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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

A revista “Egoísta”, a cuja qualidade já estamos habituados, acaba de publicar um número especial dedicado a Agustina Bessa-Luís (Fevereiro de 2007). E inicia-se enigmaticamente com uma frase de “Ronda da Noite” – “Até ao fim somos amantes uns dos outros”. Como afirma Inês Pedrosa: “Agustina parece sempre ter sabido viver dentro e fora do tempo, numa espécie de observatório clínico da alma humana, captando-lhe o imortal enigma sob as mortais vestes dos dias”. De facto, a cada passo, na sua obra, rica de inesperados e fecundos exemplos de uma insistente procura de compreensão do género humano, a escritora foi-se afirmando como singular cultora de uma narrativa onde a vida e as circunstâncias em que se desenrola se entrelaçam entre o determinismo e a vontade, entre a incerteza e a condenação.

UM LIVRO POR SEMANA
De 9 a 15 de Abril de 2007.


A revista “Egoísta”, a cuja qualidade já estamos habituados, acaba de publicar um número especial dedicado a Agustina Bessa-Luís (Fevereiro de 2007). E inicia-se enigmaticamente com uma frase de “Ronda da Noite” – “Até ao fim somos amantes uns dos outros”. Como afirma Inês Pedrosa: “Agustina parece sempre ter sabido viver dentro e fora do tempo, numa espécie de observatório clínico da alma humana, captando-lhe o imortal enigma sob as mortais vestes dos dias”. De facto, a cada passo, na sua obra, rica de inesperados e fecundos exemplos de uma insistente procura de compreensão do género humano, a escritora foi-se afirmando como singular cultora de uma narrativa onde a vida e as circunstâncias em que se desenrola se entrelaçam entre o determinismo e a vontade, entre a incerteza e a condenação. Trata-se de jogar sempre e com mestria com uma “iluminada roleta dos comportamentos humanos”, no dizer ainda de Inês Pedrosa, que recorda a figura “extraordinária” de Maria Pascoal de “Um Cão que Sonha”, a qual “nasceu adulta, e é capaz de atravessar num só dia mais de cem anos, reencontrando o movimento presente dos acontecimentos passados”. Mas se Maria Pascoal nasceu adulta, a verdade é que morreu criança. E em Agustina há sempre essa tensão do tempo que age permanentemente, tantas vezes perversamente, sobre as personagens que nos escondem alguma coisa de essencial, e nos surpreendem por isso. Diz: “A minha preocupação máxima é saber o que é o tempo. Essa avaliação do tempo, no fim de contas, é o grande problema… Mas quanto à morte, a curiosidade sobrepõe-se ao medo e aceitei isso completamente”. Logo em “A Sibila” (1954) nota-se, com muita nitidez, que nada é linear ou simples, há sempre uma teia complexa e uma leitura tortuosa dos acontecimentos. “Pensamento indeterminado”, chama-lhe Silvina Rodrigues Lopes; “tapeçaria, mas de um género especial, aberta”, segundo Eduardo Lourenço – o que vemos na obra, que conta com a matéria-prima da incerteza, é o peso irredutível da individualidade contra as imposições preconceituosas e cegas da ordem social. “Aquilo que mais admiro no judeu baseia-se exactamente nisso, a incerteza apaixonada (…) A incerteza nunca se consuma, porque é equilibrada pela certeza que há na paixão”. Julgadora implacável, Agustina não esconde a sua paixão pelo exercício do poder, e por isso se fez incansável e prolífica romancista, criadora de novos enredos e de novas personagens, pelo desejo insaciável de ser “deus ex machina”. E não disse sobre os portugueses, em “Prazer e Glória”, que somos “povo inseguro nas paixões e por elas desgovernado”, com “o palpite da mediocridade para se defender dos extremos” e com a tendência de nos julgarmos vítimas do destino, como forma de não nos rendermos à infelicidade? “Personagem extraordinária”, no dizer de Eduardo Prado Coelho, “é uma extraordinária escritora”, cujas personagens são movidas quase sempre pelo desejo do poder ou da sexualidade, sem se deixar prender pelo amor, no obsidiante perseguir da compaixão… “O amor tem sempre algo de indelicado, mas conserva a nobreza de se deixar impressionar pela espontaneidade” (“O Concerto dos Flamengos”). Poderia aplicar-se, como sustenta de modo pertinente Fernando Pinto do Amaral, a Agustina o que ela diz das cartas de Fanny Owen: “Era como um jogo perfeito, sonoro, insensato e invulnerável, essa escrita produzida como por um anjo cego, cujos valores não fossem equiparados aos humanos”. Sempre o jogo, o efeito, a intenção de surpreender. Muito se tem dito sobre a sua obra, sobre a sua força e as suas fragilidades – o texto de Frederico Lourenço é ilustrativo sobre o que pode ser a superficialidade e a ignorância – mas o certo é que, uma vez mergulhados nesse fluxo intenso de personagens e circunstâncias, entendemos que estamos diante de uma autora a valer a pena ser lida e compreendida para tentar ir além da superfície das coisas. Afinal, ninguém tem o direito de a tratar como se a conhecesse – lembra-o Almeida Faria, citando Robert Walser. E fica-nos apenas aquela imagem fugidia de Germa, embalando-se na velha rocking-chair, pensando e pressentindo, “sabendo-se actual relicário desse terrível, extenuante legado de aspiração humana”…
                                                             Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 09 de abril de 2007