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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

“O Mundo sem Regras” (Difel, 2009) de Amin Maalouf é uma obra que resulta de uma longa e cuidada reflexão do escritor de origem libanesa que esteve entre nós há pouco para apresentar o seu livro e o seu pensamento. O tema das identidades há muito preocupa Maalouf, tendo escrito “Identidades Assassinas” (1998), que constituiu um alerta premonitório, a que infelizmente muita gente não deu ouvidos. A indiferença, o isolamento, a auto-suficiência, os egoísmos nacionais e tribais, a ilusão uniformizadora, o vazio de valores – tudo isso faz parte do actual caldo de cultura, que caracteriza a sociedade contemporânea e que serviu de ponto de partida para a análise serena e lúcida, mas também algo desencantada deste autor.

A VIDA DOS LIVROS
De 3 a 9 de Agosto de 2009


O Mundo sem Regras” (Difel, 2009) de Amin Maalouf é uma obra que resulta de uma longa e cuidada reflexão do escritor de origem libanesa que esteve entre nós há pouco para apresentar o seu livro e o seu pensamento. O tema das identidades há muito preocupa Maalouf, tendo escrito “Identidades Assassinas” (1998), que constituiu um alerta premonitório, a que infelizmente muita gente não deu ouvidos. A indiferença, o isolamento, a auto-suficiência, os egoísmos nacionais e tribais, a ilusão uniformizadora, o vazio de valores – tudo isso faz parte do actual caldo de cultura, que caracteriza a sociedade contemporânea e que serviu de ponto de partida para a análise serena e lúcida, mas também algo desencantada deste autor.

QUE AUSÊNCIA DE REGRAS?
O mundo do século XXI apresenta sinais de desregramento. Mas de que desregramento nos fala Maalouf? De um desregramento intelectual, que corresponde ao excesso de afirmações identitárias, o que dificulta uma coexistência harmoniosa entre pessoas e comunidades. Por outro lado, o desregramento económico e financeiro leva o planeta até às perturbações e conflitos que actualmente se vivem e que terão consequências imprevisíveis. Mas ainda há o desregramento climático e ambiental, que decorre de uma irresponsabilidade generalizada. No entanto, a pergunta fundamental de Amin Maalouf é a de saber se a humanidade atingiu o limiar da incompetência moral. Como se chegou a esta situação e como poderemos sair dela? Não se trata, porém, de algo que se possa simplificar num diagnóstico ou numa análise mais ou menos catastrofista, o que importa é entender que não basta falar de choque civilizações ou de guerra. Assistimos a um certo esgotamento das civilizações – e Maalouf não ilude o tema e aponta o seu dedo acusador às civilizações ocidental e do mundo árabe. Se no ocidente temos a perda progressiva de fidelidade a valores fundacionais, no mundo árabe deparamo-nos com um impasse histórico. Há responsabilidades generalizadas e partilhadas – e nada pior do que tentar iludi-las, julgando que o mal está sempre na casa do vizinho. Esse raciocínio é erróneo e enganoso. O que importa é perceber que as diferenças culturais e sociais e o seu reconhecimento exigem sempre diálogo, troca, respeito e capacidade criadora. A análise de Maalouf é, sem dúvida, perturbadora, porque realista, mas apresenta pistas e saídas que merecem especial cuidado e atenção. Daí dar-nos sinais de esperança e de saída, depois de fazer uma crítica severa à sociedade e às mentalidades que permitiram chegarmos onde chegámos. Há motivos para preocupações e razões de alerta. “Somos todos uma nação e não podemos resolver problemas se não nos virmos assim: uma nação de muitas culturas. Quando começarmos a pensar dessa forma entramos no que chamo o verdadeiro princípio da história” (Público, 10.7.09).

QUE DIÁLOGO ENTRE CULTURAS?

