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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

ALBERTO LUÍS (1922-2017)

Amigo do Centro Nacional de Cultura, há muitas décadas, homem de cultura, jurista exímio, Alberto Luís é inseparável de Agustina Bessa-Luís, sua mulher. Foi proverbial o seu apego e entrega à obra da autora de “Sibila”. Deixa-nos um vazio insubstituível. Publicamos a propósito um sentido texto de Paulo Rangel no Público, com a devida vénia. 

O CNC apresenta sentidas condolências a toda a família.

Fotografia de Nelson Garrido

Alberto Luís: quando o humanismo se fez homem
Sei, e disso tenho certeza, que Alberto Luís foi o humanista que se fez homem, o humanista que se fez humano, o humanista que se fez carne.

1. No dia 20 de agosto de 2003, escrevi nesta mesma página: “para mim, Agustina será sempre a mulher de Alberto Luís, um homem do Renascimento – não sei se humanista, se mecenas, se príncipe –, que faz da vida um modo de arte e que elevou a advocacia à categoria de hobby”.
Não o via há um bom par de anos, sabia que dobrara os 95 anos, mas que continuava, à maneira helénica, espantado pela curiosidade do sempre e do agora. De quando em vez, por entre cruzamentos fortuitos, perguntava a alguém como ia o Dr. Alberto Luís. E a última nova, ainda ontem confirmada, já depois de saber da sua morte, é de que andava ocupado a estudar o “franciscanismo” e não cessava de recolher informação sobre este movimento filosófico, teológico e religioso – ainda muito a propósito das grandes linhas (e do maior ou menor acerto histórico e filosófico) que sua mulher dedicara a Santo António.

2. Alberto Luís era, sem dúvida, um dos grandes vultos da cultura portuguesa, não tanto da cultura produzida e publicitada, mas decerto da cultura vivida, transmitida, exercida, treinada, divulgada. Foi, a par disso, um advogado exímio, um jurista brilhante e enciclopédico. Não era um profissional do direito, era um homem das letras jurídicas. E vai uma distância abissal, de verdadeira dimensão epistemológica, entre a ciência ou o ofício do direito e o mundo cósmico das letras jurídicas. Ainda para lá da estatura cultural e da excecional envergadura jurídica e profissional, Alberto Luís era um cidadão, uma personalidade, um personagem, um ícone. Um personagem, um ícone, uma figura incontornável, fosse na sua muito amada e muito amante Ordem dos Advogados, fosse na sua muito sedutora e muito seduzida cidade do Porto. Um conversador inigualável, de trato cuidado e fino, de humor cáustico e omnipresente, discreto e subtil, sem pretensões nem afetações. Acompanhava frequentemente Agustina, dona daquele verbo dominante e cativante, que nem a escrita metamorfoseava. Mas nem a fama nem o carisma da sua companheira o ofuscavam ou ensombravam. Estava sempre lá para contar a sua história, para dar a sua versão, para corrigir os seus termos, para lançar o odor do seu saber, para derramar o perfume dos seus saberes. Poder partilhar uma mesa ou um simples assento numa sala com ambos era coisa fragorosa, que se pode saborear, inalar, tocar, sentir, mas que, diga-se o que se disser, não há maneira de contar. Era arte, arte pura. A arte de estar e, de “estando”, experimentar um pedaço do ser, um fragmento do “sendo”.

3. Como jurista e advogado, Alberto Luís era absolutamente excecional. Era um homem da cultura e das letras, mas não era um jurista displicente ou diletante. É lendário entre os leitores das suas obras, peças e artigos, o rigor dogmático, o apuro técnico e processual, o português exemplar. É, aliás, sobejamente conhecido o avanço gigantesco que fez o direito bancário por obra do seu punho e da sua prática. E se perfurava os limites do horizonte no direito privado, era impressionante a sua incursão profunda e profícua em temas insuspeitos que iam do direito criminal ao direito público. E mais ainda o modo, sem perder os rigores que o espartilho do direito sempre põe, como tudo declinava com a literatura ou a pintura ocidental de Homero a Julien Freund. A sua paixão e dedicação à profissão, ao estatuto deontológico e profissional dos advogados, o seu amor – porque era de amor que se curava – à Ordem dos Advogados, a relação de serventia da gleba em que se deixou envolver com a Revista da Ordem dos Advogados, sua pupila e sua íris, chegam a ser surpreendentes. Como podia um homem do humanismo e da cultura, na verdade, um artista, por essência livre e libertador, ter cultivado e desenvolvido uma relação orgânica tão forte, tão sedimentada, tão entranhada com uma entidade que não passa de uma associação pública, foi em tempos uma corporação e poderia até ser uma simples direção-geral? Apenas e só por um motivo: porque para ele a advocacia não era uma profissão nem um mester, não postulava uma empresa nem devinha um negócio, era uma vocação, uma arte, um continuum da ágora grega e do foro romano, uma espécie de embaixada do olimpo, complemento do trabalho dos deuses, em que ao sacerdote compete manter a sarça ardente da justiça. Era essa química sagrada, para não dizer essa alquimia sacramental, que ele entretinha com a Ordem e a sua, muito sua, Revista da Ordem.

4. Alberto Luís gostava de ter sido arquiteto e era um desenhador exímio, não faltando por aí quem possua, e bem dignas de nota, uma ou outra obra sua. Tinha um conhecimento vastíssimo de toda a espécie de incunábulos, vivia por entre iluminuras e gravuras para ilustrar afirmações e colorir conversas, era intimista o seu trato com as velhas edições dos grandes clássicos antes e depois da invenção da imprensa.

5. Nos últimos dias, primeiro em Buenos Aires no Foro Ibero-americano, depois em Braga num encontro do PPE, há dias num artigo do Público ou Stephen Hawking na Websummit, já só ouço falar da inteligência artificial e do grande salto que ela acaba de dar. Tudo isto, dito e lido, ao som desse já clássico do pós-humanismo ou do trans-humanismo que é Homo Deus de Harari. O grande temor é o de que a inteligência artificial supere o ser humano e consume a sua definitiva desumanização. Não sei o que diria Alberto Luís; mas vejo-o a regressar à Grécia e ao ócio, achando muito fleumaticamente que essas máquinas inteligentes poderiam libertar os homens de tarefas pesadas de raciocínio e cálculo, deixando-os a disfrutar do que verdadeiramente seria a essência do humano. Seria o regresso do ócio, da filosofia, da dialética, agora sem escravos, que eram afinal (e tão indignamente) “máquinas pensantes”. Imagino-o a dizer isto, amante como era da Grécia Antiga, mas não sei se diria.
Sei, e disso tenho certeza, que Alberto Luís foi o humanista que se fez homem, o humanista que se fez humano, o humanista que se fez carne.

Artigo de Paulo Rangel, in jornal Público | 14 de novembro de 2017