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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 31 de julho a 6 de agosto de 2017.

“As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos” de Alfredo Margarido (Elo, 1994) constitui uma excelente oportunidade para compreendermos como os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo, alimentares e outros, mercê das viagens para outros continentes.

A CIRCULAÇÃO DE CONHECIMENTOS E HÁBITOS

Se o pequeno livro de Alfredo Margarido contém um conjunto notável de informações sobre os movimentos de influência mútua entre culturas gerados pela primeira globalização, a verdade é que podemos descobrir aí as origens de hábitos alimentares que os nossos antepassados antes do período dos descobrimentos não poderiam sequer suspeitar ou sonhar. E à obra que hoje trazemos, devemos associar outro precioso pequeno volume acabado de sair, graças à Biblioteca Nacional de Portugal, o guia da exposição a propósito dos 450 anos da publicação do “Colóquio dos Simples, e Drogas he cousas medicinais da Índia” de Garcia de Orta (2013) da autoria de João José Alves Dias – “Antes de Lineu – O Mundo das Plantas nas Coleções de Impressos da BNP” (Lisboa, 2017). Aí se afirma que pode dizer-se que no mundo científico assim como há um momento crucial representado pela obra de Carlos Lineu (1707-1778), o mesmo se pode dizer do português Garcia de Orta (1501-1568) – pelo caracter inovador da sua investigação e pelo pioneirismo do seu método. Começando pela ilustração que apresentamos, importa explicar que o quadro da autoria de Josefa de Óbidos mostra a extraordinária banalização do açúcar na vida portuguesa, durante o século XVII, que precede a grande voga europeia dos séculos seguintes, por contraste com o que ocorria anteriormente – o mel mais raro dá lugar ao açúcar, como o Infante antecipara no Algarve. Pode dizer-se, aliás, que o açúcar constitui uma das marcas do barroco português e brasileiro – lembrando-nos bem do poema ao “Menino Deus em metáfora de doce”… Perante mudanças profundas ditadas pela primeira globalização, João de Barros falou do comércio como uma ciência, afirmando-se o Renascimento sob o influxo da expansão, com “novas experiências e conhecimentos, novas formas e novos gostos”. “A paisagem modifica-se substancialmente devido à introdução de novas plantas, sobretudo americanas, tal como se alteram os jardins que mandados construir por «novos-ricos», cuja fortuna provinha do novo comércio internacional, rompiam com a velha ordem botânica da Idade Média”. De facto, “a modernidade começou a elaborar-se no momento em que os homens decidiram modificar a natureza em função dos seus interesses, alargados estes à escala intercontinental. Ou seja, a ecologia-mundo é a consequência direta e inelutável da nova leitura do mundo a que procedem os europeus: o conhecimento permite reforçar e alargar o económico, o que implica a construção de novas formas de relações humanas. (…) A ecologia-mundo permite a estruturação da economia-mundo, do que não pode deixar de resultar um homem novo, potencial cidadão do mundo” – afirma Alfredo Margarido. “Organizar e banalizar o conhecimento, eis a tarefa principal dos portugueses. Não há hoje paisagem que não conserve um traço, mesmo mínimo, das alterações introduzidas pela atividade portuguesa”.