Hans Küng há muito que vem dizendo que não há diálogo entre culturas se não houver capacidade para conhecer e para pôr em contacto as diferentes religiões. Maalouf, numa perspectiva complementar, diz-nos que «a influência dos povos sobre as religiões é maior do que a influência das religiões sobre os povos». Temos, por isso, de entender na sua complexidade os fenómenos sociais, assumindo que há uma dimensão universal da dignidade humana que deve ser mais forte do que todos os particularismos. E se temos de compreender que a sociedade humana deve encontrar o equilíbrio entre o universalismo e as diferenças, não podemos deixar de ouvir o nosso autor proclamar que “o Ocidente precisa de sair do excesso de confiança em si mesmo, enquanto o mundo árabe precisa de sair do poço histórico em que caiu”. Afinal, o desregramento tem a ver com as ilusões sobre as imagens que cada um faz de si mesmo, deixando na penumbra o lugar do outro, como a metade que nos falta e que nos completa. “As civilizações que mais proclamam a sua diferença em relação às outras são as que mais se sentem ameaçadas”. E é muito natural que assim seja, uma vez que o cosmopolitismo e o universalismo não podem afirmar-se se não houver uma permanente integração do que é próprio e irrepetível. Maalouf afirmou, por isso, que “o problema não está nos textos sagrados mas nas interpretações que a partir deles são feitas. Na Bíblia, como no Corão, por cada frase que apela à tolerância há uma outra que incita ao uso da espada”. São muitas vezes as interpretações literais e a falta de sentido crítico que levam ao absolutismo, que, por sua vez, no seu excesso, induz o relativismo. Amin Maalouf nasceu e vive entre dois mundos, entre duas civilizações. A sua obra parte dessa experiência. Como nos diz, “estou entre dois mundos que não se compreendem e nem sequer são capazes de se ouvir um ao outro. Criar pontes entre estes dois mundos é uma tarefa de Sísifo”. No entanto, essa tarefa constitui um desafio urgente e necessário, não para minimizar as diferenças culturais, mas para as integrar numa dimensão de respeito, de complementaridade e de criação de pontes duráveis, que temos de estar sempre disponíveis para recomeçar e para reconstruir. Daí que a memória deva ser compreendida como sinal de sabedoria, e não como factor de intolerância ou de vingança. Os preconceitos antigos e ancestrais devem dar lugar à hospitalidade e aos lugares de encontro. Poderemos esquecer o que Samuel Huntington lembrou – “o ocidente dominou o mundo não pelo conhecimento, mas pela superioridade militar?”. E se “é pela cultura, e sobretudo pela literatura, que os povos se revelam, com todos os seus medos e frustrações”, temos de entender que também na cultura poderemos encontrar caminhos de emancipação, de valorização da humanidade plural e de compreensão dos outros. Daí os sinais de esperança que Amin Maalouf apresenta. A crise pode levar-nos a procurar uma visão adulta das nossas crenças, das nossas diferenças e de um destino comum do planeta. Os desafios culturais, científicos, ambientais constituem oportunidades a que não poderemos deixar de responder.

UM MUNDO EM BUSCA DA DIGNIDADE HUMANA.
No fundo, percebemos, ao ler esta obra, que a globalização não pode ceder lugar à uniformização. O mundo está mais pequeno e mais próximo formalmente. A sociedade de informação permite-nos saber mais, mas falta a capacidade de tornar esse saber e essa informação factores de dignidade e de respeito. A indiferença relativamente às diferenças culturais mata a capacidade de compreender. A tentação harmonizadora e a cultura de massas fazem confundir cosmopolitismo e indiferença. No entanto, o cosmopolitismo obriga a partir da dimensão universal pelo ser irrepetível que é a pessoa humana. O diálogo entre culturas tem, por isso, de basear-se no entendimento do lugar do outro. Não se trata de falar de um diálogo formal e distante, mas de tornar a diversidade cultural um factor de enriquecimento mútuo. Longe de descaracterizar as identidades (ou de apenas considerar a capacidade de adaptação) do que se trata é de partir de identidades abertas e disponíveis para o reconhecimento da liberdade igual, da igualdade livre e da responsabilidade. Deve haver insistência no conhecimento e respeito de outras culturas e línguas. A dignidade cultural obriga ao reconhecimento. A diversidade cultural não pode levar, assim, à criação de um lugar onde ninguém se encontre, mas à procura de uma encruzilhada onde memórias e convicções se completem e respeitem. A tentação de iludir as diferenças leva ao empobrecimento pessoal e cívico. Uma sociedade amnésica tende a perder-se. A memória é o tecido vivo de uma sociedade livre e responsável, na qual a capacidade criadora se torna o factor distintivo da qualidade, da maturidade e da sabedoria. Para haver compreensão mútua tem de haver conhecimento e capacidade de todos nos colocarmos no lugar do outro, como cidadãos activos e responsáveis. Por isso, o vazio cultural e religioso (bem como o excesso identitário, porque os extremos se tocam) leva à incompreensão das raízes e da razão de ser das coisas. Compreensão, respeito, conhecimento, disponibilidade, compromisso e cuidado são, assim, atitudes exigidas para uma sociedade que faça da cultura (património, herança, memória e criação) um factor de emancipação e de desenvolvimento, de justiça e de coesão. Chegamos a um ponto – diz Maalouf - em que morremos juntos ou nos salvamos juntos. O século XXI será da cultura ou não será!

E oiça aqui as minhas sugestões na Renascença.

                                                            Guilherme d'Oliveira Martins