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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 29 de janeiro a 4 de fevereiro de 2018.

«Meu Dito, Meu Escrito» de Maria de Sousa (Gradiva, 2014) é um fascinante conjunto de textos de uma cientista em busca da humanidade e da compreensão do diálogo entre saberes e valores éticos. 

DO CONHECIMENTO À SABEDORIA

Maria de Sousa é uma cientista, médica e bióloga, com créditos firmados no mundo, em virtude do seu conhecimento, da sua discrição e persistência. Exerceu atividade científica em Inglaterra, na Escócia e nos Estados Unidos. Como imunologista abriu caminhos novos, que hoje estão a produzir extraordinários resultados no campo da medicina. Foi investigadora e catedrática no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto e no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC). Maria de Sousa é bem um exemplo para os dias de hoje e para todos quantos acreditam que T. S. Eliot tinha razão quando dizia: “Onde a vida que perdemos no viver? Onde a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde o conhecimento que perdemos na informação?” Estamos aqui no cerne da atitude humanista e da compreensão de um sentido amplo de humanidades, ligando ciência e artes, inovação e criatividade, conhecimento e compreensão. Encontrei sempre em Maria de Sousa o genuíno entusiasmo de quem procura em cada momento o modo de chegar à dignidade humana, pela vida das ideias, pelo entendimento da complexidade, pela compreensão de que a descoberta corresponde ao sentido crítico e ao permanente inconformismo. Daí dar tanta importância ao desassossego, que nos leva ao exemplo, à aprendizagem e à experiência… E não podemos esquecer como Agostinho da Silva foi uma referência para a cientista – uma vez que usava do paradoxo por contraponto às ortodoxias fechadas ou rígidas. Em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, Maria de Sousa disse-nos quem a influenciou, no sentido de desarrumar o seu pensamento, abrindo-o para a inovação e referiu Jorge da Silva Horta, o professor de Anatomia Patológica e o modo como ele ensinava. «Fazíamos leitura de relatórios de autópsia, e, ao mesmo tempo, sabíamos a opinião que os clínicos tinham desses pacientes em vida. Grandes e famosos clínicos. Viam o doente, achavam que o doente tinha uma coisa, depois fazia-se a autópsia e não era nada daquilo. Os resultados da autópsia eram uma forma extraordinária de aprender que, de facto, não se sabe. O que me vai impressionar sempre é o que não se sabe. Foi a primeira desarrumação. Depois, quem desarrumou mesmo, foi (…) David Ferreira, que era de um grupo que ia constituir o IGC (Instituto Gulbenkian Ciência). Recrutaram alunos de Medicina para fazer investigação, muito cedo». E cita Garcia de Orta na sua extraordinária afirmação: «O que sabemos é a mais pequena parte do que ignoramos». Sim, esta é a atitude fundamental correspondente ao modo do ser do cientista, capaz de compreender a ciência como cultura. Afinal, o filósofo e o cientista, o artífice engenhoso e o pintor, o escultor e o músico todos participam da maravilhosa capacidade criadora. E o processo assemelha-se em todos os casos – que articulam educação, ciência e cultura, sempre – tornando a aprendizagem base essencial do desenvolvimento humano. Duarte Pacheco Pereira falava, por isso, do «saber de experiências feito» e Camões pôs essas qualidades no grande incompreendido de «Os Lusíadas» que é o Velho do Restelo. Não se esquece que essa personagem central não diz a Vasco da Gama para não partir, mas antes alerta-o para os perigos do imediatismo (que viriam a ser os famigerados fumos da Índia) e da «glória de mandar» e da «vã cobiça».

A IMPORTÂNCIA DAS HUMANIDADES

Maria de Sousa, ao longo da complexa investigação que desenvolveu no campo da imunologia, soube sempre manter um diálogo muito fecundo e necessário com outras áreas do conhecimento, de modo a garantir que a ligação Educação, Ciência e Cultura permita uma melhor compreensão da humanidade e da dignidade humana. «Inúmeras são do mundo as maravilhas, mas nenhuma que ao homem se compare É o seu dos recursos infindáveis…». As Humanidades têm de colocar as pessoas no centro da vida e do mundo – sem a tentação de repetir o que recebemos nem de considerar o novo como um absoluto. Mas surge a pergunta perturbadora: sobreviveremos como civilização? George Steiner não está certo de qual a resposta. O nacionalismo e o protecionismo são poderosos venenos do nosso tempo. O chauvinismo torna o outro e o diferente como inimigos. Despreza as pessoas com nacionalidade diferente. A absolutização da identidade torna-se um fator de fechamento. Uma civilização autista tende a decair e a desaparecer por incapacidade de responder aos novos desafios, limitando-se a repetir tiques exteriores. O que nos caracteriza e nos distingue uns dos outros deve ser considerado como elemento de enriquecimento mútuo – não como de separação, de indiferença ou de ignorância. Os fundamentalismos e os protecionismos têm a mesma raiz. Hoje o tema dos refugiados não pode, pois, ser visto de modo simplista, como se correspondesse apenas a uma ordem de razões. Impõe-se articular a compreensão do outro, considerar a mobilidade das populações nos dias de hoje como algo de natural e tantas vezes necessário – bem como a cooperação para o desenvolvimento realizada nos países de origem… Os que se limitam a pensar na questão da segurança, bem como os que se atêm exclusivamente ao acolhimento de refugiados como tema humanitário estão equivocados – uma vez que há que equacionar a complexidade de temas, entendendo-se não só a resposta ao agravamento das desigualdades e à ocorrência dos fenómenos de exclusão, mas também a motivação social e humana e a emancipação cultural. A diversidade linguística e a comparação das diferentes literaturas colocam-nos no cerne da cultura como criação – e George Steiner, como Edgar Morin, permitem-nos compreender a complexidade de fatores humanos que devemos considerar. E porventura estaremos hoje a atravessar um período muito semelhante ao que ocorreu no Renascimento. E urge que tal se compreenda. Daí a multiplicidade de pistas abertas e a necessidade de um diálogo entre saberes. Maria de Sousa ensina-nos que a resposta humana aos diferentes desafios vai depender de diferentes caminhos, a que a humanidade tenderá a corresponder de um modo múltiplo… Eis o que podemos ganhar com a estimulante leitura dos ensaios da cientista e mulher de cultura.  

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

Edição: 29 de janeiro de 2018