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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

Um livro por Semana - Semana de 20 a 26 de Agosto de 2007

“A Rota das Especiarias” de John Keay (Casa das Letras, 2007) fala-nos de um velho enigma a que os povos do Ocidente procuraram dar resposta pelo menos nos dois últimos milénios: o do comércio com o Oriente das espécies necessárias à conservação dos alimentos e ao seu condimento.

UM LIVRO POR SEMANA
de 20 a 26 de Agosto de 2007

“A Rota das Especiarias” de John Keay (Casa das Letras, 2007) fala-nos de um velho enigma a que os povos do Ocidente procuraram dar resposta pelo menos nos dois últimos milénios: o do comércio com o Oriente das espécies necessárias à conservação dos alimentos e ao seu condimento. “Num mundo sem congeladores ou latas hermeticamente seladas”, a única forma de “afastar a fome no Inverno” seria o recurso às especiarias – pimenta, canela, nós-moscada e cravinho. No entanto, hoje, os químicos e os especialistas em alimentos afirmam que os poderes conservantes das especiarias são limitados. Os meios mais eficazes de conservação são o sal, a secagem, o fumeiro ou a imersão em líquidos (salmouras, óleos, vinagres…). Esse não era, porém, o entendimento ancestral.

O recurso às especiarias foi muito importante ora pelas qualidades efectivas de condimento alimentar ora pelas supostas características, que permitiriam manter os alimentos durante os Invernos. Os antigos egípcios desenvolveram o comércio marítimo para obterem o incenso da Arábia, os navegadores greco-romanos chegaram à Índia para terem acesso à pimenta e ao gengibre. Ao império romano sucedeu Bizâncio, os persas e os árabes tomaram o lugar dos greco-romanos e dos etíopes, o golfo Pérsico foi dando lugar ao mar Vermelho como passagem fundamental do comércio. Entre o Índico e o Mediterrâneo estabeleceu-se, assim, uma relação de complementaridade que o tempo tornou cada vez mais importante. A Índia era uma referência ambígua, abrangendo a costa ocidental, razoavelmente conhecida, e o sudeste asiático, da Birmânia ao Vietname. A literatura persa fala da cânfora da Sumatra, mas também dos cocos, das bananas e da cana-de-açúcar de Java e do sândalo, do nardo indiano e do cravinho de Timor e das ilhas próximas.

Ibn Khurdadhibih, chefe dos correios persa, fez uma lista para os mercadores orientais do século IX: “Quanto ao que o mar oriental oferece para exportação, da China vem seda branca, seda colorida, seda de damasco, almíscar, madeira de aloés, sedas, zibelina, porcelana, silbanj, canela e galanga… da Índia (ou seja, das Índias) vários tipos de madeira de aloés, sândalo, cânfora e óleo de cânfora, nós-moscada, cravinho, cardamomo, pimenta de cauda, tecidos vegetais, algodões finos e elefantes”. Independentemente das motivações efectivas, a verdade é que há um movimento comercial muito antigo que visava encontrar esses produtos exóticos com qualidades desconhecidas ou míticas que tinham valor económico efectivo. A história desta epopeia revela-nos um tempo em que a procura do diferente, de novas plantas, de novos usos, que vão mobilizar governos, comerciantes, cientistas, médicos, farmacêuticos, cozinheiros. O poder e a influência aferiam-se pela disponibilidade de produtos não encontráveis na Europa. O Mediterrâneo separava a Cristandade e o Islão. O contacto directo entre as duas civilizações apenas se fazia nas extremidades – na Península Ibérica, na Anatólia e no Levante. Mas o engenho dos mercadores permitiu o desenvolvimento do comércio oriental.

O século XI registou, assim, intensos fluxos para Itália, Espanha e norte da Europa. E as cruzadas tiveram como efeito a proliferação de diários de viagens ocidentais na Ásia, no fim do século XIII e início do XIV. Cercada no Levante, a Cristandade precisava de aliados para atacar os muçulmanos pela retaguarda. O Livro de Marco Pólo vai ser um instrumento importante. Aí se fala do Preste João, um presbítero-rei, de contornos indefinidos e de localização vaga, que vai ser procurado pelos portugueses. Marco Pólo, Ibn Batuta e outros deram, ora a partir da rota terrestre da seda ora pelas rotas marítimas, informações preciosas. O Ocidente e o Oriente atraíram-se mutuamente e, apesar dos bloqueamentos e das incompreensões, houve movimentos duráveis de aproximação. Até a longínqua China, sob o impulso de Cheng-ho, empreendeu uma maravilhosa empresa para Ocidente, que entusiasmou poetas, mas foi interrompida, em nome de um tradicional isolamento – “vimos longínquas regiões bárbaras escondidas pela transparência azul dos vapores da luz, enquanto as nossas altivas velas continuavam o seu curso como estrelas, dia e noite, enfunadas como nuvens, atravessando as ondas selvagens como se fossem grandes estradas”.

Os portugueses, a partir do século XV, conduzidos pelo Infante D. Henrique, desempenharam o papel simétrico no Ocidente, e chegaram ao objectivo. A vinda do veneziano Cadamosto é simbolicamente apontada na obra como um momento decisivo, mas o fundamental já estava preparado (a organização, as caravelas, a vontade). A novidade é que o veneziano é mais loquaz do que os portugueses, por contraste com o secretismo que os anfitriões praticavam para negar informações aos rivais. O papado concedeu privilégios e aceitou a escravatura. Mas, como disse João de Barros, “os seres humanos foram trazidos para aqui (Lisboa) mais pela salvação que pela escravidão”. A África teria uma passagem para o Índico? Ptolomeu dizia o contrário. Mas a procura de uma ligação mobilizou a empresa portuguesa. Inesperadamente, descobre-se um sucedâneo da pimenta, na costa de África, a malagueta. A par e passo, é descrita a morosa criação da alternativa às rotas tradicionais. Que procura Vasco da Gama? Cristãos e especiarias. Assim, se inicia a globalização.

É certo que Veneza não se viu ameaçada imediatamente, mas a abertura dos mercados mudou tudo e abriu caminho a novos produtos. É também verdade que as especiarias perderam a antiga importância (a começar na pimenta), mas apareceram novos produtos (ou novos usos) que mudaram os hábitos dos europeus (além das especiarias) – o chá, o café, o chocolate, o açúcar, a batata, o tabaco. A tradicional rota das especiarias deu lugar a múltiplos caminhos, a diversos mercados, a novas necessidades. Foi através dela, afinal, que se abriram novos horizontes, como esta história fascinante nos revela...   

 

Guilherme d'Oliveira Martins