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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A Vida dos Livros

Semanalmente, poderá encontrar a escolha de um livro por Guilherme d’Oliveira Martins. 
A VIDA DOS LIVROS
Termino hoje o relato da expedição à Europa Oriental e invoco um autor e uma obra que merecem recordação na Rússia contemporânea. De facto, “Cinco Meditações sobre a Existência” de Nicolau Berdiaeff (tradução de Ana Hatherly, Guimarães Editores, 1961), pela densidade criadora e pela força espiritual representa a vitalidade de uma cultura, que volta a merecer atenção, não já como fenómeno excepcional ou clandestino, mas como expressão de uma vitalidade que mergulha as suas raízes na cultura de Tolstoi e de Dostoievsky. Berdiaeff (1874-1948) foi, ao lado de Lev Chestov (1866-1938), um dos mais conhecidos filósofos russos do início do século passado, que influenciou decisivamente o pensamento existencialista. Foi ele quem falou de uma “ideia russa” de cultura: “A ideia mestra da minha vida é a ideia do homem, do seu rosto, da sua liberdade criadora e da sua predestinação criadora. Mas tratar do homem é já tratar de Deus. Isso é essencial para mim”. E daí a necessidade da ligação da espiritualidade à existência, porque “a Verdade implica a actividade do espírito do homem, o conhecimento da Verdade depende dos graus de comunidade que podem existir entre os homens, da sua comunhão no Espírito”.
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Miguel Veiga acaba de publicar “O Meu Único Infinito é a Curiosidade” (Portugália Editora, 2008) onde podemos encontrar um conjunto de textos escritos em diversas ocasiões e por múltiplas solicitações, que nos revelam a personalidade multifacetada do cidadão empenhado, que pratica activamente o gosto pela vida e que faz do cosmopolitismo e do amor da cultura uma característica fundamental da sua personalidade e do seu modo de estar. Baptista-Bastos diz dele: “homem de compromissos éticos e ideológicos, que detesta todo tipo de mortificações, sempre me pareceu um garimpeiro de felicidade”. Pelos temas e pelas memórias que ele invoca temos oportunidade de lembrar o século XX português, centrado na cidade do Porto, mas projectado para além dela, num registo inconformista, que nos permite compreender o “Porto Culto” que chegou aos nossos dias.
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A VIDA DOS LIVROS
Na recente viagem do CNC a Moscovo e a S. Petersburgo andámos sempre com o precioso livro de Rómulo de Carvalho “Relações entre Portugal e a Rússia no século XVIII” (Sá da Costa, 1979) nas mãos, fonte inesgotável de informações. É uma obra fundamental que permite compreender como foi possível à cultura portuguesa desse tempo a importância de fenómeno nascente que foi a ocidentalização da Rússia. Quando saímos de Moscovo, levávamos na recordação uma cidade movimentada, que nestes dias era o centro das notícias do mundo, pela crise da Geórgia e pela tentativa do governo russo de se afirmar como protagonista de primeira grandeza na cena internacional. E isso não impediu que o embaixador Manuel Marcelo Curto, apesar de todas as preocupações, pudesse apoiar-nos e receber-nos com grande simpatia e hospitalidade.
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Realizar o Congresso sobre a obra de Eduardo Lourenço constituiu um desafio apaixonante. Antes do mais, havia que pôr a tónica no autor e nos seus escritos, mas também importava abrir para o grande público a reflexão e o estudo, que hoje se desenvolvem em torno de um percurso intelectual, felizmente longo e fecundíssimo, que abrange um conjunto vasto de temas e problemas que relacionam cultura e vida, Portugal, a Europa e o Mundo. O CNC, que recebeu nos anos cinquenta, das primeiras conferências em Lisboa de Eduardo Lourenço, por iniciativa de Fernando Amado, Afonso Botelho e Almada Negreiros, e que nos anos sessenta esteve intimamente ligado à revista “O Tempo e o Modo” e nos anos setenta à “Raiz e Utopia”, que contaram com a presença constante e luminosa do autor de “Labirito da Saudade”, entendeu dever lançar uma iniciativa que não é de comemoração, mas de justa e necessária reflexão e de apelo à leitura e ao conhecimento de uma obra e de um autor, referências fundamentais da cultura portuguesa contemporânea.
