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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

Em “Um Mês de Sonho”, José Leite de Vasconcelos (1ª edição, 1926; 2ª edição, 1992) exprime com as palavras sensíveis de um erudito o que deve ser dito sobre os Açores, de modo a compreendermos como o arquipélago tem de ser considerado o Portugal paradigmático, a pátria construída em laboratório, o lugar da identidade aberta, complexa e diversa, ponto de encontro entre a criatividade e a beleza, apesar de todas as dificuldades e resistências, que a insularidade sempre traz.

A VIDA DOS LIVROS
de 20 a 26 de Dezembro de 2010

Em “Um Mês de Sonho”, José Leite de Vasconcelos (1ª edição, 1926; 2ª edição, 1992) exprime com as palavras sensíveis de um erudito o que deve ser dito sobre os Açores, de modo a compreendermos como o arquipélago tem de ser considerado o Portugal paradigmático, a pátria construída em laboratório, o lugar da identidade aberta, complexa e diversa, ponto de encontro entre a criatividade e a beleza, apesar de todas as dificuldades e resistências, que a insularidade sempre traz.

PORTUGAL EM LABORATÓRIO
Os Açores são o Portugal paradigmático. E a consideração faz sentido, uma vez que se trata da criação de uma sociedade em laboratório, através de um povoamento a partir do século XV de ilhas desertas, há muito conhecidas, mas só tornadas habitáveis depois da possibilidade de haver navegações «de ir e voltar» no complicado Atlântico Norte, que apenas se tornou acessível com a introdução dessa pequena maravilha da técnica náutica que foi a caravela. E se falo de um «Portugal paradigmático», tenho de lembrar o cadinho de várias influências e de vários povoamentos, à semelhança da encruzilhada de povos da Finisterra peninsular. E ainda há, a unir Portugal e os Açores, a insularidade, bem sentida, por razões naturais, no arquipélago, mas, por razões de carácter, no continente (com fronteiras definidas por D. Dinis), onde a terra se acaba e o mar começa. Leite de Vasconcelos, ao falar do povo açoriano e sem querer resolver o problema de onde proveio a maior parte da população que foi de Portugal e de outras partes, fala, naturalmente, dos algarvios (como o faz, com ênfase, Arruda Furtado, no conhecido estudo de 1884), mas também refere os minhotos, os beirões, os alentejanos, além dos mouriscos de África. E, indo buscar razões filológicas, Vasconcelos refere o ü meridional, que se ouve tanto nos Açores como no território da Beira Baixa para sul. Mas há ainda os flamengos do Faial e da Terceira, além dos franceses (da Bretanha, por exemplo) e dos ingleses. E quando se lê as «Saudades da Terra» de Gaspar Frutuoso, lá estão as referências aos nobres e aos escravos – e sempre o encontro de gentes diversas, povoadores de ilhas diferentes, com lógicas comunitárias heterogéneas.

GENTES DE MÚLTIPLAS ORIGENS
E se os Açores se fizeram com a chegada de gentes de múltiplas origens, também os seus povos partiram para o Brasil e sobretudo para a América do Norte, referindo Leite de Vasconcelos o ideal do açoriano como sendo o de «formar lá fora um pecúlio e vir depois gozá-lo na sua ilha querida». Se é abusivo fazer generalizações, o certo é que é sempre Portugal que se projecta na bela construção açoriana, designadamente quando Soares de Albergaria fala de um povo engenhoso, sagaz e muito hospitaleiro. Não por acaso, José Xavier Mouzinho da Silveira, o braço direito do regente D. Pedro no governo da Ilha Terceira, quis ser sepultado, sem sucesso, na ilha do Corvo, por ter lá encontrado a gente mais grata do mundo. E se citámos José Leite de Vasconcelos foi por causa da visita que fez aos Açores em Maio de 1924, com um grupo de escritores, artistas e intelectuais (de Antero de Figueiredo a Luís de Magalhães, passando por Armindo Monteiro e Teixeira Lopes), a convite do «Correio dos Açores» de José Bruno Carreiro, numa peregrinação que deu origem à célebre conferência na Academia das Ciências de Maio de 1925 e às impressões de viagem, que estão publicadas num precioso volume significativamente intitulado «Mês de Sonho», cuja reedição me foi oferecida pelo meu amigo Mário Mesquita, numa inesquecível deambulação matutina por Ponta Delgada há uma vintena de anos.

