impregna toda a obra do Fernando Pessoa, permanentemente, e não é só a “Mensagem”. Ou o Camões. Toda a nossa História foi definida pelo Camões em “Os Lusíadas”: Afonso Henriques, Inês de Castro, Leonor Teles, a Rainha Santa... Quem define os mitos na nossa História é ele. Quer um exemplo menos erudito? O cosmopolitismo. É um traço dos lisboetas e faz parte da História desde sempre. O estrangeiro não o incomoda. Um dos maiores presidentes da Câmara de Lisboa, chamado Duarte Pacheco, nasceu em Loulé. Para nós, isto é completamente indiferente”.

Afinal, afinal, toda “ a minha construção é literária. Lembro-me de Ruy Belo: “Só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade.” A minha maneira de olhar para a história de Lisboa tem a ver com isto. É uma coisa que me diz respeito. Não é uma coisa que eu estou a estudar. Faz parte de mim e eu faço parte dela. Isto é intimidade”.

O Centro Nacional de Cultura homenageia José Sarmento de Matos e a sua obra e envia sentidas condolências a sua família – em especial aos nossos Amigos Maria José e Diogo Freitas do Amaral.

Edição: 29 de outubro de 2018