Crónicas de Viagem - COCHINCHINA

Cochinchina – Crónica II

A herança portuguesa no Vietname e no Camboja leva-nos aos locais de memória dos portugueses por terras da Cochinchina.

26 de agosto a 9 de setembro 2017 
Guia: Alexandra Pelúcia
No âmbito do Ciclo de Viagens “Os Portugueses ao encontro da sua História”

29 e 30 de agosto – Subindo o Mekong (I)

A segunda e a terceira jornadas desta viagem do CNC por terras da Cochinchina foram vividas navegando nas calmas águas do rio Mekong, entre Ben Tre e Chau Doc, no sul do Vietname, primeiro, e, depois, entre Chau Doc e Phnom Penh, atravessando a fronteira com o Camboja, em Vinh Xuong.

Recordemos Luís de Camões, em ‘Os Lusíadas’ (estrofe 127, Canto X):

´Vês, passa por Camboja Mecom,
Que capitão das águas se interpreta;
Tantas recebe d’outro só no Estio,
Que alaga os campos largos e inquieta;
Tem as enchentes quais o Nilo frio …’.

Navegar no Mekong é uma forma de  reconstituir memórias da passagem por estas terras remotas e então assaz misteriosas quer de figuras marcantes da literatura portuguesa como Camões e Fernão Mendes Pinto, quer de missionários, mercadores, aventureiros e renegados portugueses: de Camões, que ali terá naufragado e salvado ‘in extremis´ o manuscrito do seu poema épico maior; de Fernão Mendes Pinto, protótipo de quem se aventurou para regiões onde não se exercia a autoridade do reino, como fez notar a Professora Alexandra Pelúcia. Daí a inexistência de fortalezas ou feitorias como as que conhecemos no antigo Estado da Índia, em Malaca ou em Macau. Daí a ausência, na Cochinchina, de vestígios materiais ou físicos da presença portuguesa.

Mas o mesmo não se deve dizer do património cultural imaterial, da presença humana, da cultura. Fernão Mendes Pinto deixou-nos, na Peregrinação, relatos preciosos sobre o delta do Mekong, para onde viajou em 1554: sobre o litoral, as dificuldades de navegação, as monções, as paisagens, as produções agrícolas, as trocas; e também informação de cariz antropológico sobre as crenças dos naturais, os seus costumes e rituais, a organização política. Numa carta, o mesmo Fernão Mendes Pinto referiu-se a uma pequena comunidade de portugueses que, nos finais de quinhentos, teriam chegado ao Camboja pelo rio Mekong a partir de Malaca a pedido do rei Satha do Camboja. Dessa comunidade fez parte Diogo Veloso, que chegou a organizar a guarda pretoriana daquele rei, auxiliando-o na guerra contra o Sião. Tais foram os serviços prestados e a relação de confiança que se gerou que Diogo Veloso foi mesmo reconhecido como ‘filho adotivo’ do dito rei!

Foi por essa altura que as ruínas de Angkor, capital do reino dos Khmers, abandonada cerca de cem anos antes, foi descoberta pela primeira vez, um facto histórico ainda não suficientemente divulgado. O português Fr. António da Madalena terá sido o primeiro ocidental a visitar as ruínas daquela extraordinária cidade. Mas a influência portuguesa permaneceu, por certo limitada na sua amplitude, mas não menos impressiva. Vários luso-descendentes desempenhariam funções oficiais relevantes no Camboja ao longo dos tempos. Ainda nos anos 60 do século XX, era luso-descendente um embaixador do Camboja em Moscovo.

(continua…)

30 de agosto de 2017 ® Maria Eduarda Gonçalves

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