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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

Flannery O’Connor (1925-1964) é uma das grandes escritoras norte-americanas do século XX, infelizmente pouco conhecida em Portugal. Dela acaba de ser publicado “Um Bom Homem é Difícil de Encontrar” – “A Good Man is Hard to Find” (tradução de Clara Pinto Correia, editora Cavalo de Ferro), anunciando-se as outras obras que a celebrizaram e que ainda hoje constituem um deleite para os seus leitores.

UM LIVRO POR SEMANA
De 18 a 24 de Setembro de 2006

Flannery O’Connor (1925-1964) é uma das grandes escritoras norte-americanas do século XX, infelizmente pouco conhecida em Portugal. Dela acaba de ser publicado “Um Bom Homem é Difícil de Encontrar” – “A Good Man is Hard to Find” (tradução de Clara Pinto Correia, editora Cavalo de Ferro), anunciando-se as outras obras que a celebrizaram e que ainda hoje constituem um deleite para os seus leitores. Com uma vida muito fugaz, vivida no sul de Poe e de Faulkner, deixou dois volumes que reúnem trinta e dois contos – o que agora se refere e “Everything that rises must converge” – bem como dois romances, “Wise blood” e “Violent bear it away”, além de cartas, críticas e comentários… “A mim interessam-me as linhas que criam movimento espiritual” – disse um dia… E na esteira de Conrad procurou “render justiça, no mais alto grau, ao universo visível”. Sentimos, assim, a cada passo, na sua escrita uma tensão muito especial entre a vida e o que está para além dela, entre a placidez do quotidiano e a violência ou o grotesco do inesperado, como no conto que dá o título ao livro. Uma avó tagarela acaba vitimando-se e vitimando a família por falar demais, levando todos a cair nas mãos do bandido mais procurado – “teria sido uma boa mulher, se tivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da vida dela”… Como disse José Tolentino de Mendonça num magnífico ensaio sobre a autora: “ela apanha o timbre e os clichés de todo o género para, irremediavelmente, soterrar o leitor debaixo do riso e do terror” (Público, 8.9). Longe do cepticismo e do cinismo, Flannery O’Connor segue o método da narrativa tradicional, dos velhos contos, e vai ao encontro da vida, jogando com os paradoxos e as contradições, com a desmesura e com o fantástico, para melhor deixar demonstrada a importância da vida comum. E nesta sentimos a vertigem de quem está à beira do precipício, às vezes sem dar por isso. As trevas como que reclamam a luz. “O dever do escritor é contemplar a experiência”. E deve ter a consciência de que “a narrativa é a mais impura, a mais modesta e a mais humana das artes”. O sobrenatural e o natural entrecruzam-se e a Graça manifesta-se onde menos se espera – e, subitamente, encontramos os indeléveis traços de Léon Bloy, de Bernanos, de Graham Greene, de Evelyn Waugh. “A Graça (…) pode usar, e efectivamente usa, como seu meio, aquilo que é imperfeito, aquilo que é puramente humano, e até o falso”. E tudo se passa com a naturalidade mais desarmante, como no caso do pavão que estava a seguir Mrs. Shortley “pela estrada acima”, caminhando em fila indiana, parecendo “uma procissão completa” ou no dos “pingos de chuva fantásticos”, que esbarravam “como tampas de lata de sopa”, contra a “traseira do automóvel de Mr. Shiflet”… E assim até podemos perceber que a “vida que salvar pode ser a sua”. Inesperado? Inimitável? Sim! No fundo os ingredientes de uma escritora moderna!

Guilherme d'Oliveira Martins