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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 18 a 24 de Abril de 2005

Na semana que passou, Agustina Bessa-Luís foi tema no programa “Vidas” na “Dois”. “Nasci Adulta, Morrerei Criança” é o título desta videografia realizada por António José de Almeida, onde a escritora fala da infância, de muitas memórias inquietantes, das estadas na cidade do Porto, das idas para o Douro, quando as finanças familiares estavam menos abonadas…

REFLEXÃO DA SEMANA
De 18 a 24 de Abril de 2005

Na semana que passou, Agustina Bessa-Luís foi tema no programa “Vidas” na “Dois”. “Nasci Adulta, Morrerei Criança” é o título desta videografia realizada por António José de Almeida, onde a escritora fala da infância, de muitas memórias inquietantes, das estadas na cidade do Porto, das idas para o Douro, quando as finanças familiares estavam menos abonadas… A personalidade de Agustina desenha-se com a ajuda de quem conhece bem a sua vida e obra, como Alberto Vaz da Silva, João Bénard da Costa, Manoel de Oliveira, Mónica Baldaque, Eduardo Prado Coelho, Inês Pedrosa e Pedro Mexia… O percurso é fascinante. Segura de si, Agustina expõe-se e expõe o que sente e o que pensa, com um enorme sentido irónico, sempre gozando no íntimo pela capacidade, que foi apurando, de perturbar os interlocutores. As histórias sucedem-se. É um deleite para o espírito ver as apreciações desconcertantes desta interrogadora permanente das relações que as pessoas estabelecem entre si. A natureza humana muda pouco e muda lentamente, e é com esse facto que a escritora joga sempre. A vida é uma charada. Há sempre uma obstinação do jogo e do risco. As relações de poder são fortes e inexoráveis, há manipulações, destinos e fatalidades, que se chocam com os insondáveis caminhos conduzidos pelos desejos e intenções. Que sociedade Agustina retrata e interroga? Um tempo passado, mas também os dias de hoje. Lembramo-nos, a título de exemplo, do amor de Quina pelo pai, “feito de temor e duma ousadia infinita e secreta, que se manifestava às vezes nas suas rebeldias para com os estranhos ou os irmãos” (“A Sibila”). O fantasma de Dostoievski paira e o sentimento de culpa é um ingrediente fundamental no universo romanesco de Agustina. Há uma espécie de predestinação que Agustina vai ilustrando pelo desfiar de recordações, a começar no casamento encontrado por anúncio e a continuar na reacção, postumamente descoberta, de Teixeira de Pascoaes sobre a sua primeira obra. Aparentemente, Pascoaes teria morrido sem poder ler o livro “Mundo Fechado”, que Agustina lhe enviara. A família asseverava que não estava sequer com saúde para ler o que quer que fosse. No entanto, veio a descobrir-se que não só Pascoaes tinha lido, como o tinha feito por duas vezes. Gostara do livro, e da segunda vez até mais do que da primeira, encontrando prometedora valia na nova romancista, que ia para além da mera literatura. E se Pascoaes se tornou uma divindade benfazeja entre as divindades de Agustina, já Torga não teve a mesma ventura. Nada respondeu, quando a jovem lhe enviou o primeiro livro – e Agustina não escondeu o agastamento (estava pronta para lhe atirar pedras às janelas…). O tempo sararia a ferida. E hoje que diz? “O meu estado de normalidade é escrever”. Escreve sem plano, como na vida, não teme as contradições e as discrepâncias. Afinal, é como no dia a dia…