UM PERCURSO APAIXONANTE

O percurso desde as plantas medievais até às plantas da modernidade é apaixonante. Em Porto Santo, os portugueses encontram o dragoeiro. Luigi de Ca da Mosto, em Cabo Verde, fala do encontro do trigo e da cevada com “o sangue de drago, que nasce em algumas árvores (…). A dita árvore produz certo fruto que está maduro no mês de Março, e é muito bom para comer; assemelha-se às cerejas, mas é amarelo”. Gil Eanes, depois de passar o Bojador, traz ao Infante D. Henrique, demonstrando que a terra não é tão estéril como as gentes diziam, um barril cheio de terra com umas ervas que se pareciam com outras a que chamam rosas de Santa Maria… Na Madeira, Cabo Verde e S. Tomé inicia-se a produção industrial da cana-de-açúcar, o que determina uma verdadeira revolução. Apesar da destruição de muitas espécies autóctones madeirenses, a Laurissilva consegue ser mantida… A descoberta da malagueta constitui uma extraordinária surpresa (“no gosto é tão forte que uma onça faz o efeito de meia libra de pimenta comum”). Afinal, em África havia especiarias cuja qualidade ombreava com o comércio da Índia… Os exemplos das boas surpresas multiplicam-se: as bananas são comparadas aos figos, a cola é muito estimada como boa mercadoria (mas não entusiasma os europeus), o azeite e o vinho de palma surpreendem pela multiplicidade de usos oferecidos pelos produtos da palmeira dendém… “Lisboa parece ser das primeiras cidades a receber e a adotar uma parte substancial das plantas que marinheiros, cientistas ou comerciantes vão encontrando pelo caminho”. Mas é a chegada ao Oriente que introduz novos e muito significativos fatores, apesar da desconfiança expressa por Gil Vicente, Sá de Miranda ou Garcia de Resende sobre o “cheiro a canela” que levaria o reino a despovoar-se… A transferência das plantas orientais para África, Reino e Brasil irá produzir a verdadeira alteração, que caracterizará a nova economia-mundo. E neste ponto a perspetiva científica é a de Garcia de Orta. Das explicações fantasiosas passa-se às análises rigorosas, no terreno, com conhecimento de causa. Em lugar da mitificação de Heródoto e contra mil fingimentos adotados pelos tradicionais intermediários, para aumentar o preço da mercadoria, havia que usar o rigor do conhecimento. “A lenta, mas constante eliminação dos mitos e das imprecisões, permitiu aos portugueses concluir que a canela fina, verdadeira, só se produz em Ceilão”. O novo método de Garcia de Orta exigia ver, desenhar e conhecer as plantas – no que o médico será seguido por Cristóvão da Costa, ilustrador exímio. Em lugar de analogias fantasiosas, importaria reproduzir exatamente as realidades até então desconhecidas pelos europeus. Os exemplos são curiosos e as plantas não servem para unir, mas para dissociar culturas: as folhas de betel serviam para mascar (mas não caíram no gosto dos portugueses); o coco ganhará fama por dar muitas cousas necessárias à vida humana, sendo assim batizado porque parecia o rosto do bugio ou de outro animal e fazia medo às crianças; a noz moscada e o cravinho – que se cultivavam nas cinco ilhas de Maluquo (Pachel, Moreu, Machiam, Tidore e Ternate) tinham grande procura - “aqui vem cada ano muitas naus de Malaca e de Java carregar”.

A ECONOMIA LIGADA À CIÊNCIA

“Dada a maneira como se organizou a informação portuguesa, encontramos constantemente em Garcia de Orta o contraponto científico de Duarte Barbosa: o médico retoma os materiais do marinheiro, e é por isso forçado a confirmar as informações recolhidas por Barbosa”. A bananeira continua a ser designada no vulgo como figueira-da-Índia, mas Orta já fala de banana e indica-lhe finalidades culinárias e terapêuticas. Sobre o sagu, há resistências europeias, a ponto do Padre Francisco Vieira, preso em Ternate, recusar durante trinta dias o sagu que lhe apresentam por ser comida de negro, preferindo pão e vinho. São ainda referidas as mangas (que Orta cultivava), os duriões, as líxias, as jacas e as carambolas… Sobre o chá (tendo os portugueses adotado a pronúncia de Cantão, enquanto outros europeus deram preferência ao vocábulo malaio t’e) fica um mistério, pois não encontramos descrição da planta, mas sim da bebida. Só Wenceslau de Morais, já próximo de nós, se ocupará em pormenor da planta e do ritual. E resta a América, que surpreendeu Colombo por este desconhecer tudo o que encontrava. Não podia antecipar a riqueza que o novo continente albergava. Álvares Cabral e os seus apenas identificam as palmeiras. Pero Magalhães Gândavo diz-nos: “O que lá se come em lugar de pão é farinha de pau. Esta se faz da raiz d’uma planta que se chama mandioca, a qual é como inhame…”. A mandioca, a banana-pão, a batata doce, o amendoim, o caju, grande variedade de feijões, o milho, e uma grande riqueza de frutos, como o ananás. É um mundo inesgotável. A melhor planta que corresponde ao chá do Oriente, é, na América do Sul, o tabaco. E foi de Lisboa que o embaixador Jean Nicot levou a planta do tabaco para Paris, celebrizando-a… É notável como plantas vindas de outros lugares se tornam mais férteis em novas situações… Inesgotável viagem, quando o diálogo entre a cultura e a natureza se torna tão fecundo.      

Guilherme d'Oliveira Martins

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