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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

O "Diário" de Etty Hillesum (1914-1943) acaba de ser editado entre nós pela Assírio e Alvim (2008, tradução do holandês de Maria Leonor Raven-Gomes). Trata-se de um livro surpreendente, escrito por uma holandesa de origem judaica, que partilha connosco a sua experiência humana (desde os afectos até um intenso misticismo). João Bénard da Costa acaba, aliás, de dizer (e com inteira razão) que este é o livro mais importante saído em Portugal este ano. Inserido na nossa bem conhecida colecção Teofanias, coordenada por José Tolentino Mendonça, este testemunho revela-nos uma mulher emancipada e livre, de uma grande sensibilidade, como afirmou Primo Levi, que exprime com uma perturbadora lucidez os sentimentos de quem se vai aproximando, pelo gosto da vida, do limiar da morte num tempo em que a barbárie dos “campos de trabalho” e o genocídio se contrapunham à civilização. E é esse caminho trágico e extraordinário que o diário nos apresenta.

A VIDA DOS LIVROS
De 9 a 15 de Junho de 2008

O "Diário" de Etty Hillesum (1914-1943) acaba de ser editado entre nós pela Assírio e Alvim (2008, tradução do holandês de Maria Leonor Raven-Gomes). Trata-se de um livro surpreendente, escrito por uma holandesa de origem judaica, que partilha connosco a sua experiência humana (desde os afectos até um intenso misticismo). João Bénard da Costa acaba, aliás, de dizer (e com inteira razão) que este é o livro mais importante saído em Portugal este ano. Inserido na nossa bem conhecida colecção Teofanias, coordenada por José Tolentino Mendonça, este testemunho revela-nos uma mulher emancipada e livre, de uma grande sensibilidade, como afirmou Primo Levi, que exprime com uma perturbadora lucidez os sentimentos de quem se vai aproximando, pelo gosto da vida, do limiar da morte num tempo em que a barbárie dos “campos de trabalho” e o genocídio se contrapunham à civilização. E é esse caminho trágico e extraordinário que o diário nos apresenta.

UM PERCURSO APAIXONADO
«O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas nos meus pés gastos e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda consiga explicar a alguém, como é que as coisas são». Etty exprime-se deste modo e este é o tom geral do diário. Muito diferente de tudo aquilo a que estamos habituados nos testemunhos das vítimas da inominável “solução final”. Trata-se de um percurso de quem vive e quer viver intensamente a vida, compreendendo os limites. “Tenho de viver a minha vida tão bem e tão completa e convincentemente quanto possível até ao meu derradeiro suspiro, para o que vem a seguir a mim não precise de começar de novo nem tenha as mesmas dificuldades”. Trata-se de um exercício responsabilidade e de memória, no sentido mais fundo da palavra, como procura permanente do espírito, que apenas pode ser encontrável no conhecimento e na compreensão dos outros. E o certo é que o diário começou por ser um exercício terapêutico, de controlo do corpo e de entrega plena, em que a mística e a paixão se deviam encontrar sem sofismas nem ilusões. Etty é uma mulher de carne e osso, em ebulição, que ama nos vários sentidos, eros, agapé e filia. Mas esse diálogo não impede que haja uma serena maturação espiritual que, à medida que o tempo corre, vai-nos tocando intensamente. “Não existe um poeta dentro de mim, há sim um pedaço de Deus em mim que poderia desenvolver-se até se tornar poeta”. “Todas as paisagens estão dentro de mim. Há igualmente lugar para tudo. Em mim há a Terra e também o céu”.

UM ESTRANHO ENCONTRO
O diário, a partir de 9 de Março de 1941, corresponde, de facto, a uma proposta terapêutica do amigo Julius Spier, que Etty designa por S., um judeu de Frankfurt, discípulo de Carl Jung, que pratica a psicoquirologia. A personalidade de S. torna-se omnipresente, e abre a porta a uma nova vida para Etty. Como o filósofo ateniense, S. torna-se o obstetra da sua alma, ensinando muitas coisas, inclusive a pronunciar o nome de Deus naturalmente. A pouco e pouco, torna-se evidente um despertar espiritual. “Tenho a impressão de ser o ‘estado preparatório’ para um grande amor teu” – diz Spier em dado momento. Mas, além de S., há ainda Tide, a amiga Henny Tideman, que permite compreender a Etty a importância da oração, enquanto diálogo com Deus, usando palavras comuns. Em pano de fundo, há o avanço nazi na Holanda, a presença da barbárie, mas, em contraponto, sente-se a poesia de Rainer-Maria Rilke ou a densidade humana de Dostoiewski. Etty percebe, entretanto, no Conselho Judaico, onde exerce funções de dactilógrafa, que são os judeus pobres os que primeiro partem para os campos de extermínio. Então oferece-se como voluntária para o campo de Westerbork, e vive aí uma entrega completa aos outros, sem a qual a sua vida seria incompleta. “Apaixonei-me tanto por esse Westerbork e tenho saudades de lá. Estes meses entre o arame farpado foram os meses mais intensos e ricos” – afirma diante da esplanada do Rijksmuseum.

