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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

Helena Vaz da Silva

Helena Vaz da Silva, por Guilherme d’Oliveira Martins

Um dia Helena Vaz da Silva disse que os seus escritos eram como “pequenas pedras que vou semeando”. Assim foi fazendo ao longo de uma vida velozmente vivida. Acreditava na força das palavras e das ideias. E sabia os riscos que corria quando abria um grande debate. Mas estava sempre disposta a correr esses riscos, por entre propostas arrojadas e uma inesgotável capacidade de espanto e para assumir perplexidades. Foi sempre semeando as pequenas pedras. “Pedras como a do Polegarzinho – do conto da nossa infância – que se deitam para ajudar a reconhecer o caminho; pedras como a que se lança quando se começa a fazer uma casa; pedras brancas e de cor para dar brilho ao nosso dia a dia ou para lhe acentuar os contornos” (Incitações para o Novo Milénio). E o que preocupava essencialmente Helena? Era o facto de hoje se viver “e portas e coração trancado, assestado para o êxito, a imagem, o agradável, o curto prazo”. Para ela importaria, ao invés, perscrutar os “espaços outros”, os “sinais” e os “profetas de hoje” e criar uma “corrente de resistência” – única forma de resistir à “desintegração, que flui por debaixo do ruidoso tumulto da vulgaridade”. Se lermos o que escreveu, se nos debruçarmos sobre a sua ação, como jornalista, como animadora cultural, como escritora, depressa descobrimos que há uma constante indelével, a da procura de sinais dos tempos, de alternativas e de novas tendências, abrindo novos espaços de criatividade, mas também de descoberta das virtualidades do encontro entre a memória, o património e a inovação. Helena Maria da Costa de Sousa de Macedo Gentil Vaz da Silva nasceu em Lisboa a 3 de julho de 1939, filha de D. Isabel Maria da Costa de Sousa de Macedo (Vila Franca) e do Dr. Francisco de Mascarenhas Gentil. Seu Pai, brilhante advogado, morreria precocemente quando Helena tinha apenas 9 anos, mas marcá-la-ia profundamente, como homem culto e sensível. Aprendeu a ler com a mãe nas letras de forma dos jornais, frequentou o Colégio de St. Augustin, de freiras belgas, bem como as escolas das irmãs Escravas e Oblatas, sempre com excecional aproveitamento. Quando terminou o ensino secundário lecionou Francês e Religião no Colégio das Oblatas, tendo frequentado ainda o Instituto de Serviço Social. Com 17 anos começou a sua vida profissional na agência de publicidade de Martins da Hora, na mesma secretária em que trabalhou Fernando Pessoa. Em 1959, casa com Alberto Vaz da Silva e insere-se no influente circulo cultural, em que se integram António Alçada Batista, Nuno Bragança, João Bénard da Costa, Pedro Tamen, José Escada, Luís Sousa Costa, Nuno Cardoso Peres e Cristovam Pavia. Sobre esse grupo disse Helena: “Para lá do trabalho em comum que tínhamos (no projecto editorial da Livraria Moraes), chegámos a planear constituir uma comunidade segundo um projecto só nosso, a que chamámos O Pacto”. Esse projeto não se concretizou, mas realizou-se um outro, o da criação de uma revista “de pensamento e acção”, que nasceu em 1963 e que se chamou “O Tempo e o Modo” – iniciativa marcante, pela abertura de novos horizontes políticos, culturais, literários e artísticos. A revista congregaria personalidades de diversas sensibilidades, empenhadas na renovação da vida portuguesa no sentido da democracia: Mário Soares, Salgado Zenha, Jorge Sampaio, Sottomayor Cardia, Vasco Pulido Valente, Manuel de Lucena, Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, Agustina Bessa-Luís, Ruy Belo, M.S. Lourenço, Eduardo Lourenço, António Ramos Rosa, José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira… Em 1965, Helena Vaz da Silva assume a responsabilidade da edição portuguesa da revista “Concilium”, empenhada na difusão do espírito do Concílio Vaticano II.


