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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 17 a 23 de dezembro de 2018.

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz (Companhia das Letras, 2018), que acaba de ser publicado, nasceu da viagem ao Vietname e ao Camboja, organizada pelo Centro Nacional de Cultura, em 2017.

GEOGRAFIAS DENTRO DE NÓS

O objetivo dessa viagem seria encontrar vestígios dos portugueses nesses lugares tão distantes – e, no dizer do autor, “porventura, encontrar essas mesmas geografias dentro de nós”… A novela agora vinda a lume tem ainda com outra origem o texto escrito por Afonso Cruz para o espetáculo “Pasta e Basta”, da autoria de Giacomo Scalisi com cocriação de Miguel Fragata e que mistura “teatro e culinária, fazendo das receitas uma metáfora da própria criação, enquanto encontro de ingredientes de várias proveniências”. A obra parte da ideia de um pai que escreve à filha que não conhece para contar-lhe a sua própria história, que é, afinal, de ambos. “Esta história, minha e de tua mãe, é também tua. (…) No lugar onde me encontro, a felicidade é um luxo, e talvez por isso, porque pela primeira vez me encontro numa situação verdadeiramente desesperada, tenha alcançado aquilo que o conforto ou a abundância ou a segurança nunca me deram, esse estranho júbilo que se deixa afetar pelo mundo, pelas suas circunstâncias e que, malgrado a dor que nos rodeia, mantém em nós um sorriso intocado, invulnerável, por debaixo das aparências mais desconcertantes ou sofridas”. Estamos, deste modo, perante uma entrega e uma troca de natureza emocional. E a viagem à Cochinchina visa “encontrar e perceber aquilo que está mais perto de nós, aquilo que nos habita”. Estamos perante uma busca que leva a ir “para lá do longe”, o que significa a procura de quem somos, “com as relações mais próximas, com os nossos erros, com as nossas paixões, com as nossas dores e, ao somar tudo isto, entre sofrimento e júbilo”. E assim talvez se possa ir ao encontro da felicidade. “Cochinchina era para o meu pai o lugar para lá do lugar. Uma pessoa podia pecar, mas a Cochinchina era o meta-pecado, a fera suprema, o ponto onde a razão enlouquece, estava para lá de Deus. Uma pessoa podia imaginar a extensão do mundo, mas a Cochinchina era um passo além da nossa imaginação. Como nunca tinha sentido uma paixão verdadeira, ainda não sabia que a mesma definição se poderia aplicar ao amor: fera suprema, enlouquecimento da razão, ponto para lá de Deus ou da imaginação”… E aqui nos encontramos perante um mistério que precisa de ser desvendado. Este pai encontrou o amor com a mãe desta filha que desconhece e está distante. “A tua mãe, por não falar corretamente, tinha a poesia do que erra, que, por vezes é a mais bela”.

UM SENTIDO RELATO DE AMOR

E toda a história é um sentido relato de amor. O apelo “Quando chegas?”, logo após o nascimento daquele pequeno ser que era sua filha – tem especial intensidade, como a tentativa de comunicar com a sua própria mãe no leito de morte para lhe dizer que teria de partir ao encontro do amor distante. “Mas fora ela quem partira”. Encontro e desencontros. Que é, afinal, a vida? O amor antigo esmorecera e um novo amor distante tornara-se vivo e bem presente. E o certo é que naquele momento era o amor de sua mãe que ele lembrava como definitivamente perdido, enquanto realidade próxima. E a morte sobrepôs-se à vida. Para complicar tudo, se a partida foi impedida pela morte da mãe, a verdade é que sua mulher anuncia-lhe que está também grávida. “Tinha-se instalado um grande dilema: magoar uma ou magoar outra, o que deveria escolher? E as nossas famílias? E tu? E a gravidez da minha mulher? E os meus princípios? Não havia maneira nenhuma da sair moralmente ileso daquela situação. E, mais uma vez, a conversa foi adiada, precisava de meditar sobre tudo o que me acontecia, interior e exteriormente”… A distância alargou-se. E os adiamentos sucederam-se. A criança que se anunciava não nasceu e a mulher ficou impossibilitada de ter filhos. A pouco e pouco, veio o efeito progressivo da idade. Subitamente chegou, inesperada, a viuvez, por um choque anafilático provocado pelas picadas de um enxame de abelhas… Mas “não me dera conta de que tudo desaparecera da minha vida, a minha mãe, a tua mãe, o meu pai, o meu melhor amigo, a minha mulher. Não me dera conta de que não fora somente o meu passado a desaparecer, tinha feito a mesma prestidigitação com o futuro: nessa atividade fastidiosa que é viver e a vida plena (e não plena), também tu tinhas desaparecido”… É o momento em que decide ir ao encontro da sua segunda família na Cochinchina. E lembra o princípio de “Anna Karenina” de Tolstoi que dá título à novela: “Todas as famílias felizes se parecem, todas as infelizes são infelizes à sua maneira”. Do mesmo modo que invoca a expressão de Aristóteles: “As pessoas são boas de uma maneira, e más de inúmeras”…

A TREMENDA MEMÓRIA

Uma busca no Vietname e no Camboja obriga a lidar com a tremenda memória da guerra. Em Ho Chi Minh procurou a morada de onde recebia a correspondência. Era um restaurante, e aí obteve a informação de que a amada teria partido para Phnom Pehn, capital do Camboja. E a procura prosseguiu, mas a história que encontrou no novo destino confirmou as piores suspeitas. Havia uma carta que não tinha sido enviada e o negrume da notícia da morte. O guia, perante a trágica desilusão, aconselhou-o a visitar Angkor Vat – “o maior templo jamais construído foi esquecido e rapidamente ficou coberto de vegetação (…). A sumptuosidade é já prolegómeno da ruína, mas é precisamente o esforço de edificar, conhecendo à partida o triste destino desse ato, que coroa a vida”. Mas acontecem milagres. Numa viagem de negócios no aeroporto de Hanói, ouviu o nome de sua filha. Talvez fosse coincidência, mas não era. No avião para Hue, conseguiu sentar-se a seu lado. “Conversámos mas não nos podíamos compreender, eu falava a minha língua, tu dizias alguma coisa na tua, não tínhamos um idioma comum para comunicarmos. (…) Evidentemente que não te disse que era teu pai, por vários motivos: não saberia como fazê-lo sem parecer louco, não teria forma de te explicar o que quer que fosse. Adiei, Fá-lo-ia na altura certa, agora que te tinha encontrado…”. Um pequeno saco de cannabis ditaria, porém, o destino final desta novela. “De todas as coisas que fiz, as duas mais importantes foram ter-te dado a vida e ter-te salvado a vida”… E vem a lembrança o dominicano Frei Gaspar da Cruz que acabou por converter uma única pessoa – que morreu antes do frade regressar… Mas, afinal, foi preciso viajar até aos antípodas para encontrar a verdadeira terra – a alegria e a plenitude do outro… 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
Edição: 17 de dezembro de 2018