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António Quadros no seu utilíssimo “Uma Visita à Rússia – Impressões e Reflexões” (Lisboa, 1969) afirma recordar «as multidões sorumbáticas e caladas com que me acotovelei (…) no metro de Moscovo, no Gum (grandes armazéns), na Exposição dos Progressos Soviéticos. Recordo os sonhos, as aspirações, as exaltações, as euforias e a animação dialéctica dos livros de Gogol, Dostoievsky, Tolstoi ou Tchekov. Total desfasagem. No entanto, o povo russo sabe recolher-se nostalgicamente na sua ‘ducha’ (a alma individual), faz sentir o seu espírito religioso nas tão belas melodias folclóricas que continua a cantar (…). Acorre às manifestações artísticas, ainda que estas sejam quase sempre muito convencionais – e é capaz de produzir na clandestinidade, obras de génio e liberdade, como ‘O Mestre e Margarida’, ‘Doutor Jivago’ ou ‘O Primeiro Círculo’». A desfasagem começa, no entanto, a desaparecer com a abertura de fronteiras. Premonitoriamente, à distância de quarenta anos, o ensaísta soube captar o essencial de uma sociedade que estava apta a renascer, pelas suas raízes. Sentimo-lo nos dias de hoje. O espírito da abertura de horizontes vai regressando.
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“Joaquim Paço d’Arcos, Correspondência e Textos dispersos, 1942-1979”, com selecção, organização e notas de João Filipe Paço d’Arcos e de Maria do Carmo Paço d’Arcos (Dom Quixote, 2008), dado à estampa no ano do centenário do romancista, reveste-se de indiscutível interesse, pois retrata uma época longa da sociedade portuguesa, que vai desde o auge da Segunda Grande Guerra Mundial até cinco anos depois de 25 de Abril de 1974, momento do falecimento do escritor. E se se usa como primeira baliza o ano de 1942 é porque esse é o ponto em que o escritor suspendeu a escrita das suas Memórias (“Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo”, 3 volumes).
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A VIDA DOS LIVROS
Há dias, em Cracóvia, recordámos, com sentimento de gratidão, o conde Atanazy Raczynski (1788-1874), autor de duas obras fundamentais sobre a História da Arte portuguesa: “Les Arts en Portugal – Lettres adressées à la Societé Scientifique de Berlin et accompagnées de documents”, 1846, e “Diccionnaire histórico-artistique du Portugal”, 1847 (ambos disponíveis na Internet). As obras são extraordinárias pela minúcia e rigor e abriram novos horizontes na historiografia. Invocamo-las hoje, no início do relato do nosso périplo pela Europa Oriental.
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Acaba de ser editado em Portugal “Istambul – Memórias de Uma Cidade” de Orhan Pamuk (1952), com tradução de Filipe Guerra (Presença, 2008), que recenseámos em Outubro de 2006 (16 a 22), aquando da atribuição do Prémio Nobel ao seu autor. Republicamos hoje o texto então produzido, revisto e aumentado por referência à edição portuguesa. Nessa altura usámos “Istanbul, Memories of a City” (Faber, 2006). Trata-se de um livro fundamental não só para se compreender a antiga Constantinopla projectada nos dias de hoje, mas também porque é uma obra-prima da literatura contemporânea – um misto de memórias, de biografia e de ensaio. Pamuk foi agraciado com o Prémio Nobel da Literatura, e a atribuição do galardão representa o reconhecimento de um escritor para quem não pode haver separação entre a vida, a arte e a escrita.
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