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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 14 a 20 de janeiro de 2019.

«Correspondência 1949-1978 – Jorge de Sena – Eugénio de Andrade», com organização de Mécia de Sena e Apresentação de Isabel de Sena (Guerra e Paz, 2016) reúne um rico manancial de elementos epistolares extremamente esclarecedores sobre as duas personagens fundamentais da cultura portuguesa do final do século XX. No ano do centenário de Jorge de Sena e num momento em que a criação poética de Eugénio de Andrade merece ser visitada e refletida, trata-se de uma obra necessária.

COMPREENDER O MUNDO

Ouvimos Eugénio de Andrade (1923-2005) no poema de “O Sal da Língua” e compreendemos a força da sua sensibilidade: «No fim do verão as crianças voltam, / correm no molhe, correm no vento. / Tive medo que não voltassem. / Porque as crianças às vezes não / regressam. Não se sabe porquê / mas também elas / morrem. / Elas, frutos solares: / laranjas romãs / dióspiros. Sumarentas / no outono. A que vive dentro de mim / também voltou; continua a correr / nos meus dias. Sinto os seus olhos / rirem; seus olhos / pequenos brilhar como pregos / cromados. Sinto os seus dedos /cantar com a chuva. /A criança voltou. Corre no vento». Estreando-se em 1939 com o livro “Narciso”, ainda sob o seu verdadeiro nome, José Fontinhas, o poeta vai-se tornando conhecido, designadamente quando em 1942 dá à estampa a obra “Adolescente” Entretanto, é incentivado por António Botto, com quem entra em contacto, e que reconhece a qualidade indiscutível do novel poeta. Mas é com a publicação de “As Mãos e os Frutos” que há o reconhecimento público, através da receção favorável da melhor crítica, representada por Jorge de Sena e Vitorino Nemésio. E José Saramago resume com felicidade o carácter lírico dessa poesia, que se singulariza por uma permanente referência ao corpo, a que o poeta e os seus leitores chegam através de uma depuração contínua.

UMA OBRA FECUNDA

Nascido no Fundão, reside em Lisboa desde os 10 anos de idade e daqui vai para Coimbra com vinte anos (onde encontra Miguel Torga e Eduardo Lourenço) e depois para o Porto (em 1950), onde trabalhará durante quarenta anos – e publica com regularidade: “Os Amantes sem dinheiro” (1950); “As Palavras interditas” (1951); “Ostinato rigore” (1964); “Véspera da água” (1973); “Escrita da terra e outros epitáfios” (1974); “Limiar dos pássaros” (1976); “Memória doutro rio” (1978); “Matéria Solar” (1980); “Rente ao Dizer” (1992); “Ofício de Paciência” (1994); “O Sal da Língua” (1995); “Os Lugares do Lume” (1998) ou “Os Sulcos da Sede” (em 2003 Prémio de Poesia do Pen Clube). São exemplos de uma maturidade que foi sendo adquirida no permanente exercício da escrita poética, como se do produto de uma oficina de artesão se tratasse… Na prosa, publica: “Os Afluentes do Silêncio” (1968); “Rosto precário” (1979) ou “À sombra da memória” (1993), além de obras infantis como “A história da Égua Branca” (1977) e “Aquela Nuvem e as Outras” (1986). Traduziu Federico Garcia Lorca, António Bueno Vallejo, René Char ou Jorge Luís Borges… Em 2001, ser-lhe–ia atribuído o Prémio Camões. Estamos diante de uma obra segura e consistente, que se afirma como maior na poesia portuguesa do século XX. Acaba ainda de sair, com organização de António Oliveira, a “Correspondência de Eugénio de Andrade a Dario Gonçalves”, onde sentimos a força da amizade. E vem à memória Montaigne: “l’essentiel est dit: deux êtres singuliers se rencontrent et comprennent en un éclair, que leur vie ne sera plus jamais comme avant ». E Eugénio fala dos Amigos com especial deleite: «Os amigos amei /despido de ternura/ fatigada;/uns iam, outros vinham, /a nenhum perguntava /porque partia, /porque ficava; /era pouco o que tinha, / pouco o que dava, / mas também só queria / partilhar / a sede de Alegria / - por mais amarga». E se falamos do célebre autor dos “Ensaios”, chegamos ao seu dileto amigo La Boétie, que não existiria na nossa memória sem o testemunho admirável de Montaigne: “parce que c’était lui, parce que c´était moi!” Como diz o organizador desta correspondência diversa e múltipla: «a partir de 1986, Dario Gonçalves foi, ao mesmo tempo, causa e consequência de muitos versos de Eugénio de Andrade. Passou a ser uma espécie de afinador de palavras e uma grande fonte de inspiração (para não dizer musa inspiradora). A dedicação do poeta para com o seu amigo é de tal forma sincera e pura que ele escreve o seguinte no bilhete datado de 9 de janeiro de 1991: “Eu bem faço o possível para dar algum sentido aos seus dias, mas em vão”».

SENTIMENTOS E SENSAÇÕES

Mas leia-se o postal de outubro de 1987 sobre uma viagem do Porto até Riba-Tua. Aí se nota a proximidade e a cumplicidade que lhe permitem uma partilha quase perfeita de sentimentos e de sensações. “Querido Amigo. Retomo a tradição dos postais em viagem. Saímos do Porto atrasados, comemos bogas fritas, já perto do Pinhão, e mal chegamos a casa, por volta das quatro, o Laureano acendeu o lume e aqui me tem à lareira a escrever-lhe. Só para lhe dizer que tem de ter cuidado consigo, que tem que alterar o seu ritmo de vida, essas correrias tiram-lhe anos de vida e eu quero que V. dure muitos anos, porque a sua amizade me é preciosa, além do livro sobre o Porto. V. tem tanta coisa ainda para fazer – as suas fotografias são cada vez mais bonitas, cada vez se parecem mais com um poema, eu quero que V. viva muitos anos”… Há, assim, um forte sentido do quotidiano. E é o uso magistral da palavra que faz irradiar a luz da lírica. “Poesia do ser e do amor, entre a carne e o espírito, lá onde as almas não existam para torturar-se e os corpos não saibam o que seja traírem-se” – é como Jorge de Sena identifica o que encontra na obra de Eugénio de Andrade. E em carta de junho de 1949 (leia-se a “Correspondência - 1949-1978 entre Jorge de Sena e Eugénio de Andrade”, publicada pela Guerra e Paz, 2016) Sena é muito claro a propósito de “As Mãos e os Frutos”: “Não sei se alguma vez lhe disse da estima que a sua poesia me merece, pela categoria autêntica, tão diferente do que a nossa desvairada geração tem produzido (…). O gosto de um equilibrado acabamento formal, sem uma falsa beleza retórica à Torga, na linha de cuja poesia originariamente V. se insere; a simplicidade, que não é banalidade; um discreto pudor, capaz de, com vigor, escrever ‘to a green god’; e o profundo lirismo…(…) Lembro-me que, em tempos, o acusaram de desumanidade. Não encontro, todavia, senão uma pagã humanidade; e mais vale uma humanidade assim, que só se importa com o que liricamente toca, do que fingir sentimentalidades oportunas”. É difícil dizer melhor. O tempo confirmou e afinou essas qualidades, e a coerência, relativamente à relação entre a poesia e a compreensão humana.

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

Edição: 14 de janeiro de 2019