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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

“A Torre da Barbela” de Ruben A. (1º edição, 1964; Assírio e Alvim, 1995) é uma obra-prima barroca desconcertante, no melhor sentido etimológico das palavras. O uso do verbo e do enredo é muito exigente e só um historiógrafo experimentado poderia ter lidado, como lidou, com o anacronismo com tanta inteligência e sem despropósito.

UM LIVRO POR SEMANA
De 27 de Março a 2 de Abril de 2006

“A Torre da Barbela” de Ruben A. (1º edição, 1964; Assírio e Alvim, 1995) é uma obra-prima barroca desconcertante, no melhor sentido etimológico das palavras. O uso do verbo e do enredo é muito exigente e só um historiógrafo experimentado poderia ter lidado, como lidou, com o anacronismo com tanta inteligência e sem despropósito. Tudo começou na Casa de Esteiró (Caminha), em casa de Maria do Patrocínio e José Manuel Villas-Boas, quando estes “contaram a história virtuosa de duas irmãs, da casa de Sestêlo, que, cansadas de uma longa vida de oração e prática de virtudes, resolveram pecar”. Pouco antes da morte, “confessaram ao Abade de Moutosa que não queriam entrar no Purgatório de almas lavadas”. Por que motivo? “Se assim o fizessem, seria grave ofensa às almas que lá estavam penando”. Pecar seria, afinal, um último acto de virtude – “só assim continuava no outro mundo o seu exemplo de modéstia e humildade”. Ruben A. pegou no tema, desenvolveu-o imaginosamente e criou uma trama fantasmagórica, onde a História pátria surge recontada num exercício onírico, a partir de conversas, comentários, encontros e desencontros de pessoas do reino dos mortos. “Ao fim da tarde, antes do crepúsculo cantar as suas loas e sem se descortinar a realidade, apoderava-se da Barbela um sentido incógnito da existência”. A torre medieval era um antro de acontecimentos fantásticos. “Existissem ou não estrelas, fosse breu ou luar a jorros pelos campos marginais, o mundo abria-se dividindo o tempo”. Numa palavra, “os Barbelas realizavam-se vindos do sonho e da fantasia para os reais domínios da Torre”. E esse ressuscitar transfigurava a torre. “A procissão saía a pé ante pé dos túmulos de pedra, dos sarcófagos egípcios - trazidos por Dom Payo da Barbela, quando das suas incursões por terras do Prestes João – e também da vala comum”… Ah! Havia um “caseiro papagueando frases”, sobre esses distantes Barbelas, desde Dom Raymundo (que se crê tenha sido “o primeiro grande home da família da Torre”), coevo de Dom Afonso Henriques, seu primo colateral. São 350 páginas de imaginação delirante e de um humor muito fino, capazes de nos explicar limitações ancestrais. Cavaleiros verdadeiros e falsos, honra e prosápia, beatos e hereges, força e decadência, deparamo-nos com de tudo um pouco, até àquele limiar da aurora em que todo esse mundo tinha de regressar ao encanto da imobilidade. O Cavaleiro, Madeleine, Dom Raymundo, Frey Cyro, Dona Mafaldinha, Urraca, Dr. Mirinho… “Os Barbelas, ao aproximar do dia, a vidência da luz, apareciam também humanos na sua imortalidade noctívaga, no reino absoluto impenetrável das suas relações, eles tinha de voltar à morte”. E quem tenha querido passar o umbral proibido que separa a noite do dia, obteve a pena capital do esquecimento. “Desapareceram. A história do seu anonimato está por contar”. Quantos rumores nossos na história dessa Torre…

Guilherme d'Oliveira Martins