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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

PANIFICADORA DE VILA REAL

Arquiteto: Nadir Afonso - Vila Real, 1965 - Património Arquitetónico e industrial                                                                                                                                             Texto e imagens de Ana Morgado
Perspectiva do conjunto - Nadir Afonso
fachada principal (abril 17)
fachada principal (abril 17)
Demolição do forno (novembro 16)
Interior - coberturas (abril 17)
interior (abril 17)
painel axadrezado da fachada principal demolido

O início da segunda metade do século XX foi uma época de vontade de transformação e rutura com o “tradicional”, questionando-se o “português suave” do Estado Novo e procurando-se formas mais livres e arrojadas que conciliassem a forma (leveza estética) com a função.
No movimento moderno, a procura de respostas a estas questões de utilidade e funcionalidade, de uma nova dignidade no trabalho ligada aos novos enfoques sociais, foram um estímulo para o desenvolvimento de soluções inovadoras de organização do espaço, de grande arrojo nas formas e nas estruturas.
A arquitetura da indústria teve também uma grande influência na arquitetura moderna e os seus exemplos são, hoje, já relativamente escassos entre nós. Desaparecem no nosso país, pouco a pouco, os testemunhos de unidades fabris com grande integralidade, autenticidade e significativo e relevante valor arquitetónico, tornando premente a tarefa de salvaguardar os melhores exemplos que ainda restam.
A Panificadora de Vila Real é um notável exemplo da produção industrial moderna deste período, enquanto património arquitetónico e industrial.
Volumetricamente, a antiga fábrica organiza-se num único piso térreo com a exceção da casa do guarda, que possui um segundo piso, mas que não se evidencia em altura. O edifício apresenta uma forte horizontalidade do conjunto, a qual é quebrada pela existência da torre (silo) que se afirma enquanto elemento vertical, fortemente marcante, contribuindo para a afirmação deste conjunto arquitetónico na sua envolvente.
O seu espaço assegura formas de trabalho condignas - pelas preocupações de higiene e de iluminação natural – iluminação esta privilegiada pela existência de coberturas onduladas, interrompidas e desniveladas, que permitem uma plena entrada de luz, exigida para o trabalho fabril, que proporciona um controlo de iluminação surpreendente, tornando tais coberturas um elemento marcante e que muito contribui para a valorização do espaço interior. A complexidade exigida para a construção das lajes curvas em betão, de tão pouca espessura, levou a que se optasse por uma solução mais económica e ligeira, mas que sustentasse estas abóbadas, optando-se por uma estrutura metálica, coberta por chapa ondulada pelo exterior e aglomerado de madeira pelo interior, funcionando como um isolamento térmico mais adequado às necessidades do fabrico.
O grande envidraçado da fachada principal, formado por um painel axadrezado que conjuga o quadrado transparente, branco e magenta, é também uma marcante característica deste edifício e do seu autor, que sempre ligava à arquitetura a sua paixão pela pintura, tanto através da utilização da cor como da leveza do seu traço desenhado que tão bem conjugava a geometria entre a linha curva e a reta, assumindo um pleno domínio da estética moderna.
O edifício conserva ainda alguns detalhes construtivos muitíssimos originais, significativos para a história da construção do moderno entre nós, por exemplo, as suas “caixilharias” são executadas em elementos delgadíssimos de betão armado.
Do seu interior destaca-se o seu forno, construído em tijolo burro e revestido em painel de azulejos.
Muitas das características deste edifício, provêm do fabuloso percurso do seu autor. Sabemos que Nadir Afonso sempre foi mais destacado na área da pintura, contudo, era formado em arquitetura e foi um dos poucos arquitetos portugueses que trabalhou nos ateliês de dois dos mais conceituados arquitetos do século XX, Le Corbusier e Óscar Niemeyer, tendo contactado com referências e experiências quase únicas no quadro português, as quais não eram tão próximas, ou não estavam ao alcance, de muitos dos nossos arquitetos do seu tempo.
É hoje muito escassa a obra construída que persiste deste consagrado artista plástico e arquiteto. A sua produção, apesar de parca, possui uma elevada singularidade arquitetónica e é incontornável no panorama da cultura nacional, relevando o cuidado que hoje devemos ter com os últimos testemunhos que persistem. A sua conservação constitui em si mesma um contributo vital para a salvaguarda da memória e da passagem do movimento moderno por Portugal.
Todos estes fatores, juntamente com o seu cada vez maior estado de degradação (causado pelo abandono do edifício há cerca de 20 anos) levaram-nos a crer que a classificação da Panificadora, como imóvel de interesse público, seria uma mais-valia para a preservação da história da arquitetura do movimento moderno do nosso país.

ESTADO DO PROCESSO
A proposta de classificação da Panificadora de Vila Real, entregue à DGPC em maio de 2016, foi elaborada no âmbito de uma tese de mestrado sobre o edifício e subscrita por diversos arquitetos, de entre os quais se destaca o Arquiteto Álvaro Siza Vieira.
Após um ano, na madrugada de 8 abril de 2017, foram ilegalmente demolidas importantes partes do edifício, como o seu forno, o painel axadrezado da fachada principal e parte das suas coberturas onduladas. Imediatamente a DGPC ordenou a abertura de um processo extraordinário de classificação do edifício, o que impede qualquer tipo de intervenção até ser tomada uma decisão.
Um ano mais tarde, abril de 2018, a DGPC decide arquivar o processo de classificação da Panificadora sem dar um motivo válido para esta decisão, uma vez que os pareceres técnicos anexados à decisão são favoráveis.

Edição: 23 de maio de 2018