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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

João Guimarães Rosa (1908-1967) é uma das grandes referências da língua portuguesa. Lembremos a sua obra-prima: “Grande Sertão: Veredas” (37ª edição, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1988). Aparentemente, estamos perante a linguagem rural dos sertanejos, que o autor maneja com mestria perturbadora. No entanto, como diz António Cândido: “tudo se transformou em significado universal graças à invenção, que subtrai o livro da matriz regional”.

UM LIVRO POR SEMANA
De 16 a 22 de Janeiro de 2006

João Guimarães Rosa (1908-1967) é uma das grandes referências da língua portuguesa. Lembremos a sua obra-prima: “Grande Sertão: Veredas” (37ª edição, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1988). Aparentemente, estamos perante a linguagem rural dos sertanejos, que o autor maneja com mestria perturbadora. No entanto, como diz António Cândido: “tudo se transformou em significado universal graças à invenção, que subtrai o livro da matriz regional”. Ali estão “os grandes lugares-comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte, para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório e, na verdade, o Sertão é o mundo”. O livro é difícil. Riobaldo começa a contar, de modo caótico, a sua experiência pessoal. Trata de tudo, dos mistérios do mundo e da vida. “O diabo na rua, no meio do redemoinho”. E contar é “dificultoso”, pela “astúcia” de certas coisas passadas, que fazem “balancé” e se remexem dos lugares. “Vivendo se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas”. Riobaldo encontra Reinaldo, que o fascina. E depois da morte da mãe Brigi, vai para a fazenda do padrinho Selorico Mendes e conhece o mítico chefe Joca Ramiro. É professor do fazendeiro Zé Bebelo, mas isso serve para entrar no cangaço, como jagunço do bando deste, no sul da Bahia e em Goiás. Acaba, porém, por fugir e reencontra Reinaldo, “companheiro” de Joca Ramiro, “transferindo-se” de bando. Reinaldo revela-lhe em segredo que se chama Diadorim e abre-se o combate com o antigo bando, de Zé Bebelo, e contra as tropas governamentais. A pontaria de Riobaldo (chamado o Tatarana) torna-se celebrada e permite ao grupo de Joca levar de vencida Zé Bebelo. Este é julgado e condenado ao exílio em Goiás. Mas Joca Ramiro é assassinado à traição (pelos “judas”, Hermógenes e Ricardão) e Riobaldo e Reinaldo continuam no cangaço com Titão Passos. Riobaldo tem um caso com Nhorinhá, mas enamora-se de Otacília, de quem Diadoirim se enciúma. Por entre lutas e contra-lutas, Zé Bebelo regressa do exílio e toma a chefia do bando na perseguição dos “judas”. Os bebelos chegam a “Veredas-mortas” e Riobaldo faz um pacto com o diabo, para vencer os “judas”, e torna-se chefe do bando como Urutu-branco. “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demónio não precisa de existir para haver”. O combate e a perseguição não têm tréguas nem quartel. Nos sertões de Minas, vindos da Bahia, os jagunços perseguem os hermógenes. Traições, lutas sangrentas, e Diadorim enfrenta Hermógenes. Mas  ambos morrem. E descobre-se que Diadorim é Maria Diadorina da Fé Bittancourt Marins, filha do próprio Joca Ramiro. Riobaldo fica gravemente doente, mas consegue sobreviver e acaba a vida a gozar da herança do padrinho a lembrar o pacto com o diabo, mas a concluir que o que verdadeiramente “existe é o homem humano”… Porque afinal “sertão é dentro da gente”. 

Guilherme d'Oliveira Martins