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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

JOÃO BIGOTTE CHORÃO (1933-2019)

Com o desaparecimento de João Bigotte Chorão deixa-nos uma personalidade fascinante na vida cultural e literária portuguesa. 

Quem teve a felicidade de o conhecer sabe bem as suas extraordinárias qualidades. Com uma grande generosidade e uma capacidade única de compreender o essencial de uma obra literária ou de um pensamento, o ensaísta era de uma extraordinária perspicácia crítica e de uma verve muito rica, na linha de seus mestres Camilo, Araújo Correia ou Tomás de Figueiredo. Conhecemo-lo ao longo de várias décadas, sempre com a mesma coerência, sempre com o mesmo denodo no perscrutar do fundo dos estilos ou das personalidades, dos autores e dos protagonistas ou até dos meros figurantes. Quantas vezes, com o seu feitio muito próprio e o seu falar beirão, nos puxava de lado, para nos segredar um pormenor picaresco ou revelar um breve segredo literário. Além do mais era um cultor perfeito da língua. No Círculo Eça de Queiroz falámos longamente, envolvendo outros amigos, com Fernando Guedes ou Fernando Garcia – e pudemos preparar e concretizar iniciativas de animação do Chiado, de que tanto gostava, com o Centro Nacional de Cultura. E para aqueles que se dividiam artificialmente entre as tribos de camilianistas e queirosianos – deixava-os sempre desarmados, uma vez que os dois autores do Olimpo da nossa literatura não podem excluir-se na rica expressão dos seus livros. São diferentes, inesgotáveis e indispensáveis de conhecer. A modéstia de Bigotte Chorão não lhe permitia, porém, cometer a imprudência de se reconhecer como imbatível, mas posso asseverar que era verdadeiramente imbatível no conhecimento rigoroso da nossa melhor literatura dos séculos XIX e primeira metade de XX. O certo é que as subtilezas, os detalhes eram-lhe familiares e nos casos de Camilo e Eça sabia, como ninguém, distinguir a sua própria riqueza e versatilidade. De facto, ambos fizeram da sua obra uma personalidade própria, uma escola inimitável, indefinível nos cânones tradicionais – e João Bigotte Chorão detetava-o com os melhores provadores de vinho fino, caracterizando as castas, a densidade, o sabor, o aroma, mas sobretudo a intensidade e a subtileza do verbo.   

João Bigotte Chorão nasceu na Guarda em outubro de 1933 e faleceu em Lisboa, aos 85 anos de idade. Notabilizou-se como professor, crítico, diarista e ensaísta, sendo um dos grandes especialistas na obra de Camilo Castelo Branco. Foi diretor literário da Editorial Verbo, com Fernando Guedes, onde teve a seu cargo o departamento de Enciclopédias e Dicionários, onde coordenou a publicação da Enciclopédia Verbo – Edição Século XXI (29 volumes, 1998-2003) e a Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia . Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, Bigotte Chorão ocupou-se sobretudo do estudo de autores do século XIX e XX. Além de Camilo, foi uma profundo conhecedor das obras de Almeida Garrett, Eça de Queirós, Carlos Malheiro Dias, Tomaz de Figueiredo e João de Araújo Correia. Assim, é o autor de O Essencial Sobre Camilo e O Essencial Sobre Thomaz de Figueiredo, obras que publicou na Imprensa Nacional, respetivamente em 1996 e 2000. Ainda no âmbito do ensaio, introduziu várias obras da Imprensa Nacional, devendo mencionar-se os prefácios de Contos e Novelas, de João de Araújo Correia, Nó Cego (nas «Obras Completas de Tomaz de Figueiredo») e Contos e Novelas, de Domingos Monteiro. Bigotte Chorão, começou, aliás por publicar os seus escritos em obras coletivas, jornais e revistas, entre as quais a Tempo Presente, a Colóquio/Letras e a Távola Redonda. Do que publicou em livro destaque-se Vintila Horia ou Um Camponês do Danúbio, de 1978, O Escritor na Cidade, de 1986, João Araújo Correia, Um Clássico Contemporâneo, de 1986, Camilo, Esboço de Um Retratado, 1989, Páginas Camilianas e Outros Temas Oitocentistas, de 1990, e O Espírito da Letra, de 2005. De formação humanista cristã, e sempre cultivando o gosto pelas culturas italiana e francesa, o escritor deu particular atenção ao memorialismo, à epistolografia e ao diarismo — género do qual foi mestre. Discípulo Noturno, de 1965, e Aventura Interior, de 1969 provam-no. «Escrevo e escreverei nem que seja para preservar a memória dos meus dias e vencer o vazio pela disciplina mental da escrita», disse. Já em 2001 publicou Diário Quase Completo, na Imprensa Nacional — obra com a qual viria a receber o Grande Prémio da Literatura Biográfica da APE. A Imprensa Nacional publicaria aquela que seria a sua derradeira obra: Diário 2000-2015, em fevereiro de 2018. Em Diário 2000-2015, na escrita intimista com que sempre nos habituou, João Bigotte Chorão leva-nos, no intervalo destas datas em cerca de trezentas páginas, à descoberta do seu universo cultural e a tudo aquilo que o entusiasmava e comovia, deixando para a posteridade um precioso espólio de memórias que por sua própria vontade resistem e vão continuar a resistir ao esquecimento. João Bigotte Chorão era membro da Academia das Ciências de Lisboa e do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, tendo sido Presidente do Círculo Eça de Queiroz. Era membro do conselho editorial da Imprensa Nacional e também do júri do Prémio IN/Vasco Graça Moura.

O Centro Nacional de Cultura apresenta sentidos pêsames a sua família – em especial ao nosso amigo Pedro Mexia.

Edição: 26 de fevereiro de 2019