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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

“The Vertigo Years – Europe, 1900-1914” (Weidenfeld & Nicolson, 2007; Basic Books, 2008) de Philipp Blom é um retrato inteligente e muito vivo de um período inusitadamente rico da história europeia e do mundo, que muita gente confundiu com o anúncio de um período longo de progresso e de paz. Os sinais de avanço científico e tecnológico, o cosmopolitismo vivido nos grandes centros e pelas classes mais cultas e abastadas, tudo parecia apontar para algo de muito diferente do que veio a acontecer no mundo depois de 1914, com a eclosão de uma guerra que muitos julgaram evitável ou pelo menos muito rápida. Nada do que se pensava se verificou. A guerra tornou-se inexorável. Não funcionaram as ligações de sangue entre as famílias reinantes, nem o internacionalismo sonhado pelo movimento operário, que julgava não poder haver guerra contra a solidariedade proletária. O conflito não só foi muito longo, contra a ideia errada e ingénua de que algumas semanas o resolveriam, mas também lançou o mundo no conflito mais sangrento da história, que só se resolveria provisoriamente trinta anos depois.

A VIDA DOS LIVROS
De 23 a 29 de Março de 2009


“The Vertigo Years – Europe, 1900-1914” (Weidenfeld & Nicolson, 2007; Basic Books, 2008) de Philipp Blom é um retrato inteligente e muito vivo de um período inusitadamente rico da história europeia e do mundo, que muita gente confundiu com o anúncio de um período longo de progresso e de paz. Os sinais de avanço científico e tecnológico, o cosmopolitismo vivido nos grandes centros e pelas classes mais cultas e abastadas, tudo parecia apontar para algo de muito diferente do que veio a acontecer no mundo depois de 1914, com a eclosão de uma guerra que muitos julgaram evitável ou pelo menos muito rápida. Nada do que se pensava se verificou. A guerra tornou-se inexorável. Não funcionaram as ligações de sangue entre as famílias reinantes, nem o internacionalismo sonhado pelo movimento operário, que julgava não poder haver guerra contra a solidariedade proletária. O conflito não só foi muito longo, contra a ideia errada e ingénua de que algumas semanas o resolveriam, mas também lançou o mundo no conflito mais sangrento da história, que só se resolveria provisoriamente trinta anos depois.

ENTRE ILUSÃO E INSEGURANÇA - Philipp Blom (1970) é um jovem historiador nascido na Alemanha, doutorado em Oxford, que vive em Viena. Como jornalista reputado tem-se multiplicado (desde o Financial Times ao Times Literary Supplement, ao Guardian e ao Independent) na análise de temas tão diversos como a história do coleccionismo, a génese da “Enciclopédia” de Diderot, até à crónica sobre vinhos. Neste livro procurou, com resultados positivos, responder ao audacioso desafio de escrever sobre a evolução cultural de um tempo cheio e muito contraditório em quinze crónicas que acompanham a par e passo os primeiros anos do século. E o que temos? Uma demonstração elegante e erudita sobre a génese do século XX, que, na análise de Hobsbawm, só começaria de facto em 1914, depois de um longuíssimo século XIX, iniciado na Revolução francesa. No entanto, Blom não seguiu essa ideia. Para ele, o século XX evoluiu segundo a cronologia natural, sendo os primeiros quinze anos fundamentais para a sua caracterização. As máquinas, as mulheres, a velocidade e o sexo foram os agentes fundamentais que lançaram o novo século nesses primeiros anos vertiginosos. E um olhar atento, mesmo à distância, permite perceber que os medos, as inseguranças, as dúvidas, as tentações se foram acumulando até explodir como sinais de uma evolução trágica. O optimismo aparente coexistiu com a insegurança que gerou os proteccionismos e os nacionalismos. E é especialmente estimulante a análise a partir de Viena e do império bicéfalo da Áustria e da Hungria, e Stefan Zweig é recordado quando fala da fé e do optimismo sentidos no início do novo século. No entanto, “hoje… sabemos que esse mundo de certeza não era senão um castelo no ar, que então os meus pais habitavam, julgando-o construído sobre rocha”. Os novos ventos do pensamento, animados por Nietzsche ou por Freud, a emergência de Schiele e de Picasso, as novas tendências artísticas assumidas por Diaghilev e Stravinsky nos “Ballets Russes”, a importância do dramaturgo austríaco Hofmannstahl, o lugar assumido por mulheres como Sarah Bernhardt, Fanny von Reventlow, Rosa Mayreder ou Mary Gawthorp, mas também por Marie Curie, a mulher cientista, vencedora do Prémio Nobel por duas vezes – tudo isso vai lançar um tempo profundamente diferente do século XIX, como insiste Philipp Blom. Os acontecimentos contraditórios confluem no sentido da ocorrência de transformações muito profundas que caracterizam uma nova mentalidade.

