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Jesué Pinharanda Gomes (1939-2019)

Em homenagem ao pensador Jesué Pinharanda Gomes, publicamos o texto de Guilherme d’Oliveira Martins saído a lume há dias em “As Artes entre as Letras”, que o próprio ainda teve oportunidade de ler. O Centro Nacional de Cultura envia sentidas condolências à família.

A OMNIPRESENÇA DAS IDEIAS… 
Por Guilherme d’Oliveira Martins

Natural do concelho de Sabugal, Jesué Pinharanda Gomes (1939) iniciou o ofício da escrita na imprensa regional, no semanário “Correio da Beira” (1959), de que foi redator, tendo depois multiplicado o tratamento de temas culturais em revistas como “Colóquio”, “Gil Vicente”, “Ocidente” e “Revista de Portugal”. Segundo continua a afirmar é um autodidata por opção, e autor de diversos textos sobre Filosofia, História, Teologia, Pensamento Português e Hebraico e Etnografia. Foi cofundador do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e é Sócio correspondente da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, bem como da Academia Portuguesa de História. Com uma grande curiosidade e uma especial atenção à História das ideias é autor de “Introdução à História da Filosofia Portuguesa” (1967), de uma série de sete volumes intitulados “Pensamento Português” (1969-1993), “A Teodiceia Portuguesa Contemporânea” (1974), “A Filosofia Tomista em Portugal” (1978), “História da Filosofia Portuguesa” (1981, 1983 e 1991) – onde salienta a contribuição hebraica e árabe para a constituição de uma tradição especulativa própria _, “Os Conimbricenses” (1992 e 2005), os estudos dedicados à “Escola Portuense” (2005), além da colaboração em diversos volumes da “História do Pensamento Filosófico Português” (1999-2004), coordenada por Pedro Calafate. A obra de Pinharanda Gomes tem-se caracterizado pela procura da especificidade do pensamento português, designadamente considerando o encontro de influências culturais mediterrânicas e europeias. São de salientar os estudos e edições de Raul Leal, Ferreira Deusdado, José de Arriaga, Prudência Garcia, Silvestre Pinheiro Ferreira e Leonardo Coimbra. Realizou ainda uma reflexão própria, na qual avultam: “Exercício da Morte” (1964), “Peregrinação do Absoluto” (1965), “Teoria do pão e da palavra” (1973), “Pensamento e Movimento” (1974) ou “Saudade ou do mesmo e do outro” (1976).

Pinharanda Gomes apela, no fundo, ao conhecimento dos clássicos, levando-nos a recordar o que Italo Calvino (1923-1985) nos ensinou em “Porquê Ler os Clássicos” (Milão, 1991; Teorema, 1994), obra imprescindível para quem queira entender a importância de frequentar os clássicos. Longe de procurar dar os clássicos em doses homeopáticas ou resumidas, incentiva os seus leitores a lerem as grandes obras. É como se entrássemos num salão da Arcádia, onde decorre um serão de celebridades e o autor funcionasse como um anfitrião, educado e culto, disponível para nos apresentar aos seus convivas. E quem são eles? Nem mais nem menos que Homero, Xenofonte, Ovídio, Plínio (o antigo, naturalmente), Ariosto, Galileu Galilei, Cyrano de Bergerac, Daniel Defoe, Voltaire, Diderot, Stendhal, Balzac, Dickens, Flaubert, Tolstoi, Mark Twain… Um pouco atordoados percebemos que tudo se passa como se Virgílio nos conduzisse e como se nós fossemos Dante. Mas ainda não refeitos das impressões da primeira sala, eis que a apresentação continua estonteante… Henry James, R.L. Stevenson, Conrad, Pasternak, Gada, Montale, Hemingway, Ponge, Borges revelam-se-nos pelo espírito e pelo talento. Mas Calvino, ao apresentar-nos essas fulgurantes sombras vivas, põe-nos alerta contra a tentação de os vermos superficialmente. Na idade madura, a leitura dos clássicos permite-nos apreender melhor a sabedoria. Os clássicos são aqueles que exercem especial influência. E se muitas vezes se diz que “relemos” os clássicos, a expressão é pretensiosa e falsa. Afinal, devemos sempre “ler” como se fosse a primeira vez. Quantas vezes não é mesmo a primeira vez?… Paradoxo? “De um clássico toda a releitura é uma leitura de descoberta igual à primeira”. “De um clássico toda a primeira leitura é na realidade uma releitura”. Porque um clássico “nunca acabou de dizer o que tem a dizer”. Como esquecer a marca das “odisseias” na nossa cultura? Como não testar com Kafka se o adjetivo kafkiano faz sentido? Walter Benjamin aspirava a reconstruir uma obra, citando clássicos. Mallarmé procurava a ideia do livro total e, no fundo, o clássico “é o que não pode ser-nos indiferente e que nos serve para nos definirmos a nós mesmos em relação e se calhar até em contraste com ele”. E assim a atualidade torna-se ruído de fundo, mas o “clássico” deixa de poder viver sem esse ruído, pois é ele que o mantém vivo e legível, para além das contingências. E ser clássico é ter força suficiente para vencer as barreiras do tempo e para se tornar ruído de fundo da atualidade. E perguntaram a Calvino sobre o porquê de ler os clássicos. E ele respondeu com clareza mas de modo desconcertante – “ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos”. E então citou Cioran: “Enquanto lhe preparavam a cicuta, Sócrates pôs-se a aprender uma ária na flauta. Para que te servirá? perguntaram-lhe. Para saber esta ária antes de morrer”.       

Nesta associação de ideias, encontramos em Pinharanda Gomes um entendimento amplo e original dos clássicos, apresentando-nos exemplos de figuras portuguesas que se tornaram referências além-fonteiras, apesar de quase ignoradas entre nós. Saliente-se o importante estudo sobre a vida e obra de Frei João de S. Tomás, O.P. (1589-1644), sobre quem afirma: “Os princípios da razão especulativa segundo Jacques Maritain explicam-se (…) pelo socorro teorético e demonstrativo ao comentário de João de S. Tomás, sobretudo na teoria do conhecimento, em que a doutrina tomista permanece como se nova fosse, e no plano da mítica contemplativa em que a interpretação de João de S. Tomás sem nada alterar à lição de S. Tomás de Aquino, abre espaços nela potentes, mas não atualizados, clamando por atualização”. De facto, estamos perante um teólogo português, filho de mãe portuguesa e pai flamengo, pouco conhecido entre nós, mas justamente considerado como um dos grandes discípulos setecentistas do Aquinense, reconhecido na sua grande importância pelos mais importantes tomistas do século XX – justamente conhecido como o “Doutor Profundo”. Como Pinharanda Gomes afirma: “A sua influência relevante na renovação do Tomismo veio atá aos nossos dias e tem sido consagrada pelas mais prestigiosas figuras dessa corrente do pensamento. O teologismo e o humanismo conjugam-se na obra do mestre lisbonense com atualidade perene justificando a sua irradiação no Neo-Tomismo contemporâneo”.

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