Em 1968, parte para Paris, para estudar Jornalismo e Sociologia, na Universidade de Vincennes e frequentar o Seminário de Lacan – e assiste aos acontecimentos de maio. “Foi muito bom que eu tivesse ido, quando vim trazia outra visão, outra calma”. No regresso, organiza dois números temáticos de “O Tempo e o Modo”, com grande sucesso – “Deus, O Que É?” e “O Casamento”. Depois de ter responsabilidades na empresa turística da Quinta da Balaia (Algarve), ingressa no quadro do “Expresso”, onde se impõe pelo caráter inovador e aberto dos temas que propõe e das pessoas que entrevista. É o tempo da jornalista motivada pelos ventos de liberdade e pela necessidade de abrir novas alternativas. Dirige os programas políticos e sociais da RTP, colabora como “free lancer” nos principais órgãos de informação, entra em 1977 na ANOP (Agência Noticiosa Portuguesa), para chefiar a área da cultura. Em 1978, assume a direção e a propriedade da revista “Raiz e Utopia”, fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Batista, e imprime uma orientação inconformista virada para os grandes debates europeus do momento, bem simbolizada na secção “Abriu em Portugal”. Em 1979, assume a Presidência do Centro Nacional de Cultura (CNC), iniciando e desenvolvendo uma ação incansável em prol da divulgação, do estudo e da preservação da língua e da cultura portuguesas, lançando os “passeios de Domingo”, debates, colóquios, cursos livres, a base de dados Patrimatic, diversas publicações e o ciclo “Os Portugueses ao Encontro da Sua História”. Como disse Maria Calado: “ao lançar os passeios de Domingo introduziu-se em Portugal a prática dos itinerários culturais como forma de conhecimento e valorização do património histórico e da criação artística e cultural contemporânea”. Mas Helena não para. Em 1980 é Vice-Presidente do Instituto Português de Cinema e conhece Marguerite Yourcenar, de quem se torna amiga e tradutora das suas obras. Edgar Morin e Yehudi Menuhin, Yourcenar são, aliás, referências fundamentais do círculo de afetos e de referência intelectuais e éticas de Helena Vaz da Silva. Em 1987, integra o Conselho Consultivo da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e de 1989 a 1994 é Presidente da Comissão Nacional da UNESCO, mandato que coincide com o de Federico Mayor como diretor geral da organização, o que permitiu a Portugal exercer um papel decisivo no Ano Internacional dos Oceanos, na Expo 98 e realizar em Lisboa a Reunião Inter-Regional sob o tema “A UNESCO para o Século XXI”.
 
Em 1992, é membro do Conselho de Orientação para os Itinerários Culturais do Conselho da Europa e em 1994 foi eleita deputada ao Parlamento Europeu pelo PSD, exercendo um mandato muito marcante: “consegui pôr Portugal na agenda dos agentes culturais europeus e pôr a cultura na agenda da Europa”. Em 1996 integrou a Comissão para o Futuro da Televisão em Portugal e em 2002 toma posse como Presidente do Grupo de Trabalho sobre o Serviço Público de Televisão. Desde 2000 era académica da Academia Nacional de Belas Artes. A 12 de agosto de 2002 morre em Lisboa quando muito se esperava da sua inteligência, do seu entusiasmo e da sua força criadora. Compreendeu bem o seu tempo e procurou descobrir novas tendências e sinais capazes de ligar tradição e modernidade, liberdade e sentidos de pertença – eis a sua marca inesquecível. Foi autora de várias obras, entre as quais: Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar, 1979; Portugal, o Último Descobrimento, 1987; Qual Europa?, I, 1996; Qual Europa?, II, 1997; Qual Europa?, III, 1999; Incitações para o Milénio, 2001. Foi agraciada com a Ordem de Mérito de França (1982) e com a Ordem do Infante D. Henrique, Grande Oficial (2000).