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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

Quando há dias escolhi o “Codex 632” de José Rodrigues dos Santos (Gradiva, 2005) como destaque da semana cultural na Rádio Renascença (6ªs feiras, às 23 horas) houve quem se surpreendesse. Afinal, não tinha sido eu crítico severo do “Código Da Vinci”? Acontece que destaquei o livro português exactamente pelas razões opostas àquelas por que considerei o livro de Dan Brown uma fraude.

UM LIVRO POR SEMANA
De 14 a 20 de Novembro de 2005

Quando há dias escolhi o “Codex 632” de José Rodrigues dos Santos (Gradiva, 2005) como destaque da semana cultural na Rádio Renascença (6ªs feiras, às 23 horas) houve quem se surpreendesse. Afinal, não tinha sido eu crítico severo do “Código Da Vinci”? Acontece que destaquei o livro português exactamente pelas razões opostas àquelas por que considerei o livro de Dan Brown uma fraude. E as razões foram três: o autor do “Codex 632” assume, desde o início, que se move num universo romanesco, não fazendo de conta que se trata de um exercício de historiografia; as semelhanças com a realidade são pura coincidência, ao contrário do que pretende Brown; e os documentos referidos existem e é sobre eles que o romancista especula, sem nos enganar. O enredo é escorreito e interessa o leitor. E que nos dizem as personagens do romance? Que o Cristóvão Colombo que chegou à América não foi o genovês de origem modesta, originalmente tecelão da seda, de quem se tem falado. Como poderia, aliás, com essas origens casar com a nobre portuguesa Dona Filipa de Moniz Perestrelo? O tecelão genovês Cristóforo Colombo e o Almirante dos Mares Cristóbal Colón foram, assim, duas pessoas bem diferentes. E o investigador e detective do romance, Tomás de Noronha, vai procurar com documentos existentes (e com a ajuda do autor) traçar um novo nexo de causalidade especulativo, mas verosímil. O autor não procura, porém, induzir o leitor em erro. O que faz é especular, aliás com agilidade. Há, portanto, pistas para os investigadores seguirem, mas o autor opta pela ficção para poder usar a imaginação, sem cometer anacronismos ou mistificações. No entanto, a propósito da versão conhecida como “Codex 632” da Crónica de D. João II, de Rui de Pina, que existe na Biblioteca Nacional, o escritor vai forçar as provas para mais facilmente concluir de acordo com a sua convicção. E qual é ela? Que o Almirante Cristóvão Colom ou Colón (que nunca assinou Colombo), o genro de Bartolomeu Perestrelo, seria um judeu de nacionalidade portuguesa que teria estado envolvido na conspiração da alta nobreza contra o Príncipe Perfeito, em conluio com os Reis Católicos, que levaria às condenações dos Duques de Bragança e de Viseu. Depois, dado o seu envolvimento lateral na conspiração e a sua posição acima de suspeita, teria sido incumbido de se pôr ao serviço dos Reis Católicos como “agente secreto” do Rei de Portugal, com uma missão que permitiria a D. João II consolidar a concretização do plano da Índia. Como fica claro na economia interna do romance, aqui é a ficção que manda, juntando ingredientes conhecidos e raciocínios imaginosos. Este o pano de fundo da narrativa, que acompanha a vida e o drama de um historiador obstinado. No mundo dos factos e da historiografia, o mistério sobre as origens do descobridor da América continua e continuará. O “Codex 632” é motivo de sã inquietação.     

Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 14 de novembro de 2005