A Vida dos Livros

A VIDA DOS LIVROS

“Antologia Poética” de Jorge de Sena (Guimarães Editores, 2010), edição de Jorge Fazenda Lourenço é uma recolha criteriosa que nos dá um retrato de corpo inteiro do poeta de “Fidelidade”. Estamos diante de um dos poetas e ensaístas mais notáveis do século XX. E nesta obra essa riqueza é bastante evidente. Sena fala, por isso, da sua criação poética deste modo: é “a poesia de um homem que viveu muito, sofreu muito, partilhou a vida pelo mundo adiante, sempre exilado, e sempre presente com uma vontade de ferro”. E é essa definição que sentimos ao ler esta antologia, onde poeta e ensaísta sempre se associam, numa criação riquíssima de palavras e ideias.
Guilherme d’Oliveira Martins

de 10 a 16 de Janeiro de 2011


“Antologia Poética” de Jorge de Sena (Guimarães Editores, 2010), edição de Jorge Fazenda Lourenço é uma recolha criteriosa que nos dá um retrato de corpo inteiro do poeta de “Fidelidade”. Estamos diante de um dos poetas e ensaístas mais notáveis do século XX. E nesta obra essa riqueza é bastante evidente. Sena fala, por isso, da sua criação poética deste modo: é “a poesia de um homem que viveu muito, sofreu muito, partilhou a vida pelo mundo adiante, sempre exilado, e sempre presente com uma vontade de ferro”. E é essa definição que sentimos ao ler esta antologia, onde poeta e ensaísta sempre se associam, numa criação riquíssima de palavras e ideias. 



Jorge de Sena, por Fernando Lemos


HOMEM DESTINADO…
Para Jorge de Sena, o poeta deveria ser visto «como um homem destinado a nele se definir a humanidade: um ser capaz de ter todo o passado íntegro no presente e capaz de transformar o presente integralmente em futuro». Jorge Fazenda Lourenço recorda oportunamente essa afirmação ao apresentar esta antologia, que propositadamente abrange apenas uma pequena parte da obra, menos de um décimo, pretendendo, contudo, por um lado, dar uma imagem significativa do poeta e, por outro, apresentar um aperitivo suculento para a publicação da Poesia Completa, que agora (em boa hora) se anuncia. Daí que Jorge Fazenda Lourenço, profundo conhecedor da obra de Jorge de Sena, tenha tido o cuidado em apresentar a antologia fundamentalmente como um roteiro, certo de que nunca uma obra, qualquer que seja, pode resumir-se ou limitar-se. «Uma antologia apetece ser breve. Para que a escolha, que é do domínio do esparso e do fragmentário, não pretenda substituir-se à totalidade do corpus. Para que o pouco que se mostra crie o desejo de saber o corpo inteiro. E um poeta como Jorge de Sena é para ler-se todo». Dir-se-ia que afirmação vale para qualquer poeta, mas neste caso há uma razão especial para o lembrar, já que nos encontramos diante de uma criação literária multifacetada e complexa, em que o poeta e o ensaísta estão plenamente na sua riquíssima produção. E que faz o organizador? Começa, e bem, por pedir ao próprio poeta que nos ajude no roteiro apresentado. Daí os textos significativos que podemos ler a abrir a obra, onde Sena fala de Sena. E assim podemos contar com a ajuda do autor, que exerce a sua proverbial verve analítica, dotado que era de uma inteligência e de uma argúcia capazes de nos criar encantamento. No Prefácio da “Poesia III” (1978) encontramos, aliás, uma passagem fundamental, onde Jorge de Sena procura explicar-nos o percurso dos seus títulos poéticos e da sua obra, que merece leitura atenta. Parte o autor de Patrice Latour du Pin («la vie recluse en poésie») e dá-nos como que uma chave para a compreensão de quem é e do que escreveu como poeta. É no entanto apenas uma tentativa explicativa do caminho pessoal, incapaz de poder ser resumido em poucas palavras ou em referências capitulares. A leitura desse texto tem de ser compassada, lenta e meditada, para percebermos que o acaso é algo que quadra mal com o poeta de “Perseguição”. «O homem corre em perseguição de si mesmo e do seu outro até à coroa da terra, onde humildemente encontrará a pedra filosofal que lhe permite reconhecer as evidências. Ao longo disto e depois disto e sempre, nada é possível sem fidelidade a si mesmo, aos outros e ao que aprendeu / desaprendeu ou fez que assim acontecesse aos mais. Se pausa para coligir estas experiências, haverá algum Post-Scriptum ao que se disse. Após o que a existência lhe são metamorfoses cuja estrutura íntima só uma arte de música regula. Mas, tendo atingido aquelas alturas rarefeitas, andou sempre na verdade, e continuará a andar, os passos sem fim (enquanto a vida é vida) de uma peregrinatio ad loca infecta, já que os “lugares santos” são poucos, raros, e ainda por cima altamente duvidosos quanto à sua autenticidade. Que fazer? Exorcismos. E depois vagar como Camões numa ilha perdida, meditar sobre esta praia aonde a humanidade se desnude, e declarar simplesmente que terminamos (e começamos) por ter de declarar: Conheço o sal… sim, o sal do amor que nos salva ou nos perde, o que é o mesmo. O mais que vier não poderá deixar de continuar esta linha de, sobretudo, fidelidade, “à honra de estar vivo”, por muito que às vezes doa». Parece uma citação excessiva, demasiado longa, mas facilmente se percebe, que não poderia ser truncada, porque o poeta é propositadamente exaustivo e sintético na explicação das palavras fundamentais que entende realçar, com uma especial força dada à fidelidade.