UM MÊS DE SONHO
Sobre a impressão deixada pelas ilhas nesse grupo de eleição, basta ler a obra e o entusiástico título. Aí quase tudo se diz sobre o prazer sentido, em especial pelo académico, perante esses pedaços de paraíso. E o mais interessante é a consideração dos elos muito fortes com os Açores, capazes de contribuir decisivamente para a definição desse Portugal paradigmático de que falamos. Por exemplo, o elemento religioso impressionou o antropólogo: «o fervor (…) das gentes do Açores não é mais que a continuação dos velhos sentimentos dos seus avós continentais, alimentados e reforçados por condições de insularidade e por esforços do clero». Há aqui, de facto, uma continuidade e uma diferença, e esse Portugal ilhéu e açórico permite reconhecer a riqueza extraordinária do arquipélago de sonho, inserido no País que Orlando Ribeiro definiu como um continente em miniatura. Oiçamos ainda Leite de Vasconcelos: «quando os portugueses tomaram posse das novas terras, não só encontraram tudo deserto, senão também vazio de grande parte das espécies animais que ao presente lá vivem, e que com o tempo se introduziram, sabendo-se até de algumas da data da introdução. Mamíferos terrestre não se via um único, e Alves simplesmente as do ar. Não havia cão que ladrasse, nem galo que cantasse. Solidão pavorosa! O mar quebrava-se nos rochedos que bordam as ilhas, onde ia abrindo angras e aguçando pontas, que depois serviram de designação a heróicas ou lindas cidades. Bandos de milhafres revolteavam nos espaços. E como aos nossos antepassados se afigurou que eram açores chamaram-lhes erroneamente assim, e daí veio ao Arquipélago o nome que nós pronunciamos com tanto afecto e orgulho”. Hoje, sabemos que não é exactamente assim. É verdade que os milhafres não são açores e que a confusão existiu. Mas continuo convencido de que foram os navegadores italianos que, ao avistar ao longe os contornos azuis das ilhas encantadas, as baptizaram, como se houvesse um estranho encanto, como «azzurri», azuis (como a «suadra azzurra»), dando lugar à bela designação, que conhecemos.

ILHAS ACOLHEDORAS
As ilhas são acolhedoras, mesmo com a humidade que permite que tudo seja tão verdejante. Os povos, as casas e os campos unem-se para nos dar as boas-vindas. Em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, no Campo de S. Francisco, sentimos a presença do poeta por excelência, Antero de Quental, entre a força suprema do seu talento e a sua proximidade do seu afecto. Em Angra do Heroísmo, ou na Praia da Vitória, sentimos a resistência liberal ou a memória longínqua de D. António, Prior do Crato – mas podemos ouvir ainda Vitorino Nemésio, romancista e poeta de primeira água, a apresentar-nos os Açores populares e eruditos, simbolizados na personalidade fascinante de Margarida Dulmo. E em cada império recordamos a espiritualidade e os folguedos de Pentecostes, a um tempo profanos e religiosos, com a coroação de quem não tem poder e com o alimento comunitário da sopa do Espírito Santo, da alcatra ou da massa sovada… Tudo como reminiscência do monge calabrês Joaquim de Flora, que falava de uma Idade futura de paz e abundância, de leite e de mel, que remetia para o Quinto Império do livro de Daniel, tão caro ao nosso Padre Vieira. E a verdade é que no Pentecostes há uma memória culta e popular, por entre uma natureza pródiga de pujança e de mistério. E vem à retina a imagem esplêndida das Sete Cidades, lugar mágico invocado por Jaime Cortesão no inesquecível «Romance das Ilhas Encantadas». E temos de nos lembrar do enigma da Atlântida e dos seus mitos, até à Macaronésia, que nos transporta à cultura cabo-verdiana e à escrita de Manuel Lopes, homem da «Claridade», amigo de Baltazar Lopes, referência comum a Cabo Verde e Açores. Encruzilhada açoriana, Portugal paradigmático. Muito Bom Natal!

Guilherme d'Oliveira Martins

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