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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 7 a 13 de Fevereiro de 2005

"Em que situação nos encontramos? Haverá medo de existir? Será a inveja um sistema, mais do que um sentimento? Por que motivo regressou o pessimismo e a ausência de vontade para superar os erros, as incapacidades e as dúvidas? Veja-se como os diagnósticos negativos se multiplicam. (...)"

REFLEXÃO DA SEMANA
De 7 a 13 de Fevereiro de 2005

Em que situação nos encontramos? Haverá medo de existir? Será a inveja um sistema, mais do que um sentimento? Por que motivo regressou o pessimismo e a ausência de vontade para superar os erros, as incapacidades e as dúvidas? Veja-se como os diagnósticos negativos se multiplicam. Depois dos bodes expiatórios, e chegados à conclusão de que de nada valeria passar culpas, chegou o momento da depressão finissecular. Em lugar, do pessimismo crítico, usado como alavanca para inverter o curso dos acontecimentos, temos a descrença, o desalento, a desistência. José Gil acaba de publicar o livro “Portugal Hoje – O Medo de Existir”. A obra tem suscitado vivo debate. E que nos diz o pensador? Que os acontecimentos não se inscrevem em nós, nem nas nossas vidas, nem nós nos inscrevemos na História. Por isso, em Portugal nada acontece… O medo instalou-se e o horizonte de futuro fechou-se. Mas de onde vem este medo? Certamente de muito longe no tempo. A “não inscrição”, de que sofremos, vem do centralismo atávico e da ilusão de que um Estado-messias poderá resolver tudo por nós. As incertezas da reconquista e das cruzadas, as “descobertas”, o ouro do Brasil, a ineficácia da monarquia liberal e da República, a ditadura e a “neutralidade colaborante” na grande guerra, a emigração europeia, as remessas dos emigrantes, a guerra colonial, a democracia, a descolonização e a opção europeia (“Europa connosco”) – tudo isso nos foi construindo, como povo, como nação e como Estado. Houve momentos de alento e até de entusiasmo. Mas, eis que regressa a tomada de consciência das dificuldades. Trata-se de um movimento recorrente. Agora, caímos em nós. Por um momento, julgámos que as dificuldades ancestrais se tinham desvanecido, entrados que estávamos no Eldorado europeu. E o “medo de existir” instalou-se, do mesmo modo que sentimos a angústia da mediocridade, da periferia e da irrelevância. Há o medo de experimentar. A desvalorização de tudo o que se faz torna-se a regra. E os melhores tendem a reservar-se e a proteger-se, assumindo intensamente o medo e a angústia. E a prudência deixa de sê-lo para se tornar paralisia. José Gil ataca a ideia de “auto-estima”. Tem a ver com ficarmos fechados em nós mesmos, em vez de olharmos o mundo e os outros e de correr riscos. Mas não somos exigentes, auto-comprazemo-nos, justificamos os erros, em vez de os reconhecer e emendar. Aceitamos o circuito fechado e não criamos um espaço público democrático aberto e construtivo – capaz de se auto-regenerar. Há medo de mudança, de futuro, de julgamento dos outros, de não sermos capazes. Numa palavra, há medo da responsabilidade. E falta vontade. Como contrariar esta situação? Cultivando a abertura, a mobilidade, o risco, a responsabilidade – e combatendo o sistema da inveja. No fundo, precisamos de energia e não de criar vítimas. Como?