QUINZE ANOS, QUINZE ACONTECIMENTOS – Philipp Blom procede a um acompanhamento exaustivo dos acontecimentos, cujo conhecimento é indispensável para melhor conhecermos a realidade do último século, com os seus claros e escuros. O autor procura, com exemplos concretos, demonstrar que as mudanças, que geraram uma nova realidade e novos perigos para o mundo, manifestaram-se de modo especialmente ilustrativo nos primeiros anos do novo século. Desde a afirmação das diferenças numa sociedade cada vez mais pluralista até aos anseios de perfeição e de pureza que levaram aos vários totalitarismos, sentimos que a sociedade vai gerando uma situação explosiva, de que poucos de aperceberam. Logo em 1900, Paris recebe, como uma extravagância, a Exposição Universal; em 1901 morre a Rainha Victória, símbolo do século terminado e de uma época irreversivelmente ultrapassada; em 1902, Sigmund Freud assume funções docentes na Universidade de Viena e a psicanálise entra na ribalta; em 1903, Marie Curie é galardoada com o Prémio Nobel da Física, pela descoberta do rádio; em 1904, Roger Casement entrega o seu relatório (duro e insofismável) sobre os abusos aberrantes cometidos contra os direitos humanos no Congo Belga; em 1905, uma manifestação pacífica para entregar uma petição ao czar Nicolau II é violentamente reprimida no Domingo Sangrento, pondo a nu a “questão russa”; em 1906, o navio britânico HMS Dreadnought entra no activo, com características revolucionárias, que abrirão caminho a uma escalada na procura de novos e cada vez mais sofisticados equipamentos bélicos; em 1907, delegados internacionais reúnem-se na Haia para adoptarem o regime de Direito Internacional sobre as leis da guerra; em 1908, tem lugar em Londres uma gigantesca manifestação de 500.000 pessoas, em Hyde Park, pelo sufrágio das mulheres; em 1909, Louis Blériot atravessa o Canal da Mancha em aeroplano, que revela a supremacia da máquina e leva a imprensa francesa a dizer que a Grã-Bretanha deixou de ser uma ilha; em 1910, o crítico de arte Roger Fry leva a Londres uma mostra de autores pós-impressionistas, como Van Gogh, Gauguin e Paul Cézanne, que a imprensa inglesa recebe com grande estupefacção e hostilidade; em 1911, abre o Palace Gaumont em Paris, a maior sala de cinema da altura, com uma capacidade para 3.400 espectadores; em 1912, organiza-se em Londres a primeira Conferência Internacional sobre eugenização, tendo como presidente o filho de Charles Darwin e como vice-presidentes de honra Winston Churchill e Alexander Graham Bell; em 1913, numa Escola da Suábia, no sul da Alemanha, Ernst August Wagner mata treze pessoas, incluindo a sua mulher e quatro filhos, e é considerado inimputável por sofrer de grave doença mental, abrindo um intenso debate sobre as doenças mentais e as suas consequências sociais; e em 1914, Jean Jaurès, político e governante francês, é assassinado, enquanto o Arquiduque Francisco Fernando também é morto em Sarajevo, fazendo eclodir a Grande Guerra…

ANOS DE FACTO VERTIGINOSOS - Ao seguirmos os diversos capítulos de “Vertigo Years”, descobrimos uma encruzilhada de acontecimentos, de influências, de personalidades, que nos vão afastando de qualquer chave ou de qualquer explicação unívoca para os acontecimentos históricos. Deparamo-nos com as sombras da guerra, mas também com a pressão contraditória proveniente das diversas influências, desde o caso Dreyfus (do antisemitismo à importância dos judeus) à crescente emancipação feminina, passando pela afirmação dos nacionalismos e dos proteccionismos, pelo surgimento de novas tendências na arte e na literatura, pela coexistência do positivismo com novas concepções baseadas na intuição e na emoção, pela tomada de consciência de uma sociedade que valorizava a velocidade, a máquina e o progresso, mas que também tomava consciência da importância das doenças mentais e da criminalidade (seguindo as concepções deterministas de Lombroso, que influenciaram decisivamente Conan Doyle e a sua personagem Sherlock Holmes). Dir-se-ia que as nuvens negras que se acastelavam no horizonte tinham a ver com a grande política internacional ou com a economia, mas também com a rápida evolução das mentalidades, que conduzia, a pouco e pouco, a sociedade para o desastre ou para a tragédia, determinados pela ilusão das explicações completas e das soluções totais. Se dúvidas houvesse basta ler o “Manifesto Futurista” de Marinetti (1909) e veja-se como a ânsia de modernidade está eivada de uma tentação violenta, belicista e purificadora, em contraponto à emergência de outras leituras modernistas ou de outras concepções de um sincretismo místico difuso de múltiplos efeitos…

E oiça aqui as minhas sugestões na Renascença.
                                                         Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 23 de março de 2009