A FORÇA DO ESSENCIAL
Perante a insistência dos seus amigos marxistas e trotskistas para entrar na clandestinidade, prefere continuar presente junto de quem precisa: “Não sinto que esteja nas garras de ninguém, só sinto estar nos braços de Deus”. Mas mantém uma relação muito forte e especial com a literatura. Quando parte para o campo afirma: “Quero memorizar uma coisa para os meus momentos mais difíceis e também a quero ter sempre à mão: que Dostoiewski passou quatro anos em desterro na Sibéria tendo a Bíblia por única leitura”. Mas leva ainda Rilke: “Cartas a um Jovem Poeta” e “Livro de Horas”. “Na realidade é um livro extremamente interessante, a Bíblia, violento e terno, ingénuo e sábio. Não só interessante pelo que lá vem dito, mas também para conhecer aqueles que o dizem”. De modo impressionante, sentimos que a poesia não se perde, antes se evidencia, criadora e animosa, no meio da violência e da provação. E Etty aparece como a eleita de Deus, sempre disponível para compreender o desafio do sofrimento e da tragédia, em nome da esperança que vai redobrando em importância e eficácia. E assim vemos no diário a alternância entre a busca de um amor carnal, e a projecção espiritual dessa procura, fielmente à ideia de ressurreição. “Gostaria muito de viver como os lírios do campo”. “Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares”. “Se por causa do nosso ódio, nos transformamos em cães selvagens como eles, então já não faz diferença nenhuma”. “Prefiro ficar sozinha e estar disponível para todos”. “Faz então com que eu possa ser o coração pensante da barraca”. Afirmações como estas vão-se desdobrando ao longo de intensas reflexões, numa constante luta, que se manifesta em alegria e disponibilidade.
 
ESCUTAR INTERIORMENTE
“Já morri mil mortes em mil campos de concentração (diz-nos Etty), sei de tudo e também não fico apoquentada com novas notícias. (…) E todavia, acho esta vida bela e cheia de sentido. De minuto a minuto”. Com esta extraordinária capacidade de compreensão, a autora do diário interroga a vida e o tempo, a memória e o entendimento, Deus e as pessoas. “Gosto imenso das pessoas porque em cada uma amo um pedaço de ti, meu Deus”. Só alguém que pensasse assim poderia viver serenamente uma sucessão terrível de loucuras, perseguições, cobardia, vaidade, indiferença, violências gratuitas. No final de 1942, tudo se precipita. Ocorre a doença e a morte súbita de S.. O despertar para a espiritualidade desta jovem de vinte e oito anos reforça-se, sentimo-lo fortemente à medida que o momento anunciado da tragédia, para o qual Etty se prepara, se aproxima. “Às vezes, num momento inesperado, alguém se ajoelha subitamente num cantinho do meu ser”. Sentimos, assim, o corolário lógico de tudo o que tínhamos lido até aqui. E, inesperadamente, tudo parece fazer muito mais sentido, mesmo aquilo que nos suscita perplexidade, desde a dimensão carnal dos afectos às dúvidas e hesitações. “Temos de rezar com todo o coração para que venha uma coisa melhor, enquanto temos mente para desejar uma coisa melhor”. Eis como a esperança e a oração se relacionam intimamente, sem esquecer a razão e as suas capacidades.

UM COMBOIO PARA AUSCHWITZ
A 30 de Novembro de 1943 tudo se consumaria. Etty encontrou a morte no campo de Auschwitz, para onde fora com os pais e o irmão Mischa, pianista talentoso, atormentado por uma esquizofrenia. No seu saco estava a Bíblia, a gramática de russo, Tolstoi e os diários. Pela janela do comboio, quando partiam da Holanda, em Setembro desse ano de 43, Etty ainda lançou um bilhete, que seria encontrado mais tarde, uma última e misteriosa mensagem: “Saímos do campo a cantar”…   


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Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 09 de junho de 2008