CULTOR DA VIDA CONTRADITÓRIA
Jorge de Sena cultiva as contradições, mas não se deixa arrastar pelo domínio da palavra vã (“e a miséria é isso: não imaginar / o nome que transforma a ideia em coisa…”, como diz em “Peregrinatio”). O percurso da vida e da obra procura ligar o rigor da reflexão, do argumento e a criatividade das palavras que flúem: “Não procures o que é efémero…; / não procures o que é Eterno, / tu não podes saber, tu não chegas para saber / o que é ou não é eterno” (“Perseguição”, 1942). Mas, neste ligar do que se contradiz e do que põe em causa, que o mesmo é dizer, neste considerar da dúvida, há o entendimento de que “Soube-me sempre a destino a minha vida”… Quantas incompreensões? Quanto espaço difícil de gerir? Quanto destino interrogador? A personalidade do poeta foi por muitos apontada como difícil, mas hoje, à distância, fácil é de entender que Jorge de Sena sentia em si uma força criadora e uma energia que chocava com a mediocridade que via em roda – e daí a insistência no “reino da estupidez” e a sua incompreensão pela falsa resistência do silêncio e da indiferença. Segue aí o autor os passos de António Sérgio sobre o “reino cadaveroso”, sentindo na carne e nos solavancos da vida, a terrível resistência à qualidade e ao talento. Com a responsabilidade de uma grande família e o apego insistente à liberdade de pensar e ao culto permanente do inconformismo, Sena é uma personagem que procura corporizar a poesia com grito de alerta pela dignidade humana – oiça-se, por exemplo, “Uma pequena luz bruxuleante…” ou “Senhor, não peço mais que silêncio”. Aí está a força inequívoca de quem combate com palavras e ideias, contra os espaços fechados ou as cartas marcadas. Em Chartres, invocando Péguy, sentimos o cosmopolitismo europeu: “Europa, minha terra, aqui te encontro / e à nossa humanidade assim translúcida / e tão de pedra nos pilares sombrios”. No entanto, na porta lateral da catedral de Colónia, Jorge de Sena, o português naturalizado brasileiro, sente-se rejeitado, através do ecumenismo lusitano da dupla nacionalidade: “Ah, naturalizado, não é brasileiro”; “Brasileiro naturalizado? Ah, não é português”. O registo humorístico não dá para esconder uma mágoa inequívoca. Mas, ao lado do registo sublime, o poeta sabe que tem de descer aos lugares infectos e à miséria humana. Lembre-se o alucinante diálogo “em Creta, com o Minotauro”, com a presença do abjecto e do sublime, da raiva e do orgulho, além de “O Desejado Túmulo”. “Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria / de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações / nasci…”. Mas, perante tão majestoso interlocutor o poeta terá de dizer: “Nem eu, nem o Minotauro, / teremos nenhuma pátria…”. Mas quando lemos o extraordinário poema que começa “De morte natural nunca ninguém morreu”, sentimos um intenso frémito suscitado pelo poeta que interroga os limites e que procura nas palavras o sentido da vida relativa. Do mesmo modo, o amor surge paradoxal, na corda bamba de eros e tanathos: “Amor, amor, amor, como não amam / os que de amar o amor de amar o amor não amam”. Na repetição aparente das palavras, encontramos diferentes sentidos que procuram dar-nos a ideia de incompreensão. E como não ter bem presente na revisitação de Jorge de Sena dois dos seus poemas emblemáticos, que contêm a simbiose de quem se assumiu como seguidor de quem, como Camões ou Sá de Miranda, soube ligar as ideias e a poética – falo de “Camões dirige-se aos Seus Contemporâneos” e “Carta a Meus Filhos sobre os fuzilamentos de Goya” que ilustram a inteireza do poeta? 


Guilherme d’Oliveira Martins

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