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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 31 de Janeiro a 6 de Fevereiro de 2005

"Há sessenta anos que o campo de Auschwitz foi libertado. Foi a 24 de Janeiro de 1945. Para nós, é a memória do horror. Chegam-nos relatos terríveis do que foi a “solução final”. (...)"

REFLEXÃO DA SEMANA
De 31 de Janeiro a 6 de Fevereiro de 2005

Há sessenta anos que o campo de Auschwitz foi libertado. Foi a 24 de Janeiro de 1945. Para nós, é a memória do horror. Chegam-nos relatos terríveis do que foi a “solução final”. Milhões de judeus foram sujeitos ao extermínio, sob o lema trágico de que o trabalho liberta (“Arbeit macht frei”). Por muito que os testemunhos nos digam o que eram as câmaras de gás, os amontoados de corpos e de despojos humanos, o que foram os dramas, as escolhas, as traições, as angústias, nunca poderemos imaginar o que de facto aconteceu. E quando hoje os europeus parecem querer regressar ao egoísmo, ao esquecimento e à indiferença volta-nos à lembrança o que aconteceu nesses anos em que o género humano, seguro de si, desceu aos infernos da barbárie. Quando as portas dos campos de concentração se abriram ninguém mais pôde negar aquilo de que se suspeitava, mas que só então ficou definitivamente demonstrado. Depois de Auschwitz (como após a revelação do “Arquipélago Gulag”) a História passou a ter de ser lida a outra luz. E o certo é que temos a responsabilidade de tornar impossível a repetição do horror desses anos de vergonha. Afinal, o projecto europeu nasceu contra a guerra, contra o totalitarismo, contra a barbárie e contra a banalização da violência – não apenas como uma ideia vaga de bem-estar e de utilitarismo. Surpreendentemente, certos discursos, sessenta anos depois, parecem querer deitar tudo isso para trás das costas. E quando Winston S. Churchill disse que a democracia é o pior dos regimes à excepção de todos os outros, disse-o em nome da humanidade comum, que não deverá voltar a cair no logro das soluções mágicas ou falsamente messiânicas. A história não se repete, mas a falta de memória pode fazer regressar a cegueira, a violência, a ilusão do poder total. “1984” ou “O Admirável Mundo Novo” põem-nos de sobreaviso. No entanto, não há ficção que possa chegar à crueza dos acontecimentos, desde o levantamento de Munique até à guerra e aos campos de concentração. Auschwitz obriga-nos a invocar a memória, para que a barbárie não possa regressar e para que o totalitarismo seja prevenido. Hannah Arendt falava da substituição do senso comum pela lógica implacável do pensamento totalitário. É preciso recomeçar a História, através da aprendizagem da humanidade. O vazio de pensamento e de compreensão e a falta de memória são fontes da banalidade do mal. E que pensar, nos dias de hoje? Se os acontecimentos não se repetem, a verdade é que o totalitarismo tem novas e perversas formas de afirmação. As fronteiras abrem-se, a globalização é um dado inexorável, a propriedade dos meios de comunicação condiciona a opinião pública, a democracia representativa tem dificuldades em contrariar tais tendências. Eis porque não poderemos esquecer. A liberdade é a melhor defesa contra a banalização do mal…