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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 17 a 23 de Março de 2003

"O Olhar do Outro" foi durante o último fim de semana tema de um encontro com o teólogo católico inglês James Alison (1959), que teve lugar no CNC. Esteve em causa a análise e o debate aprofundado num pequeno grupo do pensamento do filósofo René Girard, em busca de uma nova maneira de focalizar a vida cristã...
"O Olhar do Outro" foi durante o último fim de semana tema de um encontro com o teólogo católico inglês James Alison (1959), que teve lugar no CNC. Esteve em causa a análise e o debate aprofundado num pequeno grupo do pensamento do filósofo René Girard, em busca de uma nova maneira de focalizar a vida cristã. Alison tem vasta obra publicada, sendo hoje um dos mais escutados especialistas de Girard. Os temas abordados foram, ao longo de dois dias de trabalho intenso: a introdução ao pensamento de Girard sobre o desejo e sobre o mecanismo do "bode expiatório" (tema central da principal obra do filósofo francês de Stanford - Le Bouc Emissaire); uma nova maneira de conceber a salvação e o perdão; a compreensão da fé e a resposta à pergunta - "Em que consiste a oração". Segundo Girard o "bode expiatório" supõe sempre a "ilusão da perseguição" e a procura da "culpabilidade das vítimas" - como aconteceu na peste negra do século XIV, em que os judeus foram acusados de envenenar os rios e os cursos de água. Temos de partir do facto de haver em todos nós um desejo mimético, isto é, aferido pela comparação com o outro. O desejo do outro é anterior ao nosso. E há a tendência para procurarmos uma unanimidade contra alguém. A história é, assim, normalmente contada a partir dos perseguidores. O génio da Biblia é, porém, a coexistência entre a história e a crítica da história. No Novo Testamento, encontramos uma mudança radical de perspectiva - a história passa a ser vista do lado da vítima. Os Evangelhos ("testemunho apostólico") gravitam em torno de um sacrifício, como todas as mitologias. Mas neste caso a lógica habitual inverte-se, uma vez que a vítima rejeita todas as ilusões de perseguição e recusa o ciclo da violência e do sagrado. O "bode expiatório torna-se o cordeiro de Deus". E assim é destruída para sempre a credibilidade da representação mitológica tradicional. "Toda a violência revela doravante o que revela a paixão de Cristo, a génese imbecil dos ídolos sangrentos, de todos os falsos deuses das religiões, das políticas e das ideologias". Nesta lógica o pecado deixa de ser o centro de todo o fenómeno religioso (como entre nós tem insistido António Alçada Baptista). A ideia de salvação torna-se mais importante do que a ideia de "queda". O processo de "salvação", assente na relação com o Outro-Outro que é Deus, é, deste modo, uma reconciliação (atonement), a afirmação da capacidade de aprender a narrar uma história própria e diferente. E a criação divina torna-se um acto contemporâneo, no sentido da felicidade e da liberdade. Cristo ressuscitado, em Emauz, depois da violência de que foi vítima, vem romper com o sagrado maléfico - superando completamente o sacrifício. E o perdão torna-se gratuito, pacífico e reconciliador.
Guilherme d`Oliveira Martins