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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 10 a 16 de Março de 2003

Há dez anos que António José Saraiva (1917-1993) nos deixou. No relançamento do CNC, na segunda metade dos anos setenta, ele foi um dos animadores da revista "Raiz e Utopia". Gostava de analisar o mundo por um prisma próprio e original. Preferia gerar perplexidades a buscar aplauso. Não podemos esquecer as sementes de novidade e de inconformismo que lançou ao longo do seu magistério cívico e intelectual...
 

Há dez anos que António José Saraiva (1917-1993) nos deixou. No relançamento do CNC, na segunda metade dos anos setenta, ele foi um dos animadores da revista "Raiz e Utopia". Gostava de analisar o mundo por um prisma próprio e original. Preferia gerar perplexidades a buscar aplauso. Não podemos esquecer as sementes de novidade e de inconformismo que lançou ao longo do seu magistério cívico e intelectual.É uma das grandes referências intelectuais portuguesas do século XX. Desde a "História da Literatura Portuguesa", escrita e debatida com Óscar Lopes, até à "Tertúlia Ocidental", passando por "Maio e a Crise da Revolução Burguesa", Saraiva seguiu sempre o seu próprio caminho, criando iras e inimigos. Como diz Eduardo Lourenço: "AJS nunca variou de estilo, e o estilo é realmente o homem. Mais do que ´marxista´ no sentido habitual do termo e, sobretudo, no uso português dessa ideologia, AJS foi um autor extremamente original, de uma liberdade de tom suprema, desabotoado no sentido próprio e figurado e da mais rara das coragens: a de mudar de opinião se a reflexão, a experiência, a informação lhe pediam ou exigiam essa espécie de autonegação". Só quem não o leu ou quem não o compreendeu pode ter-se surpreendido com um percurso sempre fiel ao espírito crítico e à denúncia, na senda de António Sérgio, da "escandalosa indigência crítica" ou da "intermitência crítica" da pátria? Bastaria ter lido "Herculano e o Liberalismo em Portugal" (1949) para perceber a fibra de Saraiva e a sua independência de espírito - "aí elogiava já Herculano (continua Lourenço) por não se ter rendido ao chamado ´processo histórico´e adivinha-se o seu aplauso ao indomável ´individualismo´do autor do Eurico. Todo o seu libertário pendor rosseauista de grande amador de passeio e escalada de montanha nos Pirinéus está incluso nessa apologia do individualismo herculaniano". Obra viva como poucas, de alguém que nunca foi idólatra do que quer que fosse - eis como tem de ser visto o seu testemunho intelectual.

Guilherme d´Oliveira Martins